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Inteligência artificial preocupa Fed e pode alterar rumo da economia americana

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e passou a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões sobre a economia dos Estados Unidos. Para o Federal Reserve, o banco central americano, a expansão da tecnologia já produz efeitos que podem influenciar inflação, produtividade, emprego, investimentos e até a estabilidade dos mercados […]

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 14 min de leitura
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A inteligência artificial deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e passou a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões sobre a economia dos Estados Unidos. Para o Federal Reserve, o banco central americano, a expansão da tecnologia já produz efeitos que podem influenciar inflação, produtividade, emprego, investimentos e até a estabilidade dos mercados financeiros.

A mudança ganhou força em 2026. Em documentos e discursos recentes, dirigentes do Fed passaram a discutir não apenas o potencial de aumento da produtividade provocado pela IA, mas também os custos associados à construção da infraestrutura necessária para sustentá-la.

A preocupação tem fundamento. A corrida por data centers, semicondutores, equipamentos de alta tecnologia e eletricidade aumentou a demanda por determinados insumos e já contribuiu para pressionar alguns preços. Ao mesmo tempo, empresas começam a alterar suas decisões de contratação em funções cujas tarefas podem ser automatizadas por sistemas de IA.

O resultado é um paradoxo que coloca a tecnologia no centro do debate econômico: a IA pode ser inflacionária no curto prazo e deflacionária no futuro.

Se conseguir elevar significativamente a produtividade, a tecnologia poderá permitir que empresas produzam mais com menos recursos, aumentando a oferta e reduzindo custos. Mas, até que esses ganhos apareçam, a própria construção da economia baseada em IA exige enormes volumes de capital, energia, equipamentos e mão de obra especializada.

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Por que o Fed está acompanhando a inteligência artificial?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O Federal Reserve possui um chamado mandato dual: buscar condições compatíveis com preços estáveis e máximo emprego sustentável.

A inteligência artificial pode afetar os dois lados simultaneamente.

Uma adoção mais ampla da tecnologia pode aumentar a quantidade produzida por trabalhador e elevar a produtividade da economia. Em tese, isso permitiria um crescimento maior sem necessariamente provocar o mesmo nível de pressão inflacionária que ocorreria em uma economia com oferta limitada.

Essa possibilidade já era considerada pelo Fed antes de 2026. Em 2024, dirigentes da instituição afirmavam que a IA poderia se tornar uma fonte relevante de produtividade, embora alertassem que os ganhos dependeriam de investimentos complementares, mudanças nas empresas e treinamento dos trabalhadores.

O que mudou é a escala da discussão.

Em 2026, a IA passou a aparecer associada também a questões mais imediatas: preços de componentes, investimentos corporativos, demanda por eletricidade, contratação de trabalhadores e riscos financeiros.

Nas atas do FOMC, o Comitê Federal de Mercado Aberto, participantes observaram que a forte demanda por infraestrutura de IA poderia manter pressão sobre os preços de produtos tecnológicos e eletricidade. Ao mesmo tempo, reconheceram que os ganhos de produtividade decorrentes da adoção da tecnologia poderiam reduzir custos posteriormente.

A corrida pela infraestrutura já está pressionando preços

Construir uma economia baseada em inteligência artificial exige muito mais do que desenvolver modelos de linguagem.

Data centers precisam de servidores, chips avançados, sistemas de refrigeração, redes de transmissão, software e grandes quantidades de energia. Essa demanda ocorre ao mesmo tempo em que empresas de tecnologia ampliam seus investimentos para acompanhar o crescimento do uso da IA.

Em discurso realizado em agosto, a governadora do Federal Reserve Lisa Cook afirmou que o aumento dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial contribuiu para elevar os preços de semicondutores, equipamentos de alta tecnologia, software e serviços públicos.

O próprio relatório de política monetária do Fed publicado em julho identificou uma aceleração nos preços de softwares, computadores e outros produtos eletrônicos nos primeiros meses de 2026. Segundo o documento, o movimento provavelmente refletiu, em parte, o aumento da demanda por semicondutores e outros componentes utilizados na construção dos data centers.

