Uma nova barreira comercial imposta pelo governo dos Estados Unidos promete causar estragos profundos na principal cadeia produtiva do suco de laranja do mundo: o Brasil. A tarifa de 50% que entra em vigor a partir de 1º de agosto foi anunciada pelo ex-presidente Donald Trump, que lidera uma agenda protecionista em sua nova candidatura presidencial. A medida ameaça inviabilizar as exportações brasileiras para o principal destino do suco nacional, comprometendo toda a safra 2024/25.
Tarifas altas fazem produtores considerarem deixar laranja apodrecer no pé
Nova tarifa dos EUA sobre suco de laranja do Brasil pode devastar setor citrícola; produtores avaliam deixar fruta apodrecer no pé.
O impacto não é apenas estatístico. Nas plantações, produtores já cogitam deixar a fruta apodrecer nos pés, diante da inviabilidade econômica de colhê-las e não encontrar mercado comprador.
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Queda nos preços acentua cenário de crise

A caixa de laranja, que há um ano era vendida por cerca de R$ 88, agora vale em média R$ 44, segundo levantamento do Cepea/USP. Para muitos produtores, esse valor sequer cobre os custos operacionais da colheita.
“Eu vejo que pode realmente já ficar fruto no pé por não ter mercado e você não vai gastar para tirar e não ter para quem vender”, lamenta o produtor Fabrício Vidal, que mantém uma fazenda em Formoso (MG).
O cenário é agravado pela expectativa de paralisações nas fábricas processadoras, que operam com capacidade reduzida diante da queda nas encomendas.
EUA compram 42% do suco exportado pelo Brasil
O Brasil é responsável por cerca de 80% do suco de laranja produzido no mundo. Desse total, 42% tem como destino os Estados Unidos, um mercado que movimentou US$ 1,31 bilhão na última safra. Com a nova tarifa, o custo de entrada do suco brasileiro no país saltará de US$ 415 por tonelada para mais de US$ 2.600, um aumento de 533%.
Para o diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto, o setor está alarmado. “Cada dia que vai chegando mais perto da entrada em vigor das tarifas aumenta a ansiedade em relação ao que pode acontecer”, afirmou à Reuters.
Impacto direto ao consumidor americano
A crise também deverá atingir o consumidor norte-americano. De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, a produção de suco de laranja doméstica está no menor nível em meio século. Para a safra 2024/25, o volume estimado é de 108,3 milhões de galões — insuficiente para atender à demanda do país, que importa 90% do suco consumido.
Marcas conhecidas como Tropicana, Minute Maid e Simply Orange dependem do suco brasileiro. Segundo a CitrusBR, Coca-Cola e PepsiCo, responsáveis por 60% do mercado de sucos nos EUA, também serão afetadas diretamente pela nova tarifa.
Empresas americanas contestam medida
Na semana passada, a Johanna Foods, tradicional empresa de sucos de Nova Jersey, entrou na Justiça contra a tarifa, alegando que a medida traria “danos financeiros significativos e diretos” tanto para a empresa quanto para os consumidores.
Apesar do apelo, o governo norte-americano ainda não sinalizou qualquer intenção de rever a decisão.
Dificuldade para encontrar novos mercados

Para os exportadores brasileiros, substituir o mercado norte-americano não é tarefa simples. A renda per capita é fator determinante para o consumo de suco de laranja, o que limita os países compradores. Atualmente, apenas cerca de 40 países compram suco do Brasil — número bem inferior ao de mercados consumidores da carne brasileira, por exemplo.
A União Europeia já consome mais da metade do suco exportado pelo Brasil, reduzindo a margem para expansão. Outros países, como Índia e Coreia do Sul, aplicam tarifas elevadas. Já a China, apesar do tamanho de sua população, tem baixa penetração no mercado devido à renda familiar ainda limitada.
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Triangulação com Costa Rica é incerta
Uma possível saída seria exportar o suco via Costa Rica, prática já usada por algumas empresas para reduzir o impacto tarifário. No entanto, essa alternativa está sob risco de ser considerada ilegal pela OCDE, conforme alertou a CitrusBR.
“A triangulação pode violar regras internacionais e gerar sanções”, alertou o consultor Arlindo de Salvo.
No campo, incertezas e perdas acumuladas
Em Formoso e outras cidades do cinturão citrícola, o clima é de apreensão. O produtor Ederson Kogler admite que já está vendendo a fruta com prejuízo e teme um agravamento nas próximas semanas. “A única solução seria encontrar outros mercados. Só que são coisas que não acontecem do dia para a noite.”
A colheita de 2024 está em andamento e, sem destino certo para o produto, muitos agricultores avaliam abandonar parte da produção. Além do desperdício alimentar, a medida pode desencadear uma crise social e econômica em regiões altamente dependentes da citricultura.
Brasil busca diálogo, mas enfrenta impasse político
Nos bastidores diplomáticos, o governo brasileiro tenta abrir diálogo com autoridades norte-americanas, mas a conjuntura eleitoral nos EUA — com Trump liderando pesquisas — torna o cenário mais complexo.
O Ministério da Agricultura e o Itamaraty estudam acionar organismos internacionais como a OMC (Organização Mundial do Comércio) para contestar a medida, mas o tempo é curto e o impacto é imediato.
Imagem: Hans/Pixabay

