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O transporte gratuito pode ser o novo Bolsa Família — mas não para quem você pensa

Estudo da UnB/UFRJ compara a tarifa zero no transporte ao Bolsa Família. Mas os dados municipais mostram que o maior beneficiário não é quem você imagina — e por quê isso muda o debate.

Eduardo MendesPor Eduardo Mendes6 min de leitura
transporte tarifa zero

Um estudo divulgado nesta terça-feira (5/5) por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) defende que a tarifa zero no transporte público das 27 capitais brasileiras poderia ter efeito semelhante ao do Bolsa Família — injetando R$ 45,6 bilhões anuais na economia como “salário indireto” para as famílias mais vulneráveis.

A comparação é chamativa. Mas o que os dados municipais mostram é que o impacto não seria igual para todo mundo — e é exatamente aí que a proposta se torna mais interessante do que o headline sugere.

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O dado que o estudo não tem por município

O estudo da UnB/UFRJ usou médias nacionais da Pesquisa Nacional de Mobilidade 2024. Nós cruzamos os dados de salário médio formal (RAIS 2023) com estimativas de gasto com transporte por região para calcular, município a município, quanto o transporte representa do salário de quem usa.

O resultado confirma a tese dos pesquisadores — mas com uma nuance importante:

Nas cidades onde o Bolsa Família é mais alto, o transporte consome proporcionalmente mais do salário.

Grupo de cidadeSalário médioTransporte/mês (est.)% do salário
BF > 15% da populaçãoR$ 2.268R$ 198–21110,1%
BF < 5% da populaçãoR$ 2.864R$ 198–2298,1%

A tarifa mensal é praticamente a mesma — mas representa 25% a mais do salário para quem vive em cidade pobre. Isso significa que a gratuidade valeria proporcionalmente mais para quem já é mais vulnerável.

Nas capitais: quem mais perderia com a passagem — e mais ganharia com a gratuidade

Entre as 27 capitais, o impacto da tarifa zero sobre a renda disponível dos trabalhadores formais seria mais significativo onde os salários são menores:

CapitalSalário médioTransporte/mês% do salário% pop no BF
Macapá (AP)R$ 2.212R$ 2119,5%13,3%
Boa Vista (RR)R$ 2.560R$ 2118,2%8,2%
Fortaleza (CE)R$ 3.008R$ 1986,6%11,5%
Maceió (AL)R$ 3.012R$ 1986,6%10,3%
São Paulo (SP)R$ 4.918R$ 2294,7%5,4%
Brasília (DF)R$ 5.586R$ 2163,9%5,3%
Florianópolis (SC)R$ 6.112R$ 2243,7%2,3%

Estimativa de transporte: tarifa média regional × 44 viagens/mês (2 viagens/dia útil × 22 dias).

Em Macapá, o trabalhador formal gasta quase 10% do salário só para chegar ao trabalho. Em Florianópolis, menos de 4%. A gratuidade liberaria o dobro da renda relativa para o trabalhador da capital do Amapá em comparação com o de Florianópolis.

O paradoxo regional: onde a tarifa zero vale mais, o BF já é maior

O cruzamento regional revela uma assimetria importante:

RegiãoBF mensal totalTarifa zero (estimado/mês)TZ como % do BF
NordesteR$ 5,7 bilhõesR$ 4,1 bilhões72%
NorteR$ 1,7 bilhãoR$ 1,4 bilhão86%
SudesteR$ 3,4 bilhõesR$ 8,5 bilhões253%
SulR$ 786 milhõesR$ 2,9 bilhões372%

Estimativa baseada em RAIS 2023, tarifas médias regionais e proxy de uso por formalização.

No Nordeste e no Norte — onde o BF já é maior e a população é mais pobre — a tarifa zero teria impacto equivalente a cerca de 80% do BF da região. Mas no Sul e no Sudeste, onde o BF é menor e o mercado formal é maior, a tarifa zero superaria o BF em muito.

Isso revela um aspecto que o estudo menciona mas não detalha: a tarifa zero não é só política para pobres — ela beneficia principalmente trabalhadores formais que usam transporte público. No Sudeste e no Sul, esse grupo é muito maior.