Isso cria um efeito aparentemente contraditório.

Quanto mais rapidamente a infraestrutura de IA é construída, maior pode ser a pressão sobre determinados preços no curto prazo.

Por outro lado, quando essa infraestrutura estiver funcionando e as empresas conseguirem utilizá-la de forma eficiente, a produtividade poderá aumentar.

É justamente essa transição que o Fed precisa acompanhar.

A IA pode deixar a inflação mais baixa no futuro?

Sim, mas isso ainda não está garantido.

Imagine uma empresa que utiliza inteligência artificial para automatizar parte de uma tarefa que anteriormente exigia várias horas de trabalho humano. Se o resultado for produzido com menor custo, a empresa poderá aumentar sua produtividade.

Em um cenário de adoção ampla, esse processo poderia aumentar a capacidade produtiva da economia. Mais produtos e serviços disponíveis para uma determinada quantidade de recursos tendem a reduzir pressões sobre preços.

Esse é um dos motivos pelos quais dirigentes do Fed enxergam a IA como potencial fonte de crescimento de produtividade.

O problema é o tempo necessário para que esse ganho apareça nas estatísticas econômicas.

O próprio Federal Reserve já observou que os efeitos mensuráveis da IA sobre a produtividade ainda parecem modestos, porque muitas empresas precisam de tempo para descobrir como integrar a tecnologia aos processos de trabalho.

Portanto, não basta comprar ferramentas de IA.

As empresas precisam reorganizar processos, treinar funcionários, modificar estruturas de gestão e descobrir quais tarefas realmente podem ser automatizadas. Esse período de adaptação pode durar anos.

E os empregos? A mudança já começou, mas é desigual

A ideia de que a inteligência artificial provocaria imediatamente uma onda generalizada de desemprego ainda não se confirmou.

Os dados disponíveis mostram um cenário mais complexo. Em alguns setores, a demanda por determinados profissionais está diminuindo, enquanto novas oportunidades surgem em áreas relacionadas à tecnologia e à infraestrutura.

Um dos sinais mais relevantes aparece entre trabalhadores jovens.

Pesquisa do Federal Reserve Bank de Dallas encontrou queda no emprego de trabalhadores jovens em ocupações mais expostas à IA. Entre novembro de 2022 e setembro de 2025, a participação do emprego de pessoas de 20 a 24 anos nas ocupações classificadas como de maior exposição à IA caiu de 16,4% para 15,5%.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que o impacto agregado ainda é pequeno e que a relação observada não prova, por si só, que a IA seja a causa direta da queda.

O dado mais interessante está em como essa redução ocorre.

Segundo o estudo, não houve evidência de aumento significativo das demissões de jovens em ocupações altamente expostas. O principal movimento ocorreu na entrada de novos trabalhadores nesses empregos.

Isso muda a interpretação do problema.

O problema pode estar nos primeiros empregos

Durante décadas, muitas carreiras seguiram uma trajetória relativamente previsível: o profissional entrava no mercado realizando tarefas mais simples, adquiria experiência e posteriormente avançava para funções mais complexas.

A inteligência artificial pode interferir justamente nessa primeira etapa.

Pesquisas do Fed de Dallas indicam que sistemas de IA conseguem executar parte de tarefas associadas a ocupações de escritório, programação, atendimento ao cliente, edição e outras atividades que tradicionalmente serviam como porta de entrada para trabalhadores com pouca experiência.

Um estudo publicado em setembro de 2026 encontrou sinais ainda mais recentes dessa transformação no mercado de trabalho do Texas. As empresas passaram a publicar menos vagas em ocupações cujas tarefas apresentam maior possibilidade de automação por IA. Até o primeiro trimestre de 2025, os anúncios para posições mais expostas haviam caído aproximadamente 8% em relação às menos expostas, segundo a metodologia utilizada pelos pesquisadores.

O efeito estimado sobre o conjunto de anúncios de emprego no Texas ainda foi relativamente pequeno: a exposição à automação por IA teria reduzido os anúncios online em cerca de 1,8% em 2024 e 2,6% em 2025.

Mas a distribuição desse impacto é mais importante do que o número agregado.

