O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve, nesta quarta-feira (17), a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, frustrando parte das expectativas do mercado, que ainda acreditava na possibilidade remota de um corte de 0,25 ponto percentual. A decisão, embora amplamente precificada, ganhou peso adicional ao colocar o Brasil como o segundo país com o maior juro real do mundo, segundo levantamento da MoneYou e da Levante Intelligence, sob a coordenação do economista Jason Vieira.
Selic em 15% deixa Brasil com o 2º maior juro real do planeta
Com Selic mantida em 15%, Brasil alcança juro real de 9,51%, o segundo maior do mundo, atrás apenas da Turquia.
A taxa real de juros, que considera o diferencial entre a Selic nominal e as projeções de inflação, chegou a 9,51% ao ano. O país fica atrás apenas da Turquia (12,34%), superando nações como Rússia (4,79%), Colômbia (4,38%) e México (3,77%). A média global é significativamente mais baixa: apenas 1,45% entre os 40 países analisados no ranking.
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O que explica a decisão do Copom?
A influência do cenário fiscal e as incertezas políticas
Apesar de sinais recentes de desaceleração da inflação, o Copom optou por adotar uma postura conservadora, citando a persistência do risco fiscal como principal obstáculo a uma flexibilização monetária. O governo federal, pressionado por demandas de aumento de gastos e receitas abaixo do esperado, tem falhado em cumprir metas de resultado primário, o que aumenta a percepção de risco e desancora as expectativas de inflação futura.
Segundo Jason Vieira, “o Copom manteve o juro elevado como recado claro ao governo sobre a condução fiscal”. O economista avalia que a guerra tarifária global, impulsionada por países como os EUA, adiciona mais instabilidade ao cenário e reforça a cautela da autoridade monetária brasileira. “O foco fiscal está desviado. A elevação de barreiras comerciais cria ruído adicional no mercado e complica a vida do Copom”, analisa.
Comparação internacional: Brasil x outros mercados

Turquia lidera o ranking; Brasil se consolida no topo
O levantamento da MoneYou e da Levante Intelligence considera o juro real ex-ante, ou seja, a taxa nominal de juros descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses. No recorte de 40 economias, apenas Turquia (12,34%) supera o Brasil. O ranking destaca ainda que, mesmo com um eventual corte de 0,25 pp na Selic, o Brasil continuaria na mesma posição.
Os cinco países com maiores juros reais:
- Turquia: 12,34%
- Brasil: 9,51%
- Rússia: 4,79%
- Colômbia: 4,38%
- México: 3,77%
Médias globais:
- Média dos 40 países: 1,45%
- Países que mantiveram juros: 70%
- Países que cortaram juros: 30%
- Países que aumentaram juros: 0%
Essa posição de destaque no ranking não é necessariamente positiva. Embora um juro real elevado possa atrair capital estrangeiro e conter a inflação, também impacta negativamente o crescimento econômico, o consumo das famílias e os investimentos produtivos, além de agravar o custo da dívida pública.
Projeções e expectativas do mercado
Inflação em queda, mas incertezas permanecem
A inflação brasileira deu sinais de alívio nos últimos meses, impulsionada por fatores como queda nos preços internacionais de commodities, dólar menos pressionado e retração no consumo interno. Ainda assim, a projeção do IPCA para 2025 segue acima da meta do Banco Central, o que justifica a cautela da autoridade monetária.
Jason Vieira avalia que, mesmo diante de uma inflação mais comportada, o Copom está limitado pela ausência de responsabilidade fiscal do governo. “O corte dos juros nos EUA, previsto para os próximos meses, deve ser feito com base em dados marginais do mercado de trabalho, e não como resposta direta ao fiscal, como no Brasil”, compara.
Política monetária global: o Brasil na contramão?
Ações do Fed e impacto nos países emergentes
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) indica que poderá reduzir a taxa de juros em 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões do FOMC (Federal Open Market Committee). O presidente do Fed, Jerome Powell, tem sinalizado que os cortes deverão considerar os dados do mercado de trabalho e da inflação, que ainda mostram resiliência.
Enquanto isso, países da Europa e Ásia também seguem tendência de cortes ou manutenção cautelosa. Isso torna o Brasil uma das exceções em manter política monetária restritiva, o que pode trazer consequências ambíguas: de um lado, favorece o fluxo de capital estrangeiro; de outro, amplia o custo de oportunidade interno, afetando diretamente a atividade econômica.
Efeitos da Selic a 15% para a economia real
Crédito caro, PIB em desaceleração e impacto no consumo
A manutenção da Selic em níveis historicamente elevados provoca diversos efeitos colaterais na economia brasileira, especialmente nos setores produtivos e no mercado de trabalho. Entre os principais impactos estão:
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1. Crédito mais restrito e caro
Empresas e consumidores enfrentam condições mais difíceis para obter financiamento, o que afeta diretamente investimentos e consumo.
2. Desaceleração do PIB
Com menor atividade econômica, o crescimento do Produto Interno Bruto tende a ficar abaixo do potencial, limitando a geração de empregos e renda.
3. Pressão sobre o Tesouro Nacional
A dívida pública brasileira, já elevada, tem seu custo elevado com juros altos, o que compromete ainda mais o equilíbrio fiscal.
4. Reação do setor produtivo
Indústrias e comércio têm reclamado da postura “excessivamente dura” do Banco Central, alegando que a política monetária está sufocando a recuperação econômica.
Perspectivas futuras: quando virão os cortes?

Condição fiscal será decisiva nos próximos meses
Para que o Copom inicie um ciclo de cortes de juros, será necessário um sinal claro de melhora no quadro fiscal. A revisão das metas fiscais pelo governo, a aprovação de reformas estruturantes e a retomada da confiança nos fundamentos macroeconômicos serão elementos fundamentais.
Analistas do mercado projetam que eventuais reduções na Selic só ocorrerão a partir do segundo trimestre de 2026, caso o governo consiga estabilizar suas contas e o IPCA mantenha trajetória de queda.
Jason Vieira, por sua vez, acredita que o Copom deverá esperar o cenário internacional se consolidar antes de iniciar qualquer movimento mais agressivo, mesmo com pressão de setores da economia.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
