O crescimento do trabalho por aplicativo transformou profundamente o mercado de transporte e entregas no Brasil. Milhões de motoristas e entregadores passaram a utilizar plataformas digitais para gerar renda com maior flexibilidade de horários e autonomia profissional.
O fim da autonomia? Saiba como o novo PL reduz os ganhos de motoristas
Projeto no Congresso quer criar modelo intermediário para trabalho por aplicativo e pode mudar tributação e renda de motoristas.
Agora, um novo projeto em tramitação no Congresso Nacional pretende regulamentar esse tipo de atividade com a criação de um modelo intermediário entre trabalhador autônomo e empregado formal pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A proposta, no entanto, tem provocado críticas de diferentes lados do setor.
Plataformas digitais, especialistas, juristas e representantes de motoristas apontam possíveis problemas na proposta, que pode alterar o enquadramento jurídico das empresas, aumentar a carga tributária e até reduzir os ganhos dos trabalhadores. Além disso, há questionamentos sobre insegurança jurídica e possíveis conflitos com a Constituição.
Leia mais:
CPMI do INSS 2026: Veja os motivos reais que levaram Leila Pereira ao centro da investigação
O que diz o projeto que regula o trabalho por aplicativo
O Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025, relatado pelo deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), pretende criar um novo marco legal para motoristas e entregadores que trabalham por meio de plataformas digitais.
Hoje, empresas como Uber, 99 e aplicativos de entrega são classificadas como plataformas de intermediação digital. Elas conectam trabalhadores autônomos a usuários que precisam de transporte ou entrega.
O projeto altera essa lógica ao considerar que os aplicativos oferecem serviços de transporte ou entrega, aproximando o modelo das empresas tradicionais do setor.
Essa mudança parece técnica, mas na prática pode provocar transformações profundas no funcionamento do mercado.
Como funciona o modelo atual
Atualmente, o funcionamento ocorre em três etapas principais:
- O aplicativo conecta o usuário ao motorista ou entregador
- O trabalhador presta o serviço diretamente ao cliente
- A plataforma recebe uma comissão pela intermediação
Nesse modelo, a empresa não é considerada prestadora direta do serviço de transporte.
Por isso, os impostos incidem apenas sobre a taxa de intermediação, e não sobre o valor total da corrida.
O que muda com a proposta
Com o novo enquadramento proposto no PLP 152/2025:
• as plataformas passam a ser consideradas empresas de transporte
• o valor total da corrida passa a ser tratado como receita da empresa
• novos tributos podem incidir sobre toda a operação
Essa mudança é uma das principais fontes de preocupação para o setor.
Aumento da carga tributária preocupa especialistas
Especialistas em direito tributário afirmam que a alteração do enquadramento pode elevar significativamente a carga de impostos sobre as corridas e entregas.
O advogado tributarista Luiz Gustavo Bichara alerta que o projeto cria incertezas sobre como os tributos serão aplicados.
Segundo ele, hoje os impostos são calculados apenas sobre a comissão do aplicativo. Se a plataforma passar a ser considerada empresa de transporte, os tributos poderão incidir sobre todo o valor da corrida.
Exemplo prático da tributação atual
Imagine uma corrida de R$ 40:
• R$ 30 vão para o motorista
• R$ 10 ficam com a plataforma
Os impostos incidem apenas sobre os R$ 10.
Como ficaria no novo modelo
Se o projeto for aprovado:
• os impostos poderiam incidir sobre os R$ 40
• os custos aumentariam
• o valor repassado ao motorista poderia diminuir
Isso porque o trabalhador receberia apenas o valor restante após os descontos da empresa.
Estudo aponta possível redução da renda dos motoristas
Uma projeção divulgada pelo Conselho Digital, entidade que representa empresas de tecnologia, tentou calcular o impacto da mudança.
Segundo a entidade, em uma corrida de R$ 100 no modelo atual:
• cerca de R$ 72 ficam com o motorista
• R$ 28 ficam com a plataforma
• aproximadamente R$ 10 correspondem a tributos
Já no modelo proposto pelo projeto:
• o motorista receberia cerca de R$ 43
• a plataforma ficaria com R$ 11
• aproximadamente R$ 46 seriam destinados a impostos
O diretor-executivo do Conselho Digital, Felipe França, afirma que a mudança elevaria a carga tributária total da operação.
Segundo ele, isso poderia resultar em três efeitos principais:
• redução da renda dos motoristas
• aumento do preço das corridas
• impacto no modelo econômico das plataformas
Especialistas veem risco de retrocesso na inovação
Para alguns especialistas, o projeto pode representar um retrocesso no modelo econômico criado pelas plataformas digitais.
O doutor em Ciência Política João Bachur, que participou de estudos sobre o tema no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), afirma que classificar aplicativos como empresas tradicionais de transporte ignora a inovação trazida pelo modelo digital.
Segundo ele, a atividade criada pelas plataformas possui características próprias e não se encaixa perfeitamente em modelos regulatórios antigos.