Como muitas das vagas anunciadas online exigem pouca experiência profissional, uma redução nesse tipo de contratação pode atingir especialmente quem está entrando no mercado.

O desafio, portanto, não é apenas descobrir quantos empregos a IA vai eliminar. É entender como os jovens conseguirão adquirir experiência se parte das funções iniciais deixar de existir.

Trabalhadores experientes podem ter uma vantagem

A transformação não significa necessariamente que profissionais mais experientes serão simplesmente substituídos.

Uma análise do Fed de Dallas encontrou evidências de que a IA pode exercer dois efeitos diferentes: substituir determinadas tarefas realizadas por trabalhadores iniciantes e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade de profissionais que possuem conhecimento adquirido com experiência.

Essa diferença é importante porque nem todo conhecimento pode ser facilmente transformado em instruções para uma máquina.

Um trabalhador experiente pode saber interpretar situações inesperadas, negociar com clientes, tomar decisões em ambientes de incerteza ou combinar diferentes informações de maneira que não seja simples de automatizar.

Nesse caso, a IA funciona mais como uma ferramenta de ampliação da capacidade humana do que como substituta completa do profissional.

A consequência pode ser uma mudança no valor da experiência.

Em vez de uma tecnologia simplesmente eliminar uma profissão inteira, ela pode reduzir a necessidade de determinadas tarefas básicas e aumentar a produtividade de quem domina as partes mais complexas do trabalho.

O “milagre” da produtividade ainda precisa acontecer

Existe uma visão bastante otimista sobre o futuro da IA.

Se a tecnologia aumentar significativamente a produtividade, os Estados Unidos poderiam entrar em uma fase de crescimento econômico mais acelerado sem uma pressão proporcional sobre a inflação.

Essa possibilidade foi destacada pelo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, durante o simpósio econômico de Jackson Hole, em agosto de 2026.

Warsh classificou a IA como uma nova variável econômica e potencialmente como um novo fator de produção. Ele também levantou questões sobre a velocidade e a dimensão dos ganhos de produtividade e sobre como os benefícios econômicos serão distribuídos entre empresas, consumidores, trabalhadores e proprietários de capital.

O ponto central é que o ganho de produtividade ainda não está completamente comprovado em escala suficiente para transformar a economia americana.

A tecnologia já produz ganhos específicos em empresas e setores. O que ainda precisa ser demonstrado é se esses ganhos serão amplos, persistentes e grandes o suficiente para alterar a trajetória de produtividade de toda a economia.

Essa diferença é fundamental.

Uma ferramenta pode tornar milhares de trabalhadores mais eficientes sem necessariamente provocar uma transformação estatística significativa no crescimento da produtividade nacional.

O outro risco: uma nova bolha financeira

Existe ainda uma segunda preocupação para o Federal Reserve.

A corrida pela inteligência artificial movimentou enormes volumes de capital e elevou as expectativas em torno de empresas ligadas a chips, computação, data centers, nuvem e desenvolvimento de modelos.

O problema surge quando o preço dos ativos começa a depender de expectativas de crescimento que ainda não foram comprovadas pelos resultados econômicos.

As atas do Fed de julho mostram que autoridades discutiram justamente esse risco. Participantes observaram que uma eventual revisão negativa das expectativas sobre os lucros futuros das empresas de IA poderia provocar uma queda ampla nos preços dos ativos, apertar as condições financeiras e atingir instituições expostas ao setor.

Outro ponto chamou atenção: parte crescente dos investimentos em infraestrutura de IA vem sendo financiada por dívida, inclusive por meio de investidores não bancários e bancos regionais.

Isso aumenta a preocupação caso a rentabilidade esperada desses investimentos não se materialize.

Uma tecnologia revolucionária também pode produzir uma bolha

A história econômica mostra que essas duas coisas não são incompatíveis.

A internet transformou profundamente a economia mundial. Ainda assim, a primeira grande onda de empresas de internet também produziu uma bolha financeira que terminou em uma forte correção no início dos anos 2000.

O mesmo princípio pode se aplicar à inteligência artificial.

