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Tarifas altas fazem produtores considerarem deixar laranja apodrecer no pé

Nova tarifa dos EUA sobre suco de laranja do Brasil pode devastar setor citrícola; produtores avaliam deixar fruta apodrecer no pé.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto5 min de leitura
Tarifas altas fazem produtores considerarem deixar laranja apodrecer no pé

Uma nova barreira comercial imposta pelo governo dos Estados Unidos promete causar estragos profundos na principal cadeia produtiva do suco de laranja do mundo: o Brasil. A tarifa de 50% que entra em vigor a partir de 1º de agosto foi anunciada pelo ex-presidente Donald Trump, que lidera uma agenda protecionista em sua nova candidatura presidencial. A medida ameaça inviabilizar as exportações brasileiras para o principal destino do suco nacional, comprometendo toda a safra 2024/25.

O impacto não é apenas estatístico. Nas plantações, produtores já cogitam deixar a fruta apodrecer nos pés, diante da inviabilidade econômica de colhê-las e não encontrar mercado comprador.

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Queda nos preços acentua cenário de crise

Laranja trump suco de laranja
Imagem: Canva

A caixa de laranja, que há um ano era vendida por cerca de R$ 88, agora vale em média R$ 44, segundo levantamento do Cepea/USP. Para muitos produtores, esse valor sequer cobre os custos operacionais da colheita.

“Eu vejo que pode realmente já ficar fruto no pé por não ter mercado e você não vai gastar para tirar e não ter para quem vender”, lamenta o produtor Fabrício Vidal, que mantém uma fazenda em Formoso (MG).

O cenário é agravado pela expectativa de paralisações nas fábricas processadoras, que operam com capacidade reduzida diante da queda nas encomendas.

EUA compram 42% do suco exportado pelo Brasil

O Brasil é responsável por cerca de 80% do suco de laranja produzido no mundo. Desse total, 42% tem como destino os Estados Unidos, um mercado que movimentou US$ 1,31 bilhão na última safra. Com a nova tarifa, o custo de entrada do suco brasileiro no país saltará de US$ 415 por tonelada para mais de US$ 2.600, um aumento de 533%.

Para o diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto, o setor está alarmado. “Cada dia que vai chegando mais perto da entrada em vigor das tarifas aumenta a ansiedade em relação ao que pode acontecer”, afirmou à Reuters.

Impacto direto ao consumidor americano

A crise também deverá atingir o consumidor norte-americano. De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, a produção de suco de laranja doméstica está no menor nível em meio século. Para a safra 2024/25, o volume estimado é de 108,3 milhões de galões — insuficiente para atender à demanda do país, que importa 90% do suco consumido.

Marcas conhecidas como Tropicana, Minute Maid e Simply Orange dependem do suco brasileiro. Segundo a CitrusBR, Coca-Cola e PepsiCo, responsáveis por 60% do mercado de sucos nos EUA, também serão afetadas diretamente pela nova tarifa.

Empresas americanas contestam medida

Na semana passada, a Johanna Foods, tradicional empresa de sucos de Nova Jersey, entrou na Justiça contra a tarifa, alegando que a medida traria “danos financeiros significativos e diretos” tanto para a empresa quanto para os consumidores.

Apesar do apelo, o governo norte-americano ainda não sinalizou qualquer intenção de rever a decisão.

Dificuldade para encontrar novos mercados

suco de laranja trump
Imagem: Freepik

Para os exportadores brasileiros, substituir o mercado norte-americano não é tarefa simples. A renda per capita é fator determinante para o consumo de suco de laranja, o que limita os países compradores. Atualmente, apenas cerca de 40 países compram suco do Brasil — número bem inferior ao de mercados consumidores da carne brasileira, por exemplo.

A União Europeia já consome mais da metade do suco exportado pelo Brasil, reduzindo a margem para expansão. Outros países, como Índia e Coreia do Sul, aplicam tarifas elevadas. Já a China, apesar do tamanho de sua população, tem baixa penetração no mercado devido à renda familiar ainda limitada.

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Triangulação com Costa Rica é incerta

Uma possível saída seria exportar o suco via Costa Rica, prática já usada por algumas empresas para reduzir o impacto tarifário. No entanto, essa alternativa está sob risco de ser considerada ilegal pela OCDE, conforme alertou a CitrusBR.

“A triangulação pode violar regras internacionais e gerar sanções”, alertou o consultor Arlindo de Salvo.

No campo, incertezas e perdas acumuladas

Em Formoso e outras cidades do cinturão citrícola, o clima é de apreensão. O produtor Ederson Kogler admite que já está vendendo a fruta com prejuízo e teme um agravamento nas próximas semanas. “A única solução seria encontrar outros mercados. Só que são coisas que não acontecem do dia para a noite.”

A colheita de 2024 está em andamento e, sem destino certo para o produto, muitos agricultores avaliam abandonar parte da produção. Além do desperdício alimentar, a medida pode desencadear uma crise social e econômica em regiões altamente dependentes da citricultura.

Brasil busca diálogo, mas enfrenta impasse político

Nos bastidores diplomáticos, o governo brasileiro tenta abrir diálogo com autoridades norte-americanas, mas a conjuntura eleitoral nos EUA — com Trump liderando pesquisas — torna o cenário mais complexo.

O Ministério da Agricultura e o Itamaraty estudam acionar organismos internacionais como a OMC (Organização Mundial do Comércio) para contestar a medida, mas o tempo é curto e o impacto é imediato.

Imagem: Hans/Pixabay

Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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