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Ameaça de Trump à Bombardier pode favorecer Embraer em mercado bilionário nos EUA

A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impedir a venda de aeronaves da canadense Bombardier no mercado americano criou uma oportunidade potencial para a Embraer. As duas empresas disputam parte do mercado de jatos executivos, especialmente em categorias nas quais a fabricante brasileira já possui presença relevante. Trump afirmou em 7 de […]

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 9 min de leitura
Bombardier

A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impedir a venda de aeronaves da canadense Bombardier no mercado americano criou uma oportunidade potencial para a Embraer. As duas empresas disputam parte do mercado de jatos executivos, especialmente em categorias nas quais a fabricante brasileira já possui presença relevante.

Trump afirmou em 7 de setembro que a Bombardier não poderia continuar vendendo seus aviões nos EUA caso não passasse a fabricá-los em território americano. A declaração ocorreu em meio ao agravamento da disputa comercial entre Washington e Ottawa.

Para a Embraer, o possível benefício está principalmente na aviação executiva. Mas há uma ressalva: a ameaça ainda não representa um bloqueio efetivamente implementado, e a Bombardier possui uma operação significativa nos próprios Estados Unidos. Por isso, qualquer ganho para a companhia brasileira dependerá de como a medida será aplicada — se for de fato adotada.

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Bombardier
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

A declaração faz parte da escalada da disputa comercial entre Estados Unidos e Canadá.

Trump acusa o Canadá de adotar práticas que prejudicam empresas americanas e vem pressionando companhias estrangeiras a ampliar a produção dentro dos Estados Unidos. No caso da Bombardier, o presidente afirmou que a empresa deveria fabricar seus jatos no país para ter acesso ao mercado americano.

A ameaça ocorreu pouco antes da entrada em vigor de novas tarifas canadenses sobre produtos dos Estados Unidos. O governo canadense anunciou medidas de retaliação que atingem cerca de US$ 20 bilhões em produtos americanos, aumentando a tensão entre os dois países.

O problema para a Bombardier é que os Estados Unidos são um dos mercados mais importantes para a companhia. Cerca de metade das vendas da fabricante tem origem no país, segundo informações divulgadas pela Reuters.

A Bombardier realmente poderia ser impedida de vender seus aviões?

Ainda não há uma medida concreta com detalhes de implementação.

Até agora, o que existe é a declaração de Trump e a ameaça de restringir o acesso da fabricante ao mercado americano. Não foram divulgadas, nas fontes consultadas, regras definitivas explicando como um eventual bloqueio funcionaria ou quais aeronaves seriam atingidas.

Essa questão é especialmente complexa porque os aviões da Bombardier já operam nos Estados Unidos e são submetidos ao processo de certificação da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês).

Especialistas do setor também questionaram a viabilidade jurídica de impedir a comercialização de aeronaves que já receberam as aprovações necessárias. A Bombardier, por sua vez, mantém uma presença relevante na economia americana.

Por que a Embraer pode se beneficiar?

A principal oportunidade está na aviação executiva, segmento no qual Embraer e Bombardier competem diretamente em algumas categorias.

A fabricante brasileira produz atualmente os jatos Phenom 100 EX, Phenom 300E, Praetor 500 e Praetor 600. A Bombardier, por sua vez, atua principalmente com aeronaves executivas de maior porte, incluindo a família Global.

A sobreposição é particularmente relevante entre o Praetor 600, da Embraer, e modelos da Bombardier na categoria de jatos supermédios.

Um estudo de mercado do BTG Pactual, por exemplo, apontou que o Praetor 600 concorre diretamente com aeronaves da Bombardier, além de modelos de Gulfstream e Textron. Na avaliação apresentada pelo banco, a Bombardier tinha participação de 46% nesse segmento, enquanto a Embraer aparecia com 21%.

Isso significa que uma eventual restrição à Bombardier poderia fazer clientes americanos reconsiderarem suas opções de compra e aumentar a exposição dos modelos brasileiros.

O efeito não se limita ao Praetor 600

A Embraer já possui uma posição consolidada na aviação executiva.

Em 2025, a empresa entregou 155 jatos executivos, o maior número de sua história até então. Foram 72 aeronaves da família Phenom 300, que manteve a liderança global entre os jatos leves pelo 14º ano consecutivo.

No fim de 2025, a carteira de pedidos firmes da divisão de aviação executiva da Embraer somava US$ 7,6 bilhões. O valor representava uma alta em relação aos US$ 7,4 bilhões registrados no fim de 2024.

A empresa também vem ampliando sua presença justamente no mercado americano.

A Embraer possui uma unidade de montagem final dos Phenom e um centro de conclusão dos Praetor em Melbourne, na Flórida. Segundo dados apresentados pela própria companhia, mais de 1,1 mil jatos executivos da marca são operados por clientes americanos.

Essa estrutura pode ser uma vantagem caso compradores americanos procurem alternativas a fabricantes estrangeiros afetados por barreiras comerciais.

A Embraer já tem produção nos Estados Unidos

Esse é um dos pontos que tornam a fabricante brasileira particularmente interessante em uma eventual mudança nas regras americanas.

A Embraer não depende exclusivamente da produção no Brasil para atender seus clientes dos Estados Unidos. A companhia mantém operações industriais e de suporte em território americano, incluindo a estrutura de Melbourne, na Flórida.

Na aviação comercial, a presença também é relevante. O E175, um dos principais modelos da empresa no mercado americano, tem sua montagem final realizada nos Estados Unidos.

A empresa afirma que seus aviões são utilizados pelas principais companhias aéreas americanas e que sua operação no país envolve uma extensa cadeia de fornecedores e clientes.