A tecnologia pode ser genuinamente revolucionária e, ao mesmo tempo, algumas empresas ou ativos ligados a ela podem estar supervalorizados.

Por isso, o Fed precisa observar não apenas o potencial tecnológico da IA, mas também a forma como esse potencial está sendo precificado pelos mercados.

Uma queda brusca nas expectativas poderia reduzir investimentos, afetar a riqueza das famílias e enfraquecer o consumo. Esse mecanismo já é considerado nas avaliações de estabilidade financeira do banco central.

O que pode acontecer nos próximos anos?

Ainda não existe uma resposta definitiva.

Há pelo menos três caminhos possíveis.

No primeiro, a inteligência artificial entrega ganhos expressivos de produtividade. Empresas produzem mais com menos recursos, os custos diminuem e a economia consegue crescer mais rapidamente sem gerar inflação proporcional.

No segundo, a tecnologia aumenta a eficiência de algumas empresas, mas seus efeitos permanecem concentrados. Nesse caso, os ganhos de produtividade existem, porém não são suficientes para transformar toda a economia.

No terceiro, as expectativas crescem mais rapidamente do que os resultados. Investimentos excessivos são realizados, a capacidade construída supera a demanda e uma correção nos mercados reduz os investimentos e afeta o crescimento.

Também é possível que os três fenômenos aconteçam ao mesmo tempo, mas em setores diferentes.

É justamente essa incerteza que torna a IA um problema econômico tão complexo.

A grande pergunta é quem ficará com os ganhos da IA

A discussão sobre inteligência artificial deixou de ser apenas uma questão sobre máquinas substituindo pessoas.

Agora existe uma pergunta econômica maior: quem ficará com o ganho de produtividade gerado pela tecnologia?

Se uma empresa consegue produzir mais utilizando menos trabalhadores, parte do benefício pode aparecer nos lucros. Outra parcela pode chegar aos consumidores por meio de preços menores. Trabalhadores também podem se beneficiar caso a produtividade aumente salários e crie novas funções.

Mas essa distribuição não acontece automaticamente.

A própria discussão dentro do Federal Reserve mostra que o impacto pode ser diferente entre trabalhadores jovens e experientes, entre empresas e setores e entre os proprietários dos ativos necessários para a expansão da IA.

Esse talvez seja o principal desafio econômico da próxima década.

A inteligência artificial pode aumentar o tamanho da economia. Mas isso não significa, por si só, que todos ganharão na mesma proporção.

O que a inteligência artificial já mudou na economia americana?

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

A resposta mais precisa é: menos do que alguns otimistas esperavam e mais do que parecia possível há poucos anos.

Ainda não há evidência de uma substituição generalizada de trabalhadores causada exclusivamente pela IA. Ao mesmo tempo, existem sinais concretos de mudanças na contratação, principalmente em ocupações mais expostas à automação e entre trabalhadores jovens.

Também já existem efeitos sobre preços. A enorme demanda por infraestrutura de inteligência artificial contribuiu para pressionar semicondutores, equipamentos de alta tecnologia, software e alguns serviços públicos.

E o mercado financeiro passou a incorporar expectativas gigantescas sobre o futuro da tecnologia.

O Federal Reserve, portanto, não está tentando prever se a IA será “boa” ou “ruim” para a economia.

A tarefa é mais difícil: entender em que velocidade a tecnologia será adotada, quais trabalhadores serão afetados, quando os ganhos de produtividade aparecerão, quanto investimento será necessário e quais riscos financeiros podem surgir durante a transição.

A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma história do Vale do Silício. Para o banco central americano, ela começa a fazer parte da própria equação que determina juros, inflação, emprego e crescimento.

E a maior transformação talvez ainda esteja por vir.

Conclusão

A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma inovação tecnológica e passou a influenciar decisões econômicas nos Estados Unidos. Para o Federal Reserve, o desafio será equilibrar os possíveis ganhos de produtividade com os impactos sobre inflação, empregos e mercados financeiros.

Ainda não é possível saber o tamanho dessa transformação, mas uma coisa já está clara: a IA poderá mudar profundamente a economia americana — e seus efeitos serão sentidos muito além do setor de tecnologia.

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