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Investigação aponta que 99Food pode ter acesso a informações internas do iFood

Restaurantes denunciam que a 99Food teria usado dados sigilosos do iFood em propostas comerciais. Caso pode configurar crime.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto8 min de leitura
99food

A disputa pelo mercado de delivery no Brasil voltou ao centro do debate após empresários relatarem ter recebido propostas comerciais da 99Food contendo informações sigilosas de suas operações no iFood. As denúncias levantam suspeitas graves de concorrência desleal e colocam a gigante chinesa em uma situação delicada diante da opinião pública e das autoridades.

De acordo com documentos, capturas de tela de conversas e relatos obtidos pela reportagem, representantes comerciais da 99Food teriam abordado donos de restaurantes munidos de dados estratégicos pertencentes ao iFood. Entre essas informações, aparecem valores de faturamento, número de pedidos, ticket médio, comissões personalizadas, detalhes contratuais, multas por rescisão e prazos de vigência de contratos.

A acusação ganha proporções ainda maiores porque, segundo as denúncias, algumas dessas informações só poderiam ser acessadas por pessoas com acesso interno ao sistema do iFood. O episódio reacende o debate sobre segurança de dados no setor, ética na concorrência e contratação de ex-funcionários por empresas rivais.

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Conversas revelam acesso a dados exclusivos da plataforma concorrente

Os relatos dos empresários não se resumem a percepções subjetivas. As provas apresentadas incluem trechos de conversas com consultores que se identificaram como representantes oficiais da 99Food.

Em uma das mensagens obtidas pela reportagem, o emissário da empresa chinesa menciona com precisão a média de faturamento de um restaurante nos últimos meses — número que não estava disponível em plataformas públicas nem havia sido compartilhado pelo dono do negócio.

Em outra abordagem, o consultor demonstrou conhecer a comissão negociada individualmente entre o Restaurante e o iFood, além do valor exato da multa contratual que seria cobrada em caso de rescisão. Esses detalhes costumam ser de acesso restrito e integram o conjunto de informações consideradas sigilosas pela política interna da empresa brasileira.

A presença desses dados nas negociações comerciais levanta suspeitas de que informações internas do iFood possam ter sido extraídas e compartilhadas externamente sem autorização. Essa hipótese, inclusive, passou a ser investigada pelas autoridades nos últimos meses.

Operação policial mira ex-funcionários suspeitos de copiar dados do iFood

Em outubro, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a dois ex-colaboradores do iFood. Eles são investigados sob suspeita de acessar e copiar arquivos temporários antes de pedirem demissão, supostamente levando consigo listas de restaurantes, dados financeiros e informações estratégicas.

Durante os depoimentos, segundo fontes ligadas à investigação, os ex-funcionários afirmaram estar trabalhando atualmente para a 99Food. Essa revelação reforça a possibilidade de que informações internas da empresa brasileira tenham sido repassadas à concorrente estrangeira.

As investigações seguem em sigilo, mas fontes do setor afirmam que esse tipo de movimentação — envolvendo extração de dados sensíveis — tem se tornado mais comum em segmentos onde a competição tecnológica é intensa.

Suspeita de violação de cláusulas de não concorrência

Além da suposta apropriação indevida de informações, a 99Food também foi acusada de contratar ex-funcionários do iFood que estariam impedidos, por contrato, de exercer funções em empresas concorrentes por um determinado período. Essas cláusulas de não concorrência são comuns no setor de tecnologia e visam proteger segredos industriais, estratégias de mercado e dados sensíveis armazenados ao longo dos anos.

A violação desse tipo de acordo pode resultar em ações trabalhistas e cíveis, processos que já estão em curso segundo documentos aos quais a reportagem teve acesso. Consultorias internacionais, inclusive, teriam sido notificadas extrajudicialmente por tentativas de aproximação consideradas indevidas — configurando, segundo o iFood, tentativas de espionagem corporativa.

Esses episódios reforçam um cenário de tensão crescente entre as empresas do setor e acendem um alerta sobre práticas éticas na competição por mercado.

O que diz a lei sobre uso indevido de informações sigilosas

Caso as denúncias sejam confirmadas, o uso de dados exclusivos do iFood pela 99Food pode configurar crime de concorrência desleal, conforme estabelece a Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279/96). A legislação protege não apenas patentes e marcas, mas também informações estratégicas confidenciais obtidas durante relações profissionais.

A lei é clara ao proibir a exploração indevida de dados sigilosos pertencentes a empresas concorrentes. Isso inclui listas de clientes, valores de faturamento, estratégias comerciais, contratos, comissões e qualquer outro dado que não seja de domínio público e que represente vantagem competitiva.

