A criação de um sistema de pagamentos transfronteiriços pelos BRICS — bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de novos membros — deixou de ser apenas um plano estratégico e passou a ganhar contornos concretos. A proposta, liderada especialmente pela Índia por meio do Reserve Bank of India, prevê a integração de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) para permitir transferências diretas entre países, sem a necessidade do dólar como intermediário.
Brics criam sistema parecido com Pix para pagamentos entre países
Brics avançam em sistema de pagamentos sem dólar, inspirado no Pix e com moedas digitais. Entenda impactos para o Brasil.
A inspiração declarada é o Pix, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, considerado hoje uma das infraestruturas de pagamento mais eficientes do mundo. O tema será prioridade na 18ª Cúpula dos BRICS, que acontecerá na Índia em 2026.
O movimento reflete uma tendência crescente: a busca por maior autonomia financeira em relação ao sistema internacional dominado por instituições ocidentais, como a rede SWIFT.
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Integração entre moedas digitais nacionais
Diferente da criação de uma moeda única — como o euro —, o modelo dos BRICS aposta na interoperabilidade entre moedas digitais soberanas. Isso significa que cada país continuará utilizando sua própria moeda, mas com capacidade de conversão automática em tempo real.
Na prática, uma empresa brasileira poderá pagar um fornecedor na Índia utilizando o real digital, enquanto o recebedor terá acesso ao valor convertido em rupia digital, sem passar pelo dólar.
Esse processo ocorre por meio de liquidações diretas entre bancos centrais, reduzindo etapas, custos e riscos cambiais.
Inspirado no sucesso do Pix
O modelo brasileiro é referência global por alguns motivos:
- Transferências instantâneas 24 horas por dia
- Baixo ou nenhum custo para usuários
- Alta adesão (mais de 150 milhões de usuários)
- Infraestrutura pública robusta
A lógica aplicada aos BRICS é simples: se o Pix conectou milhões de pessoas em tempo real dentro de um país, uma arquitetura semelhante pode conectar economias inteiras.
O papel da China e do yuan digital
A China lidera o desenvolvimento de moedas digitais entre os BRICS com o yuan digital (e-CNY). O país já testa soluções em larga escala e participa de iniciativas internacionais como o projeto mBridge, apoiado pelo Banco de Compensações Internacionais.
Essa vantagem tecnológica pode acelerar o sistema dos BRICS, mas também gera preocupações.
Risco de “yuanização”
Alguns países temem que a liderança chinesa transforme a desdolarização em uma nova dependência — desta vez do yuan.
Por isso, o modelo adotado prioriza a descentralização:
- Cada país mantém sua política monetária
- Não há moeda única dos BRICS
- O sistema apenas conecta moedas existentes
Essa estrutura busca equilíbrio entre eficiência e soberania.
Desdolarização: o que está em jogo
Os BRICS representam cerca de 30% do comércio global. Reduzir o uso do dólar nesse volume tem impactos significativos no sistema financeiro internacional.
Hoje, cerca de 65% das transações comerciais entre países do bloco já são feitas em moedas locais. No caso de China e Índia, esse número chega a 80%.
Impactos para o Brasil
Para o Brasil, os benefícios são diretos:
- Redução de custos com câmbio
- Menor exposição à volatilidade do dólar
- Aumento da competitividade das exportações
- Simplificação de operações comerciais
Exemplo prático: uma empresa brasileira que exporta para a China atualmente pode enfrentar dupla conversão (real → dólar → yuan). Com o novo sistema, essa etapa seria eliminada.
Desafios técnicos e políticos
Apesar do avanço, o projeto enfrenta obstáculos relevantes.
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Liquidez das moedas
A maioria das moedas dos BRICS ainda tem baixa liquidez internacional. Isso dificulta transações de grande volume sem referência ao dólar.
Resolver esse ponto exige:
- Ampliação de mercados cambiais locais
- Acordos bilaterais de liquidez
- Desenvolvimento de mecanismos de compensação
Integração regulatória
Os países do bloco possuem:
- Sistemas jurídicos distintos
- Diferentes níveis de digitalização
- Políticas monetárias independentes
Harmonizar essas variáveis é um processo complexo e demorado.
Interoperabilidade tecnológica
A integração entre CBDCs exige padrões técnicos comuns, ainda em desenvolvimento. Questões como segurança, privacidade e escalabilidade estão no centro das discussões.
O que esperar da cúpula de 2026
A 18ª Cúpula dos BRICS, na Índia, deve marcar um novo estágio do projeto. A expectativa é de avanços concretos em:
- Definição de padrões técnicos
- Testes piloto entre países
- Expansão da cooperação entre bancos centrais
A iniciativa já foi classificada como “prioridade estratégica” pelos líderes do bloco, indicando que o tema deixou de ser apenas experimental.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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