Isso não significa que a Embraer esteja automaticamente protegida de eventuais mudanças na política comercial americana. Mas reduz a distância entre a empresa brasileira e as exigências de produção local defendidas pelo governo Trump.

Bombardier também tem uma forte operação nos EUA

É justamente por isso que o possível veto não deve ser interpretado como uma vitória automática da Embraer.

A Bombardier emprega cerca de 3,5 mil pessoas nos Estados Unidos e possui mais de 2,8 mil fornecedores americanos distribuídos por 47 estados. A empresa também afirma gastar mais de US$ 2,5 bilhões por ano com fornecedores no país.

O estado do Kansas é um dos principais centros de sua operação americana. Mais de 1,2 mil trabalhadores estão empregados pela companhia na região, o que levou parlamentares republicanos do estado a pressionarem a Casa Branca para evitar medidas que possam prejudicar esses postos de trabalho.

A situação cria uma contradição para a política de incentivo à produção doméstica: uma medida contra uma empresa canadense também pode atingir trabalhadores, fornecedores e investimentos localizados nos próprios Estados Unidos.

O que muda para quem compra um jato executivo?

Se uma eventual restrição for efetivamente implementada, compradores americanos poderão ter menos opções de determinados modelos da Bombardier.

Na prática, isso pode aumentar o espaço para concorrentes como Embraer, Gulfstream e Textron, dependendo da categoria da aeronave e das regras estabelecidas pelo governo americano.

Para um comprador, entretanto, a decisão não depende apenas da nacionalidade do fabricante. Preço, autonomia, capacidade, desempenho, manutenção, disponibilidade de aeronaves e rede de atendimento também pesam na escolha.

Por isso, a Embraer não necessariamente capturaria toda a demanda eventualmente perdida pela Bombardier.

A Embraer está preparada para aproveitar uma eventual demanda adicional?

A empresa chega a esse momento em uma posição financeira e comercial mais forte do que em anos anteriores.

No segundo trimestre de 2026, a carteira total de pedidos da Embraer atingiu US$ 34,5 bilhões, o sétimo recorde trimestral consecutivo. A aviação executiva representava US$ 7,6 bilhões da carteira no primeiro trimestre, segundo os dados divulgados pela companhia.

A companhia também apresentou novas versões dos Praetor 500 e Praetor 600 em fevereiro de 2026. Os modelos receberam atualizações de cabine, conectividade e sistemas de gerenciamento, em uma tentativa de manter a competitividade no segmento de jatos executivos.

Outro sinal de demanda é o acordo anunciado com a Flexjet. O contrato, divulgado em 2025, tinha valor potencial de até US$ 7 bilhões e incluía pedidos firmes de 182 aeronaves, além de opções.

E se Trump realmente bloquear a Bombardier?

O impacto dependerá principalmente de três fatores: quais aeronaves seriam atingidas, por quanto tempo a restrição permaneceria e se a medida seria juridicamente mantida.

Caso o bloqueio seja amplo e duradouro, concorrentes podem conquistar clientes que normalmente comprariam Bombardier. A Embraer estaria entre as empresas com maior capacidade de capturar parte dessa demanda em determinados segmentos.

Se a medida for apenas uma ameaça usada nas negociações comerciais e posteriormente abandonada, o efeito tende a ser muito menor.

Existe ainda um terceiro cenário: a Bombardier poderia ampliar sua produção e suas operações nos Estados Unidos para tentar atender às exigências de Washington. A empresa já possui presença industrial e de serviços no país e anunciou que pretende preencher cerca de 500 vagas abertas nos Estados Unidos, mesmo após a ameaça de Trump.

A Embraer também pode enfrentar riscos

A possível vantagem competitiva não significa que a empresa brasileira esteja livre de riscos.

Uma escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e Canadá pode afetar cadeias de fornecedores, preços, certificações e decisões de investimento em todo o setor aeronáutico.

Além disso, a própria Embraer possui uma relação profunda com o mercado americano. Qualquer mudança ampla na política comercial dos Estados Unidos pode atingir fabricantes estrangeiros de maneira mais abrangente, inclusive a companhia brasileira.

A empresa, porém, já possui uma estrutura relevante nos Estados Unidos, o que pode reduzir parte dessa exposição e, ao mesmo tempo, favorecer sua posição caso Washington passe a privilegiar empresas com produção local.

O que pode acontecer agora?

Bombardier
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Por enquanto, o principal ponto de atenção é saber se a ameaça de Trump será transformada em uma política concreta.

A Bombardier continua operando nos Estados Unidos e, segundo a Reuters, segue entregando aeronaves a clientes americanos. A companhia também mantém planos de contratação no país.

Enquanto isso, a Embraer segue ampliando sua presença na aviação executiva e chega ao episódio com uma carteira robusta de pedidos e uma operação industrial estabelecida na Flórida.

Para o mercado, portanto, a ameaça contra a Bombardier representa uma oportunidade potencial para a Embraer, mas ainda não uma transferência garantida de mercado.

O tamanho do benefício dependerá menos da declaração em si e mais de uma eventual regulamentação que restrinja efetivamente as vendas da fabricante canadense.

Conclusão

A possível restrição à Bombardier pode abrir espaço para a Embraer no mercado americano, especialmente na aviação executiva. A fabricante brasileira já possui produção e uma forte presença nos Estados Unidos, além de modelos que competem diretamente com os da rival canadense.

Por enquanto, porém, o benefício é apenas potencial. O impacto dependerá de uma eventual medida oficial de Washington e de como a Bombardier reagirá à pressão para ampliar sua produção em território americano.

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