A decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre parte das importações brasileiras reacendeu o debate sobre os efeitos do protecionismo na economia global. Apesar da preocupação inicial provocada pelo anúncio, especialistas avaliam que os impactos para o Brasil tendem a ser mais restritos do que o esperado, principalmente devido à extensa lista de produtos que ficaram de fora da medida.
Protecionismo de Trump expõe limites da política comercial dos EUA, avalia economista
Entenda por que a tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros deve ter impacto limitado e quais setores podem ser afetados pela medida.
A avaliação é da economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics (PIIE), nos Estados Unidos. Para ela, as exceções divulgadas pelo governo americano mostram que há limites para políticas tarifárias em um mundo marcado pela forte integração entre as cadeias produtivas.
Além de atingir apenas uma parcela das exportações brasileiras, a decisão também evidencia que fatores políticos têm pesado mais do que critérios econômicos na estratégia comercial adotada pelo presidente Donald Trump.
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O que muda com a nova tarifa

A tarifa adicional de 25% foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) após a conclusão de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana, instrumento utilizado para apurar práticas consideradas desleais por parceiros comerciais.
Segundo o governo dos EUA, a medida busca proteger empresas e trabalhadores americanos. As tarifas entram em vigor em 22 de julho, mas não atingirão toda a pauta exportadora brasileira.
Ao mesmo tempo em que confirmou a nova cobrança, Washington divulgou uma lista com mais de 2,2 mil produtos isentos da sobretaxa.
Produtos importantes ficaram de fora
Entre os itens que permanecerão livres da tarifa estão alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos, como café, carne bovina, frutas, fertilizantes, minerais, aeronaves e componentes industriais.
Na avaliação de Monica de Bolle, esse detalhe reduz significativamente o alcance da medida. Segundo a economista, cerca de dois terços das exportações brasileiras para o mercado americano continuarão sem qualquer cobrança adicional.
A exclusão desses produtos ocorre porque muitos deles são essenciais para a indústria dos Estados Unidos. Caso fossem tarifados, empresas americanas enfrentariam aumento nos custos de produção, o que poderia resultar em preços mais altos para consumidores locais.
Especialista vê motivação política
Para Monica de Bolle, a decisão possui uma motivação política mais evidente do que econômica.
Tradicionalmente, Donald Trump justifica a adoção de tarifas como forma de reduzir déficits comerciais dos Estados Unidos com outros países. No caso brasileiro, porém, essa justificativa perde força.
Os Estados Unidos registram superávit comercial na relação com o Brasil, ou seja, vendem mais produtos ao mercado brasileiro do que compram do país.
Segundo a economista, a medida representa uma forma de pressão política e geopolítica, sem uma lógica econômica consistente que explique a escolha do Brasil como alvo.
Economia global limita o protecionismo
Outro ponto destacado pela pesquisadora é que os Estados Unidos dependem de diversos insumos importados para manter sua produção industrial.
Essa integração faz com que políticas protecionistas encontrem obstáculos na própria economia americana.
Produtos brasileiros como ferro-gusa, componentes industriais e matérias-primas são utilizados por empresas dos Estados Unidos. Tarifá-los poderia prejudicar fabricantes locais, reduzir a competitividade da indústria e pressionar a inflação.
Na prática, isso demonstra que a capacidade dos Estados Unidos de impor barreiras comerciais é menor do que muitas vezes sugere o discurso político.
Quais setores brasileiros podem sentir os efeitos
Embora o impacto geral seja considerado limitado, alguns segmentos exportadores podem enfrentar dificuldades.
Empresas cujos produtos não aparecem na lista de isenções terão de lidar com preços mais elevados no mercado americano, o que pode reduzir a competitividade frente a concorrentes de outros países.
Mesmo assim, especialistas lembram que o Brasil vem ampliando a diversificação de seus parceiros comerciais nos últimos anos, reduzindo gradualmente a dependência das exportações para os Estados Unidos.
As negociações envolvendo o acordo entre Mercosul e União Europeia, além da ampliação das relações comerciais com países asiáticos e Canadá, fazem parte dessa estratégia.
Governo brasileiro estuda resposta
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Após o anúncio, o governo brasileiro classificou a decisão como um retrocesso nas relações entre os dois países.
Entre as alternativas avaliadas está o uso da Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada recentemente pelo Congresso Nacional, além da possibilidade de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Especialistas, porém, recomendam cautela. Uma retaliação ampla pode aumentar as tensões comerciais e provocar novas medidas por parte dos Estados Unidos, criando um ambiente de maior insegurança para empresas dos dois países.
Na avaliação de Monica de Bolle, uma resposta limitada teria caráter mais simbólico e diplomático, enquanto medidas mais duras poderiam desencadear uma disputa comercial de maiores proporções.
Negociações devem continuar
Apesar da adoção das tarifas, as negociações entre Brasil e Estados Unidos não foram encerradas.
O próprio governo americano informou que permanece aberto ao diálogo, enquanto representantes brasileiros buscam alternativas para reduzir os efeitos da medida.
A expectativa é que empresas e entidades dos dois países desempenhem um papel importante nas conversas, já que muitas companhias americanas dependem diretamente de produtos brasileiros para manter suas operações.
O que esperar daqui para frente

A nova tarifa representa mais um capítulo das disputas comerciais intensificadas desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. No entanto, a ampla lista de exceções mostra que o protecionismo enfrenta limites impostos pela própria dinâmica da economia global.
Para o Brasil, os efeitos tendem a ser concentrados em setores específicos, sem provocar mudanças expressivas na economia como um todo. Ao mesmo tempo, o episódio reforça a importância da diversificação de mercados e da busca por novos acordos comerciais para reduzir a dependência de um único parceiro.
Embora o cenário permaneça cercado de incertezas, especialistas avaliam que o diálogo entre os dois países deve continuar e que novas negociações ainda podem alterar o alcance das tarifas anunciadas.
Conclusão
Embora a tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos represente um novo desafio para parte das exportações brasileiras, a ampla lista de produtos isentos reduz significativamente seu impacto sobre a economia do país. O episódio reforça a importância de diversificar mercados e manter o diálogo entre os dois governos para evitar o agravamento das tensões comerciais. Nos próximos meses, o avanço das negociações e eventuais ajustes nas medidas serão determinantes para definir os efeitos da decisão sobre empresas e consumidores.
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