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Flávio Bolsonaro avança e chega a 27,3% dos votos em cidades mais ligadas ao Bolsa Família

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 6 min de leitura
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O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 mostra mudanças na distribuição dos votos entre municípios com diferentes níveis de dependência do Bolsa Família. Um levantamento que cruzou resultados eleitorais, população e número de beneficiários identificou uma redução da participação de Lula nas cidades classificadas como altamente dependentes do programa.

Nesse grupo, formado por municípios onde os beneficiários representam pelo menos metade da população, Lula passou de 71,5% dos votos válidos em 2022 para 68,7% em 2026. A diferença é de 2,8 pontos percentuais.

O movimento ocorreu em um cenário de maior concentração da disputa entre os dois candidatos que avançaram ao segundo turno. Flávio Bolsonaro, do PL, ampliou sua participação nesse conjunto de municípios, enquanto os demais concorrentes perderam espaço.

Os dados, porém, não demonstram que o recebimento do Bolsa Família tenha provocado determinado comportamento eleitoral. A classificação serve para comparar o desempenho dos candidatos em municípios com diferentes níveis de presença do programa, e não para estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre benefício social e voto.

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Como os municípios foram classificados

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Para analisar o comportamento eleitoral, o levantamento dividiu as cidades brasileiras conforme a proporção da população atendida pelo Bolsa Família.

Foram considerados de alta dependência os municípios em que os beneficiários correspondiam a 50% ou mais da população. A faixa de média dependência reúne localidades com percentual entre 25% e 50%. Já os municípios com menos de 25% foram classificados como de baixa dependência.

A comparação considerou as três últimas eleições presidenciais. Para 2018 e 2022, foram utilizados dados de beneficiários referentes a outubro de cada ano. Na análise de 2026, foram considerados os dados disponíveis até agosto.

O grupo de municípios com alta dependência representou 14,4% dos votos válidos no primeiro turno de 2026. Já as cidades classificadas como de baixa dependência concentraram 59,1% dos votos válidos.

Essa diferença é importante para interpretar os números. Embora os municípios mais dependentes apresentem percentuais expressivos para determinados candidatos, eles representam uma parcela menor do eleitorado nacional.

Lula perde participação, mas mantém vantagem nas cidades mais dependentes

A principal mudança identificada foi a redução da votação de Lula entre os municípios com maior presença do programa.

O petista havia alcançado 71,5% dos votos válidos nessas cidades em 2022. Em 2026, o percentual caiu para 68,7%. Mesmo com a queda, Lula permaneceu com ampla vantagem sobre os demais candidatos nesse recorte.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro apresentou crescimento. O candidato do PL registrou 23,5% nesse grupo em 2022 e chegou a 27,3% em 2026.

A diferença mostra que a polarização avançou também em localidades onde o programa de transferência de renda possui maior presença. A parcela destinada aos demais candidatos, por outro lado, ficou cada vez menor.

Outros candidatos perdem espaço na disputa

A redução da votação dos candidatos que não pertenciam aos dois principais polos também aparece nos municípios mais dependentes do Bolsa Família.

Nessas cidades, os demais concorrentes somavam 17% dos votos em 2018. O percentual caiu para 5,04% em 2022 e chegou a aproximadamente 4% em 2026.

O mesmo padrão de concentração ocorreu nas cidades classificadas nas faixas de média e baixa dependência. O resultado indica que a eleição presidencial de 2026 foi marcada por uma disputa mais concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, reduzindo o espaço eleitoral das demais candidaturas.

O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio recebeu 56.104.268 votos e Lula, 53.876.617. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

Aumento do Bolsa Família entrou no cenário eleitoral

A análise também ocorre em um momento de mudança no valor do Bolsa Família. Em outubro de 2026, o benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691, após recomposição de 15,04% baseada na inflação acumulada.

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social informou que o benefício médio estimado também subiu, de R$ 675 para R$ 777. A atualização foi estabelecida pelo Decreto nº 13.120 e passou a valer na folha de outubro.

O reajuste é relevante para a análise porque ocorreu poucas semanas antes do primeiro turno. Isso, entretanto, não permite concluir que a mudança tenha determinado o voto dos beneficiários.

Em 2022, houve uma situação diferente, quando o então governo Bolsonaro elevou temporariamente o benefício do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 nos meses anteriores à eleição. A comparação mostra que aumentos de transferência de renda já fizeram parte do contexto político de eleições recentes, mas seus efeitos eleitorais não podem ser isolados de outros fatores econômicos e políticos.

Bolsa Família garante voto para algum candidato?

Não. A existência de uma relação estatística entre concentração de beneficiários e desempenho eleitoral não significa que o programa determine a escolha individual do eleitor.

Uma família pode receber o benefício e votar em qualquer candidato. Além disso, o comportamento eleitoral também é influenciado por fatores como renda, emprego, inflação, segurança, saúde, avaliação do governo, identificação partidária e questões regionais.

O debate sobre o Bolsa Família também mudou ao longo dos anos. O programa deixou de ser percebido apenas como uma transferência temporária por parte de uma parcela da população e passou a integrar de maneira mais permanente a estrutura de proteção social brasileira.

Essa característica torna ainda mais difícil medir isoladamente o impacto eleitoral de uma alteração no valor do benefício.

O que os números mostram para o segundo turno

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Imagem: rafapress / shutterstock.com

O principal dado do levantamento é que a dependência municipal do Bolsa Família não produziu um mapa eleitoral completamente uniforme.

Lula continua concentrando percentuais elevados nas cidades com maior presença do programa, mas sua participação caiu em relação a 2022. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro avançou nesse grupo e os demais candidatos perderam espaço.

Para o segundo turno, os números podem ajudar a compreender onde estão as maiores concentrações eleitorais de cada candidatura, mas não permitem prever o comportamento dos eleitores em 25 de outubro.

A Justiça Eleitoral disponibiliza os resultados por município e zona eleitoral, permitindo comparar a votação dos candidatos com diferentes características socioeconômicas das localidades. O TSE também informa que os dados são atualizados a partir dos Boletins de Urna e podem ser consultados por município.

Assim, a principal conclusão é que o Bolsa Família está associado a um importante recorte territorial do eleitorado, mas não pode ser tratado isoladamente como explicação para o voto. Os resultados de 2026 mostram mudanças na distribuição do apoio político e uma polarização maior, inclusive entre municípios onde o programa possui presença significativa.

Vittor Sales/Divulgação

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