O Instituto Butantan está na expectativa da aprovação da Anvisa para iniciar os testes clínicos em humanos da sua vacina contra a gripe aviária H5N1. O imunizante, desenvolvido com base em uma cepa do tipo A monovalente, já demonstrou eficácia em estudos pré-clínicos e agora aguarda autorização para a próxima fase, que envolve a testagem em voluntários.
A movimentação do Butantan é preventiva. O objetivo é estar preparado caso o vírus, hoje restrito a aves e mamíferos, comece a ser transmitido entre humanos. Embora a gripe aviária ainda não apresente essa característica, especialistas alertam para o risco de mutações que podem facilitar esse salto evolutivo.
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Risco crescente de mutações eleva atenção global

O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, afirma que a produção da vacina tem um caráter estratégico: “Não é para já comercializar, mas para propor um estoque estratégico caso o Ministério da Saúde precise acionar”, explicou em nota. A ideia é manter o país pronto para uma eventual emergência sanitária.
A preocupação não é infundada. Desde que foi identificado pela primeira vez, em 1996 na China, o vírus H5N1 sofreu diversas mutações.
Inicialmente restrito a aves, passou a infectar mamíferos e, mais recentemente, vacas leiteiras nos Estados Unidos, ampliando o escopo da vigilância epidemiológica. A possibilidade de transmissão entre humanos, ainda que não confirmada, mantém autoridades e cientistas em alerta máximo.
Anvisa exige mais dados antes de aprovar testes
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária confirmou ao g1 que recebeu o pedido de anuência para os testes clínicos da vacina contra a influenza tipo A (H5N1), mas ainda aguarda documentação complementar. “Foi necessária a apresentação de informações complementares pelo Instituto Butantan para prosseguimento da análise”, informou a agência, que trata o caso como prioridade.
A etapa de aprovação regulatória é essencial para garantir a segurança dos voluntários e a integridade dos dados científicos. Uma vez autorizado, o estudo seguirá um protocolo clínico rigoroso.
Como serão realizados os testes clínicos
Caso obtenha o aval da Anvisa, o estudo contará com duas aplicações da vacina ou do placebo, com intervalo de 21 dias entre elas. Apenas um em cada sete participantes receberá o placebo. A fase de acompanhamento será de sete meses, período no qual os voluntários passarão por exames laboratoriais, análises hematológicas e testes de imunidade celular.
O principal objetivo é avaliar a segurança da vacina e sua capacidade de gerar resposta imunológica eficaz. As informações obtidas podem embasar estratégias futuras de imunização em larga escala, caso surja a necessidade.
Alta letalidade reforça necessidade de prevenção
A gripe aviária, apesar de ainda não ser transmitida entre pessoas, apresenta uma taxa de letalidade preocupante em humanos: cerca de 50%, conforme os dados mais recentes. Os casos humanos são raros e ocorrem por contato direto com animais infectados, não havendo risco no consumo de carne ou ovos de aves contaminadas.
Mesmo assim, o cenário global reforça a importância da vigilância. “Estamos desenvolvendo uma rota tecnológica que poderá ser seguida se o vírus sofrer mutações”, explicou Kallás.
Especialistas alertam para nova ameaça pandêmica
Pesquisadora da Escola de Saúde da Unisinos, Mellanie Fontes-Dutra destaca a necessidade de monitoramento constante: “Nas últimas décadas, temos observado surtos de gripe aviária de maior magnitude e um aumento na diversidade de hospedeiros. Estudos recentes mostram que pinípedes, como leões e lobos marinhos, têm sido afetados com crescente frequência por essa infecção, com alta mortalidade”, alerta.
A presença da doença em novas espécies e ambientes indica que o vírus está se adaptando. Esse processo evolutivo pode, eventualmente, facilitar a transmissão entre humanos, algo que preocupa autoridades sanitárias em todo o mundo.
Avanço global do H5N1 preocupa autoridades

O infectologista Igor Marinho, do Hospital das Clínicas, explica que o H5N1 se espalhou com facilidade por meio de aves migratórias, mostrando uma “notável capacidade de diversificação”. Em 2014, o vírus chegou à América do Norte, causando grandes perdas na avicultura. Em 2022, um novo subtipo, o clado 2.3.4.4b, surgiu com maior potencial de disseminação entre mamíferos.
A mais recente preocupação está na infecção de vacas leiteiras, descoberta em 2024. Os impactos ainda estão sob investigação, mas esse salto para o setor pecuário acende um novo alerta. O contato de humanos com esses animais é mais frequente, o que poderia abrir caminho para a adaptação do vírus a novos hospedeiros.
Prevenção é prioridade diante de riscos emergentes
Apesar de a vacina ainda não ter autorização para ser testada em humanos, sua existência já representa um avanço. O Butantan se posiciona na linha de frente do combate às doenças emergentes e, ao antecipar cenários de risco, ajuda a construir uma resposta rápida e eficiente caso a gripe aviária se torne uma ameaça real à saúde pública.
Ao preparar um estoque estratégico e buscar caminhos tecnológicos para a produção do imunizante, o instituto segue alinhado com os princípios da medicina preventiva e da biossegurança.