A diferença entre os dois programas

A comparação com o Bolsa Família é sedutora mas tem limites importantes:

O BF chega onde não há transporte público. Dos 5.570 municípios brasileiros, menos de 200 têm sistema de transporte coletivo urbano relevante. A tarifa zero nas 27 capitais beneficiaria diretamente uma fração da população — principalmente a urbana e metropolitana.

O BF é renda. A tarifa zero é serviço. Um é dinheiro na conta que pode ser usado para qualquer necessidade urgente — remédio, alimentação, emergência. O outro libera renda indiretamente, mas apenas para quem usa transporte público regularmente.

A focalização é diferente. O BF é focalizado na pobreza por renda. A tarifa zero é focalizada em quem usa transporte público — que inclui tanto trabalhadores pobres quanto de classe média que moram longe do trabalho.

Isso não torna a proposta menor — torna ela complementar, não substituta.

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O argumento do financiamento

O estudo propõe que a tarifa zero poderia ser financiada pela substituição do vale-transporte por um fundo alimentado pelas empresas com 10 ou mais funcionários. A estimativa é que 81,5% dos estabelecimentos estariam isentos da contribuição — apenas as maiores empresas pagariam.

Na prática, seria uma transferência: as empresas que hoje pagam vale-transporte passariam a contribuir para um fundo público que financiaria a gratuidade universal. O trabalhador deixaria de ter um benefício condicionado ao emprego e passaria a ter um direito de mobilidade independente de ter carteira assinada.

Para os 15 milhões de brasileiros que vivem em municípios onde as transferências federais já superam a folha salarial privada — os municípios com IDF alto do Score Cidades — a tarifa zero teria impacto limitado, já que nesses lugares o transporte público estruturado é raro. A proposta chega onde o mercado formal já chegou.

O que os dados sugerem

A tarifa zero não substituiria o Bolsa Família — atende públicos distintos com mecanismos distintos. Mas os dados municipais mostram que, nas capitais do Norte e Nordeste, onde salários são menores e BF é maior, os dois programas se sobreporiam de forma complementar: o BF garante renda mínima, a tarifa zero libera mais dessa renda para outras necessidades.

O trabalhador de Fortaleza que ganha R$ 3.008 e gasta R$ 198 por mês em transporte recuperaria 6,6% do salário — o equivalente a mais de meia semana de renda.

É pouco? Depende de onde você olha. Para quem vive no limite, meia semana de renda a mais por mês é o remédio que faltava, a conta de água que não fechava, a proteína que saiu do cardápio.

Metodologia

Salário médio e vínculos formais: RAIS 2023 (Ministério do Trabalho, via Base dos Dados). Bolsa Família: microdados CGU, janeiro de 2026. Estimativa de gasto com transporte: tarifa média regional (Norte R$ 4,80; Nordeste R$ 4,50; Centro-Oeste R$ 4,90; Sudeste R$ 5,20; Sul R$ 5,10) × 44 viagens/mês (2 viagens/dia × 22 dias úteis). Proxy de uso de transporte baseado em vínculos RAIS com multiplicador regional para informalidade (1,4x Sul/Sudeste/CO; 2,0x Norte/Nordeste). Estimativa de impacto da tarifa zero é proxy baseada em dados de emprego formal — não reproduz a metodologia da Pesquisa Nacional de Mobilidade usada no estudo original da UnB/UFRJ. O número de R$ 45,6 bilhões é do estudo original. Análise: Score de Cidades/Seu Crédito Digital.

Estudo original: “A Tarifa Zero no Transporte Público como Política de Distribuição de Renda”, UnB/UFRJ, coordenação prof. Thiago Trindade (UnB). Financiado pela Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Eduardo Mendes

Autor

Eduardo Mendes

Eduardo Mendes é cofundador do Seu Crédito Digital, especialista em SEO, jornalista e bacharel em Administração de Empresas pela UFRGS. Apaixonado por finanças e empreendedorismo, escreve em blogs desde 2014 e atua criando conteúdos, vídeos e análises para ajudar o público a tomar decisões financeiras mais inteligentes.

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