Motoristas e entregadores que trabalham por aplicativos já formam uma parcela relevante do mercado de trabalho brasileiro. Em 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas realizavam atividades por meio de plataformas digitais no trabalho principal, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa 1,9% dos trabalhadores ocupados no setor privado e é 25,4% maior do que o registrado em 2022.
O crescimento, porém, vem acompanhado de uma fragilidade que pode aparecer principalmente no futuro: apenas 35,9% dos trabalhadores plataformizados contribuíam para a Previdência Social, enquanto entre os demais trabalhadores do setor privado a proporção chegava a 61,9%.
Isso significa que uma parcela expressiva dessas pessoas trabalha atualmente sem formar uma proteção previdenciária. E o impacto pode aparecer não apenas na aposentadoria, mas também no acesso a benefícios em situações de incapacidade, maternidade e outros eventos previstos pela Previdência.
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Quantas pessoas trabalham por aplicativos no Brasil?

A pesquisa do IBGE mostra que o trabalho mediado por plataformas digitais ganhou espaço no mercado brasileiro.
Em 2024, aproximadamente 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais no serviço principal. Em comparação com 2022, houve aumento de 25,4%, equivalente a cerca de 335 mil trabalhadores a mais.
O grupo inclui profissionais que utilizam aplicativos para transportar passageiros, realizar entregas e prestar diferentes tipos de serviços. Motoristas e entregadores estão entre os trabalhadores mais conhecidos desse modelo.
O crescimento também ocorreu acompanhado de elevada informalidade. Em 2024, 71,1% dos trabalhadores plataformizados estavam na informalidade, contra 43,8% entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado.
Apenas 35,9% contribuem para a Previdência
A diferença na cobertura previdenciária chama atenção.
Segundo o IBGE, 35,9% dos trabalhadores por plataformas contribuíam para algum instituto oficial de Previdência em 2024. Entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado, o percentual era de 61,9%.
Na prática, isso significa que mais de seis em cada dez trabalhadores plataformizados não estavam contribuindo naquele momento.
O índice apresentou uma melhora em relação a 2022, quando a proporção de contribuintes era menor. Ainda assim, a distância em relação aos demais trabalhadores permaneceu significativa.
Por que deixar de contribuir pode ser um problema?
A contribuição ao INSS não está relacionada somente à aposentadoria.
Dependendo da situação e do cumprimento dos requisitos, o segurado pode ter acesso a benefícios previdenciários como aposentadoria, benefício por incapacidade temporária, aposentadoria por incapacidade permanente, salário-maternidade e pensão por morte para dependentes.
Para quem possui carteira assinada, o recolhimento previdenciário ocorre de maneira automática por meio da relação de trabalho. Já quem trabalha por conta própria precisa observar as regras da categoria e realizar suas próprias contribuições.
Quem trabalha de aplicativo pode pagar INSS?
Sim. Motoristas, entregadores e outros profissionais que trabalham por conta própria podem contribuir para a Previdência como contribuintes individuais, desde que estejam enquadrados corretamente.
Existem diferentes modalidades de contribuição. Uma delas prevê o recolhimento de 20% sobre o salário de contribuição, respeitados os limites mínimo e máximo estabelecidos pelo INSS.
Também existe o Plano Simplificado, com contribuição de 11% sobre o salário mínimo para os segurados que se enquadram nas condições previstas.
Em 2026, o salário mínimo é de R$ 1.621. Com isso, uma contribuição de 11% corresponde a R$ 178,31 por mês, enquanto 20% sobre o salário mínimo corresponde a R$ 324,20.
A escolha não deve considerar apenas o valor pago mensalmente. As modalidades possuem diferenças quanto às regras previdenciárias e à utilização do período de contribuição.
Quem não paga INSS fica sem aposentadoria?
Não necessariamente.
A ausência de contribuições durante determinado período significa que aquele intervalo não será contabilizado como período contributivo para a aposentadoria, conforme as regras aplicáveis.
Uma pessoa que já possui histórico de contribuições pode ter direitos relacionados a períodos anteriores. O problema surge quando o trabalhador passa muitos anos sem recolher e, posteriormente, precisa cumprir os requisitos previdenciários para obter uma aposentadoria.
Por isso, quem pretende utilizar a Previdência como parte da renda na velhice precisa acompanhar regularmente seu histórico e entender quais regras se aplicam ao próprio caso.
E quem nunca contribuiu pode receber o BPC?
O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é diferente da aposentadoria.
O benefício garante um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência ou ao idoso com 65 anos ou mais que cumpra os critérios estabelecidos pela legislação, incluindo os requisitos relacionados à renda familiar.
Em 2026, o valor corresponde a R$ 1.621.
O BPC não exige contribuições previdenciárias como requisito de acesso, mas também não pode ser tratado como uma aposentadoria alternativa para qualquer pessoa que nunca pagou INSS.