A pena prevista é de detenção de três meses a um ano, além de multa. Empresas também podem ser responsabilizadas civilmente, arcando com indenizações milionárias em casos de prejuízo comprovado.

Especialistas em direito empresarial afirmam que, se houver comprovação de que funcionários da 99Food utilizaram informações roubadas ou obtidas sem consentimento, a responsabilização pode recair tanto sobre os indivíduos quanto sobre a empresa, caso fique demonstrado que houve benefício comercial direto.

iFood reage e afirma repudiar práticas de concorrência desleal

Em nota oficial enviada à imprensa, o iFood afirmou que foi alertado pelos próprios donos de restaurantes sobre a presença de dados sigilosos do aplicativo brasileiro em propostas comerciais de concorrentes. A empresa reforçou que repudia qualquer forma de concorrência desleal e que está tomando as medidas necessárias para proteger empresários parceiros e a própria integridade da marca.

Segundo o comunicado, o uso de dados exclusivos representa um risco à segurança comercial do setor e ameaça a confiança estabelecida entre plataforma e estabelecimentos cadastrados. A empresa também reiterou que segue colaborando com autoridades nas investigações em andamento.

Ainda de acordo com o iFood, mecanismos adicionais de auditoria e controle interno foram acionados para identificar possíveis brechas de segurança e evitar novos incidentes do tipo.

O silêncio da 99Food e o histórico de problemas internos

Procurada pela reportagem, a 99Food não respondeu aos questionamentos sobre as acusações de uso indevido de dados sigilosos. Em episódios anteriores, porém, a empresa afirmou ter aberto uma investigação interna relacionada ao furto de notebooks corporativos. Esses equipamentos poderiam conter informações sensíveis sobre o funcionamento da companhia.

Em outubro, uma coluna especializada em tecnologia revelou que a empresa havia detectado tentativas de invasão ao sistema, que teriam sido bloqueadas a tempo de impedir o vazamento de dados. A falta de esclarecimentos mais concretos sobre o tema contribui para aumentar as especulações e pressiona a plataforma a se manifestar de forma mais transparente.

Enquanto isso, donos de restaurantes continuam apresentando relatos semelhantes, reforçando a necessidade de uma apuração rigorosa e independente.

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A escalada da disputa no mercado de delivery

O setor de delivery no Brasil se tornou um dos mais competitivos do mundo. De um lado, o iFood mantém liderança absoluta, concentrando grande parte do mercado nacional. Do outro, empresas como Uber Eats (já descontinuada no segmento de restaurantes no Brasil) e 99Food buscam ampliar seu espaço em uma arena marcada por margens apertadas, custos operacionais altos e avalanche de dados.

Nesse cenário, informações estratégicas têm valor incalculável. Saber o faturamento de um restaurante, por exemplo, pode influenciar diretamente no tipo de comissão oferecida, no modelo de parceria, na oferta de benefícios adicionais e até no tempo de exclusividade.

Por isso, o acesso indevido a dados sensíveis representa uma vantagem injusta e capaz de desestabilizar a competitividade do setor.

Como a situação pode impactar restaurantes e consumidores

Para os donos de restaurantes, o episódio gera insegurança sobre como suas informações estão sendo utilizadas pelas plataformas. Muitos têm receio de migrações forçadas, manipulação de propostas e perda de autonomia na negociação de contratos.

Para os consumidores, práticas desse tipo podem levar à redução da concorrência saudável, encarecimento dos serviços e prejuízos à inovação — uma vez que o mercado depende de equilíbrio e confiança para avançar.

Especialistas ressaltam que o Brasil precisa ampliar a fiscalização e os mecanismos de proteção de dados no setor de tecnologia, especialmente em empresas que gerenciam grandes volumes de informações comerciais.

Conclusão

As acusações contra a 99Food revelam um possível esquema de uso indevido de dados sigilosos extraídos do iFood. As investigações policiais, denúncias de empresários e suspeitas envolvendo ex-funcionários adicionam elementos preocupantes a um cenário já marcado pela disputa acirrada no setor de delivery.

Se confirmadas, as práticas podem configurar crime de concorrência desleal e gerar fortes consequências jurídicas. Enquanto isso, o silêncio da empresa chinesa contrasta com a postura ativa do iFood em denunciar os fatos e acionar as autoridades.

O caso segue em apuração, mas já levanta alertas sobre a importância da ética nas relações comerciais e da proteção de informações estratégicas em um mercado movido por dados.

Imagem: SmartPhotoLab / shutterstock.com

Com Informações de: Veja

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Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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