A Ambipar (AMBP3), que foi uma das grandes estrelas do mercado em 2024, enfrenta uma forte turbulência após pedido de proteção contra credores.
Ambipar (AMBP3) registra queda histórica de 65%; o que está por trás desse colapso?
Ambipar sofre forte queda em ações, enfrenta crise de caixa e proteção contra credores, gerando risco de recuperação judicial.
Na tarde desta quinta-feira, por volta das 15h35, suas ações despencavam 65%, cotadas a R$ 2,49, acumulando uma perda superior a 70% desde segunda-feira. O movimento devolve à companhia o valor de mercado registrado há cerca de um ano.
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A busca pelo caixa desaparecido

O ponto central da crise gira em torno do caixa da Ambipar. Fontes ouvidas pelo Broadcast, do Estadão, indicam que credores têm buscado localizar os recursos da empresa desde a semana passada. Até o momento, teriam sido encontrados apenas US$ 80 milhões (aproximadamente R$ 400 milhões).
Um analista que acompanha a companhia, em condição de anonimato, ressaltou a incoerência entre a alegada falta de liquidez e os bilhões informados nos relatórios financeiros. Ao final do segundo trimestre, a Ambipar reportou dívida de curto prazo de R$ 616 milhões, valor que representa apenas cerca de 5% da dívida bruta. Paralelamente, a companhia declarava possuir uma posição de caixa de R$ 4,7 bilhões.
A discrepância entre caixa declarado e recursos disponíveis motivou também rebaixamentos de rating. A S&P já havia destacado a situação em seus relatórios, enquanto a Fitch reduziu a nota de risco da Ambipar de ‘BB-’ para ‘C’, um nível acima do calote.
Impactos nos covenants e riscos de recuperação judicial
Segundo gestores ouvidos pelo Money Times, se a empresa confirmar que seu caixa efetivo é de R$ 600 milhões a R$ 1,8 bilhão — abaixo do anunciado —, poderá acionar cláusulas de covenants e abrir caminho para uma disputa jurídica de grande porte. Neste cenário, a recuperação judicial se torna uma possibilidade, ainda que uma recuperação extrajudicial seja vista como alternativa mais rápida.
A venda de ativos, por sua vez, é considerada arriscada neste momento. Gestores aconselham que a companhia mantenha os ativos como garantia para negociações, evitando desvalorizações que poderiam afetar ainda mais o valuation da empresa.
Ao final do segundo trimestre, o endividamento líquido da Ambipar alcançava quase R$ 6 bilhões, com previsão de dívida líquida/EBITDA de 3,2 vezes para 2025, segundo cálculos do UBS BB. A alavancagem financeira sempre foi um ponto de atenção, especialmente após a aquisição de mais de 70 empresas desde o IPO em 2020.
Tentativa de evitar a recuperação judicial

No início da semana, a Ambipar contratou a BR Partners para assessorá-la na crise financeira. A expectativa, segundo fontes, é que a companhia consiga negociar de forma amigável com credores, evitando a recuperação judicial.
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O estopim da crise ocorreu no último dia 22, quando os bonds da Ambipar com vencimento em 2031 sofreram forte desvalorização no mercado internacional, pouco antes de a empresa anunciar sua sétima emissão de debêntures, no valor de R$ 3 bilhões. O Deutsche Bank, envolvido na operação, exigiu um aditivo de US$ 35 milhões, provocando efeito cascata que poderia acelerar obrigações financeiras em até R$ 10 bilhões.
Diante da pressão, a Ambipar recorreu à proteção judicial, alegando que o banco exigia garantias além do acordado contratualmente.
Desafios da tese de crescimento
Apesar de a Ambipar ter sido construída sob uma tese promissora — ser uma empresa global com forte apelo ESG —, a execução enfrentou obstáculos significativos. As múltiplas aquisições, o elevado endividamento e a baixa capacidade de geração de caixa comprometeram o modelo.
“Mercado abraçou a tese pelo ESG e pelo crescimento potencial, mas abandonou ao identificar riscos operacionais, financeiros e de governança”, avaliou um gestor. Ele ainda destaca que os controladores da empresa são centralizadores e arrojados, com pouca sensibilidade às demandas de investidores.
O enfraquecimento da Ambipar reflete três pilares críticos simultaneamente: governança, operação e finanças. A combinação desses fatores gerou a perda de confiança do mercado, culminando na forte queda das ações e no temor de que a companhia possa ter de recorrer a medidas judiciais mais drásticas.

