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Startup rastreia golpe bilionário e evita rombo de R$ 1 bilhão em criptomoedas

SmartPay, fintech de criptomoedas, detecta golpe de R$ 1 bilhão por Pix e rastreia transações em bitcoin. Saiba como foram identificadas oito contas suspeitas.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira6 min de leitura
Golpe Bitcoin

Em uma madrugada de segunda-feira, 30 de junho, a fintech brasileira SmartPay evitou o que poderia ser o maior golpe já registrado no mercado de criptomoedas do Brasil — o sumiço de R$ 1 bilhão de clientes da empresa de tecnologia C&M Software.

A história começa com uma transação aparentemente comum: uma conta recém-aberta fez um depósito de R$ 100 mil via Pix para comprar USDT. Mas aquilo que parecia mais um investidor agressivo virou chave para o rastreamento de um ataque cibernético mais amplo.

A partir dessa movimentação, a equipe liderada pelo criptoveterano Rocelo Lopes, cofundador da SmartPay, desvendou uma fraude que envolvia oito instituições financeiras e estimava um prejuízo de meio bilhão para um único cliente da C&M, totalizando cerca de R$ 1 bilhão em valores desviados.

A seguir, entenda como tudo foi detectado, investigado e bloqueado em tempo recorde — sem que nenhuma criptomoeda fosse perdida.

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Panorama do golpe: USDT, Pix e contas recém-criadas

Era 0h18 da madrugada quando Lopes recebeu um alerta vermelho: havia uma ordem de compra de USDT avaliada em R$ 100 mil, realizada por uma conta recém-criada. Embora fosse um valor alto para um perfil novo, a operação não era ilegal por si só — mas foi o primeiro de muitos sinais de atividade atípica.

  • Geolocalização compatível com região de alta renda;
  • KYC aprovado com documentos e reconhecimento facial;
  • Um simples “botão vermelho” no dashboard da fintech indicando valor acima do limite.

A partir disso, a equipe da SmartPay iniciou uma investigação ativa, monitorando outros cadastros e transações feitas nas horas seguintes.

Padrão atípico em horário incomum

Foi então que um segundo alerta disparou: vários cadastros de madrugada — um padrão em total desalinho com a movimentação normal da fintech. Clientes suspeitamente confiáveis, perfilados, mas sem histórico anterior. Tudo indicava que o ataque tinha sido coberto de camouflage.

Relação com o ataque à C&M Software

A SMART alertou Roxelo Lopes tinha acesso ao histórico de clientes da fintech, inclusive sobre eventos anteriores de KYC e transações. Duas ações confirmaram o golpe:

  1. Uma das contas vinha de registro problemático, com indícios de lavagem de dinheiro;
  2. A SmartPay monitorava operadores que compravam apenas USDT — e de repente viram pedidos de compra de Bitcoin (BTC) em volume atípico.

Foi o estopim: algo grave estava em curso.

Rastreamento na blockchain: NICHO de atuação da SmartPay

American Bitcoin
Reprodução: Seu Crédito Digital/Freepik

Acompanhar carteira por carteira

A blockchain é um livro-chefe público. Cada transação pode ser vista por meio de scanners como Arkham Intel, Chainalysis, CipherTrace etc. A SmartPay cruzou dados:

  • Origem do Pix — quais bancos enviavam;
  • Padrão de compra de criptomoedas — USDT vs BTC;
  • Carteiras conhecidas por transações vultosas pós-COVID 2020.

O resultado foi claro: aquilo não era uma compra de 100k, mas o embrião de um esquema que já estava se espalhando de forma brilhante.

Confirmação junto à BMP e C&M Software

Às 7h, a SmartPay entrou em contato com a banco parceira BMP e com a equipe da C&M Software, confirmando o padrão suspeito. O ataque estava vinculado à falha na infraestrutura da C&M — usada por várias instituições financeiras para serviços via Pix — e claramente envolvia credenciais comprometidas.

O nome “C&M” foi comentado, mas o BC, por meio do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), interviu bloqueando o acesso da C&M ao Pix já no dia 1º de julho, 48 horas após os primeiros alertas.

Como a SmartPay parou o golpe

Bloqueio automático e devolução aos destinatários

Desde o primeiro pedido de compra de 100 mil em USDT, a plataforma suspendeu todas as transações de clientes recém-criados e suspeitos. A SmartPay devolveu valores automaticamente para quem ainda não havia trocado o valor por criptomoeda.

Ao mesmo tempo, as movimentações on-chain mostraram que parte havia sido convertida em Bitcoin — mas a fintech conseguiu congelar as saídas para carteiras externas, evitando o pior.

Coordenação com autoridades

A SmartPay reportou o caso ao Banco Central, que confirmou haver risco sistêmico. Além disso, a Polícia Federal e Civil de São Paulo já iniciaram investigação sobre o ataque, com foco em:

  • Identificação da vulnerabilidade na C&M;
  • Perfis das contas envolvidas;
  • Caminhos das transações que entraram na blockchain.

A fintech está colaborando efetivamente, compartilhando logs de IP, KYC e dados de movimentação.

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O que motivou o ataque — e o que mudou no setor

Fraude via credenciais da C&M

Segundo Kamal Zogheib, diretor comercial da C&M, o ataque usou usuário e senha de clientes para invadir o sistema em modo automatizado — mas sem afetar sistemas internos ou alterar códigos, minimizando risco estrutural.

O problema está no fato de que a C&M se encontra fora das exigências que os bancos devem cumprir — como manter depósitos de garantia — o que significa que, em caso de falha judicial, os clientes permanecem expostos.

Um alerta para o SPB

O golpe evidenciou uma fragilidade: o Sistema de Pagamentos Brasileiro, incluindo Pix e conta PI, foi estruturado para conectar bancos e fintechs por meio de terceiros. Mas falhas na segurança podem permitir que um prestador serio vire ameaça sistêmica. O Banco Central já estuda reformulações.

Lições aprendidas — para fintechs e reguladores

SmartPay mostrou três pilares de defesa

  1. Monitoramento 24/7 de cadastros e volumes — alertas automáticos foram decisivos;
  2. Integração com dados on-chain e Pix — rastrear quem está operando com USDT ou BTC;
  3. Ação rápida e coordenação com BC e autoridades — o que evitou maiores danos.

Regulamentação em debate

A C&M Software não é obrigada a possuir garantias financeiras em caso de falhas. Se responsabilizada, poderá ter de reembolsar os bancos afetados — dinheiro que sairia do caixa dos bancos e, potencialmente, dos clientes.

Para o Banco Central, o caso mostra a urgência de:

  • Regulamentar prestadores de infraestrutura;
  • Exigir seguros ou capital mínimo;
  • Implantar protocolos de “deep KYC” e antifraude robustos.

Conclusão: como menos de R$ 100 mil evitou um colapso de R$ 1 bi

Bitcoin
Imagem: svetlichniy_igor / Shutterstock.com

A movimentação anômala de uma conta por R$ 100 mil em USDT foi o trigger para que a SmartPay — fintech de médio porte — evitasse o que poderia ter sido o maior golpe cibernético do mercado brasileiro. O modelo de integração entre Pix e blockchain provou-se eficaz quando bem estruturado, com monitoramento em tempo real, inteligência em cripto e respostas imediatas.

Este caso reforça a urgência de se repensar a segurança e a responsabilidade na era dos pagamentos instantâneos — e mostra que, mesmo em momentos de madrugada, uma operação bem desenhada pode conter um desastre financeiro.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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