Uma legislação excessivamente rígida, segundo o pesquisador, pode gerar efeitos negativos para:
• trabalhadores
• empresas
• consumidores
“Nem CLT nem autônomo”: o novo status dos trabalhadores
Outro ponto controverso do projeto é a criação de uma nova categoria para os profissionais que atuam nas plataformas.
O texto evita classificá-los como empregados com vínculo pela CLT, mas também retira a definição de trabalhadores autônomos.
Em vez disso, surge o conceito de trabalhadores plataformizados.
Esse modelo intermediário tenta reconhecer particularidades da atividade digital, mas também gera dúvidas sobre direitos e obrigações.
Elementos semelhantes ao regime CLT
Mesmo sem reconhecer vínculo formal, o projeto inclui elementos típicos da legislação trabalhista, como:
• adicional noturno
• contrato de trabalho específico
• instrumentos de negociação coletiva
• normas regulamentadoras de segurança
Isso gera críticas de especialistas que afirmam que o texto cria um regime híbrido e pouco claro.
Motoristas defendem autonomia no trabalho
Representantes da categoria afirmam que muitos trabalhadores preferem manter o modelo atual de autonomia.
Segundo Evandro Henrique, vice-presidente da Federação dos Motoristas por Aplicativos do Brasil (Fembrapp), a principal vantagem do trabalho em plataformas é justamente a liberdade de escolha.
Motoristas podem decidir:
• quando trabalhar
• quantas horas dirigir
• em qual aplicativo atuar
• em qual cidade ou região operar
Essa flexibilidade é vista como essencial por grande parte da categoria.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Pesquisa mostra preferência por autonomia
Um levantamento realizado pelo Instituto Datafolha com 1.800 motoristas ativos apontou que:
• 84% escolheram o trabalho por aplicativo pela flexibilidade
• 6 em cada 10 motoristas não desejam ser contratados pelo regime CLT
Os dados mostram que a formalização tradicional não é consenso entre os trabalhadores.
Novas regras para operação das plataformas
Além das mudanças tributárias e trabalhistas, o projeto também propõe novas regras para o funcionamento das empresas.
Entre os pontos discutidos estão:
• critérios para definição de preços
• regras para cancelamento de corridas
• exigências específicas para prestação do serviço
Essas medidas poderiam aumentar o controle estatal sobre o setor.
Críticos afirmam que regulações excessivas podem reduzir a inovação e a competitividade das plataformas.
Risco de insegurança jurídica
Outro ponto levantado por especialistas é o risco de judicialização da nova legislação.
A criação de conceitos jurídicos novos ou pouco claros pode gerar interpretações diferentes em áreas como:
• direito do trabalho
• direito tributário
• direito previdenciário
Se isso ocorrer, o número de ações judiciais envolvendo aplicativos pode continuar alto, frustrando um dos objetivos da regulação, que é trazer segurança jurídica ao setor.
Possível questionamento no Supremo Tribunal Federal
Caso o projeto seja aprovado da forma atual, juristas não descartam a possibilidade de questionamentos no Supremo Tribunal Federal.
Isso porque alguns especialistas avaliam que a criação de um regime híbrido pode gerar conflitos com princípios constitucionais, como:
• liberdade econômica
• livre iniciativa
• segurança jurídica
A discussão sobre a constitucionalidade pode prolongar ainda mais o debate sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos no Brasil.
O desafio de regular a economia de plataformas
O crescimento da chamada economia de plataformas é um fenômeno global. Países como Estados Unidos, Reino Unido e Espanha também enfrentam dificuldades para criar regras equilibradas.
O grande desafio é encontrar um modelo que consiga:
• proteger trabalhadores
• garantir inovação tecnológica
• manter serviços acessíveis ao consumidor
Uma regulação muito rígida pode inviabilizar o modelo econômico das plataformas. Já uma ausência total de regras pode deixar trabalhadores vulneráveis.
Por isso, especialistas defendem que o Brasil construa uma legislação clara, moderna e adaptável às mudanças do mercado digital.
Conclusão
O projeto que pretende regulamentar o trabalho por aplicativo no Brasil abre um debate complexo sobre o futuro do setor. A proposta busca criar um modelo intermediário entre emprego formal e trabalho autônomo, mas ainda enfrenta críticas de especialistas, empresas e motoristas.
Entre os principais pontos de preocupação estão o possível aumento da carga tributária, a redução da renda dos trabalhadores e a insegurança jurídica gerada por um modelo híbrido de contratação.
Com milhões de brasileiros dependentes da renda gerada por aplicativos de transporte e entrega, a discussão no Congresso Nacional deve continuar intensa nos próximos meses. O desafio será encontrar um equilíbrio que preserve a inovação do setor sem comprometer a proteção dos trabalhadores.
Não perca nenhuma oportunidade de crédito e pagamento: acesse agora nossas últimas notícias no Seu Crédito Digital.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