Além disso, o benefício possui características próprias. Não há pagamento de 13º salário e não existe pensão por morte para dependentes após o falecimento do beneficiário.
Trabalho por aplicativo tem renda maior?
Os dados do IBGE mostram que a renda mensal média dos trabalhadores plataformizados chegou a R$ 2.996 em 2024, enquanto o rendimento médio dos trabalhadores não plataformizados ficou em R$ 2.875 no recorte analisado.
A comparação muda quando a jornada de trabalho é considerada.
Os trabalhadores de plataformas tinham, em média, uma jornada semanal de 44,8 horas, contra 39,3 horas entre os demais trabalhadores.
Por hora trabalhada, o rendimento médio dos plataformizados foi de R$ 15,40, enquanto o dos trabalhadores não plataformizados chegou a R$ 16,80.
Ou seja, uma renda mensal maior não significa necessariamente uma remuneração mais vantajosa quando o número de horas trabalhadas é levado em consideração.
O crescimento dos aplicativos preocupa a Previdência?
O avanço do trabalho por plataformas ocorre em um período de forte transformação demográfica e de pressão sobre as contas previdenciárias.
O envelhecimento da população brasileira aumenta o número de pessoas que chegam às idades de aposentadoria e altera a relação entre trabalhadores ativos e beneficiários.
Segundo o Censo Demográfico 2022, a população brasileira com 65 anos ou mais cresceu 57,4% entre 2010 e 2022, enquanto a população de até 14 anos diminuiu.
Ao mesmo tempo, o número de trabalhadores plataformizados cresceu 25,4% entre 2022 e 2024.
Isso não significa que os trabalhadores de aplicativos sejam responsáveis pelo déficit do INSS. O resultado previdenciário é influenciado por diversos fatores, incluindo envelhecimento populacional, mercado de trabalho, arrecadação, regras de benefícios e despesas do sistema.
A baixa cobertura previdenciária entre os plataformizados, porém, representa uma questão relevante porque uma parcela crescente da força de trabalho não está contribuindo na mesma proporção dos demais trabalhadores.
O que o trabalhador de aplicativo deve fazer?
O primeiro passo é verificar a própria situação previdenciária.
O trabalhador pode acessar o Meu INSS para consultar vínculos, contribuições e informações registradas no sistema. A partir disso, é possível identificar eventuais períodos sem recolhimento e avaliar a modalidade adequada de contribuição.
Quem trabalha por conta própria deve verificar se o enquadramento como contribuinte individual é o correto para sua atividade.
Também é recomendável não pensar apenas na aposentadoria. A Previdência funciona como uma proteção durante a vida profissional, inclusive diante de situações que podem impedir temporariamente ou permanentemente o trabalhador de exercer sua atividade.
É possível complementar a Previdência com investimentos?
Sim. A formação de uma reserva financeira pode funcionar como complemento à renda previdenciária.
O planejamento pode envolver investimentos de longo prazo, desde alternativas de renda fixa até outras modalidades adequadas ao perfil e aos objetivos de cada pessoa.
A Previdência pública e os investimentos, porém, cumprem funções diferentes. Enquanto a contribuição previdenciária está ligada ao sistema de proteção social e ao cumprimento de requisitos legais para benefícios, uma reserva financeira privada pode oferecer maior flexibilidade patrimonial.
Por isso, depender exclusivamente de uma única fonte de renda na velhice pode aumentar a vulnerabilidade financeira.
O que acontece se o trabalhador continuar sem contribuir?

O principal risco é chegar à idade avançada sem cumprir os requisitos necessários para uma aposentadoria ou sem possuir uma reserva financeira suficiente para substituir a renda do trabalho.
Para motoristas e entregadores, a questão pode ser ainda mais relevante. A atividade depende diretamente da capacidade física de permanecer trabalhando e, em muitos casos, envolve longas jornadas.
A contribuição previdenciária também está relacionada à proteção contra acontecimentos que podem interromper a capacidade de gerar renda antes da velhice.
Por isso, deixar a decisão para o futuro pode criar um problema difícil de solucionar quando a idade avançar.
Conclusão
O trabalho por aplicativo já faz parte da realidade de milhões de brasileiros e continua crescendo. Em 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais, número 25,4% superior ao registrado em 2022.
O principal alerta está na cobertura previdenciária: somente 35,9% dos trabalhadores plataformizados contribuíam para a Previdência, contra 61,9% dos demais trabalhadores do setor privado.
Para quem depende dos aplicativos como fonte de renda, entender o funcionamento do INSS deixou de ser uma questão apenas para o futuro. Consultar o histórico previdenciário, identificar a categoria correta e avaliar uma estratégia de contribuição e formação de reserva pode fazer diferença tanto durante a vida profissional quanto na aposentadoria.
