Após atingir em 2023 o menor nível da série histórica, o trabalho infantil voltou a crescer no Brasil em 2024, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O aumento foi de 2,1%, o que representa 34 mil crianças e adolescentes a mais em situação de trabalho infantil em relação ao ano anterior.
Brasil registra alta no trabalho infantil; entenda a situação
IBGE revela que o trabalho infantil voltou a crescer em 2024, atingindo 1,65 milhão de crianças e adolescentes. Veja dados da Pnad Contínua e impactos sociais.
Ao todo, 1,65 milhão de jovens entre 5 e 17 anos foram identificados nessas condições, de acordo com a Pnad Contínua: Trabalho de Crianças e Adolescentes de 5 a 17 anos (2024).
O levantamento acendeu o alerta entre especialistas, já que o Brasil vinha registrando tendência de queda consistente nesse indicador desde 2016.
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Os números do trabalho infantil em 2024

Avanço após redução histórica
Em 2023, o país havia registrado o menor nível de trabalho infantil da série histórica, com forte influência da redução da pobreza após a ampliação de programas sociais. Já em 2024, o movimento se inverteu levemente:
- População de 5 a 17 anos no Brasil: 37,9 milhões
- Jovens que exerciam atividades econômicas ou de consumo próprio: 1,95 milhão
- Em situação de trabalho infantil: 1,65 milhão (4,3% do total da faixa etária)
Piores formas de trabalho infantil
Um dado positivo foi a redução de 5,1% no contingente de jovens nas piores formas de trabalho infantil, listadas como TIP (Trabalho Infantil Perigoso), que caiu para 560 mil pessoas — o menor patamar desde 2016.
Informalidade
Também houve queda na taxa de informalidade entre adolescentes de 16 e 17 anos, indicando algum avanço no acesso ao trabalho formal nessa faixa etária.
O contexto econômico e social
O impacto da redução da pobreza em 2023
O ano de 2023 foi marcado pela saída de 8,7 milhões de pessoas da pobreza, em parte devido à manutenção do valor do Bolsa Família em R$ 600, política retomada após as eleições de 2022.
Esse movimento contribuiu para o recuo expressivo do trabalho infantil naquele período.
Estabilidade ou reversão de tendência?
Segundo Gustavo Geaquinto Fontes, analista do IBGE, o crescimento em 2024 não necessariamente representa uma reversão de tendência.
“Ainda é cedo para afirmar se é uma mudança de trajetória. O resultado pode indicar uma certa estabilidade, já que os números permanecem bem abaixo dos patamares observados em anos anteriores”, disse.
Em 2016, início da série, o índice era de 5,2%, com 2,1 milhões de crianças e adolescentes em trabalho infantil. Entre 2016 e 2024, houve queda de 21,4%.
Perfil do trabalho infantil em 2024
Por faixa etária
- 5 a 13 anos: estabilidade, mas ainda preocupante pela ilegalidade absoluta dessa faixa em qualquer tipo de trabalho.
- 14 a 15 anos: pequenas variações, com leve queda.
- 16 a 17 anos: concentrou o aumento, especialmente entre os meninos.
Diferença de gênero
- Entre meninos de 16 e 17 anos, houve alta significativa.
- Entre as meninas, registrou-se queda no contingente em trabalho infantil em todas as faixas etárias.
Diferença racial
- Jovens pretos e pardos continuam recebendo menores rendimentos médios (R$ 789) em comparação aos brancos (R$ 943).
- Ainda assim, pretos e pardos tiveram crescimento maior de renda em 2024 (6,9%) em relação aos brancos (3,17%).
Rendimentos e desigualdade
Diferença entre aprendiz e trabalho infantil
- Jovens em ocupações fora do trabalho infantil (como aprendizes) receberam em média R$ 1.083 mensais.
- No trabalho infantil, a renda caiu para R$ 845.
- Nas piores formas de trabalho infantil, a média foi ainda menor: R$ 789.
Disparidades por sexo
- Homens: aumento de 8,45% na renda, chegando a R$ 924.
- Mulheres: queda de 4,54%, com média de R$ 693.
- Nas idades de 5 a 13 anos, meninas chegaram a receber 53,12% menos que em 2023, com rendimento médio de apenas R$ 165.
O papel do Bolsa Família
Trabalho infantil em lares beneficiados
Entre os 13,8 milhões de jovens de 5 a 17 anos em famílias que recebem o Bolsa Família, o contingente em trabalho infantil ficou praticamente estável:
- 717 mil crianças e adolescentes nessa situação
- Representam 43,5% do total em trabalho infantil no país
Comparação com famílias não beneficiadas
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- Entre famílias sem Bolsa Família, a taxa subiu de 4,2% para 4,3%.
- Entre famílias com Bolsa Família, houve recuo de 5,3% para 5,2%.
Frequência escolar
- Geral: 97,5% de jovens frequentam a escola.
- Entre os que trabalham: cai para 88,8%.
- Entre beneficiários do Bolsa Família: sobe para 91,2%, mostrando o papel do programa em mitigar os efeitos da exploração infantil sobre a escolarização.
Especialistas alertam para riscos futuros
Possíveis causas do aumento
Embora o IBGE evite apontar razões diretas, especialistas apontam fatores que podem ter contribuído:
- Desigualdade persistente em regiões periféricas.
- Necessidade de complementar renda familiar diante de inflação setorial em alimentos e transporte.
- Cultura permissiva em áreas rurais e urbanas de baixa renda, onde o trabalho precoce ainda é visto como forma de aprendizado.
Consequências a longo prazo
Estudos mostram que o trabalho infantil compromete o desenvolvimento escolar, aumenta riscos de evasão e perpetua ciclos de pobreza. Além disso, trabalhos perigosos podem gerar danos permanentes à saúde física e mental de crianças e adolescentes.
Medidas de enfrentamento

Fiscalização e políticas públicas
O combate ao trabalho infantil depende de uma rede de ações articuladas:
- Fortalecimento da fiscalização trabalhista e do Ministério Público do Trabalho.
- Ampliação de programas sociais, como o Bolsa Família, para reduzir a necessidade de crianças complementarem a renda familiar.
- Campanhas educativas que desnaturalizem o trabalho infantil, especialmente em áreas rurais.
O papel da sociedade
Organizações da sociedade civil, escolas e famílias também são peças-chave. O incentivo à denúncia de casos e a conscientização sobre os danos do trabalho precoce são estratégias essenciais.
Considerações finais
O aumento de 2,1% no trabalho infantil em 2024 é um alerta importante, mas ainda não suficiente para apontar uma reversão de tendência. O Brasil continua em patamares historicamente baixos, mas o desafio permanece imenso: 1,65 milhão de crianças e adolescentes seguem em situação de exploração.
A pesquisa do IBGE mostra que o problema é marcado por desigualdade de gênero, raça e renda, refletindo as contradições estruturais do país. O Bolsa Família se destaca como fator de mitigação, mas não elimina o fenômeno.
O resultado de 2025 será crucial para entender se o avanço em 2024 é apenas um ponto fora da curva ou o início de uma nova fase de crescimento do trabalho infantil no Brasil.
