Um simples copo de café gelado virou motivo de discussão entre recrutadores e candidatos da geração Z. A polêmica surgiu após uma recrutadora americana criticar o hábito de jovens profissionais chegarem a entrevistas de emprego segurando cafés ou lattes gelados.
A discussão rapidamente ultrapassou a bebida. Para alguns profissionais de recrutamento, o comportamento pode transmitir excesso de informalidade em um momento que exige atenção e postura profissional. Para outros, transformar um café em critério de avaliação revela como algumas regras do mercado de trabalho continuam sendo baseadas em expectativas que nem sempre são comunicadas aos candidatos.
A questão, portanto, é maior do que decidir se é permitido ou não entrar em uma entrevista com um copo na mão. O episódio expõe diferenças entre gerações e mudanças na maneira como empresas e trabalhadores enxergam o conceito de profissionalismo.
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Como começou a polêmica do café gelado

A discussão ganhou repercussão depois de uma publicação da recrutadora americana Caitlin Wehniainen nas redes sociais. Ela afirmou ter percebido candidatos da geração Z chegando a entrevistas de emprego com cafés gelados.
Na avaliação da recrutadora, o hábito poderia passar uma impressão excessivamente casual. A sugestão apresentada foi que os candidatos consumissem a bebida antes ou depois da entrevista.
A declaração provocou reações de usuários nas redes sociais. Enquanto algumas pessoas concordaram que chegar sem bebidas seria uma questão básica de etiqueta profissional, outras consideraram exagerado atribuir importância a algo que, aparentemente, não tem relação com a capacidade de exercer o trabalho.
A reportagem do InfoMoney também cita uma enquete divulgada no TikTok na qual 92% dos participantes consideraram inadequado levar café gelado para uma entrevista, contra 8% que não viram problema na prática.
Esse resultado deve ser interpretado com cautela. Uma enquete informal nas redes sociais não representa necessariamente a opinião de recrutadores ou do mercado de trabalho.
Por que alguns recrutadores não gostam da ideia?
O argumento não está necessariamente relacionado ao café.
Para alguns recrutadores, a questão é a imagem transmitida pelo candidato durante os primeiros minutos do contato. Uma entrevista de emprego é também uma situação de avaliação comportamental, na qual postura, comunicação e atenção podem ser observadas.
Megan Slabinski, presidente regional da empresa de recrutamento Robert Half, afirmou que não recomendaria levar a bebida para uma entrevista. Entre as razões apontadas está o fato de que o candidato pode ficar com uma das mãos ocupada, dificultando inclusive um eventual cumprimento.
Existe também uma questão prática: bebidas podem derramar, chamar atenção ou simplesmente criar uma preocupação desnecessária durante a conversa.
Por essa perspectiva, deixar o café para depois seria uma maneira simples de eliminar uma possível distração.
Um café gelado pode realmente fazer alguém perder a vaga?
Não existe uma regra geral segundo a qual levar café para uma entrevista resulte automaticamente na eliminação do candidato.
A própria discussão entre especialistas mostra que o peso atribuído ao comportamento varia. Um copo de café, isoladamente, diz muito pouco sobre experiência profissional, conhecimento técnico ou capacidade de desempenhar determinada função.
Trent Cotton, diretor de inteligência de talentos da plataforma de recrutamento iCIMS, questionou justamente essa lógica. Para ele, o episódio faz parte de uma discussão maior sobre mudanças na relação entre empresas e trabalhadores.
Isso significa que um candidato não deve interpretar a polêmica como uma regra absoluta. O contexto da empresa, da vaga e do entrevistador pode fazer diferença.
A geração Z está mudando as regras das entrevistas?
A entrada da geração Z no mercado de trabalho aconteceu durante um período de grandes transformações.
A pandemia acelerou a adoção do trabalho remoto e das entrevistas por videoconferência. Muitos profissionais mais jovens tiveram suas primeiras experiências profissionais em ambientes híbridos ou totalmente digitais.
Com isso, algumas convenções tradicionais perderam espaço.
Roupas extremamente formais deixaram de ser obrigatórias em muitas empresas. Reuniões passaram a acontecer por videoconferência e a comunicação entre funcionários e gestores ficou mais informal em determinados setores.
O problema é que essa transformação não aconteceu de maneira igual em todas as empresas.
Uma startup de tecnologia pode ter uma cultura completamente diferente da encontrada em um banco, escritório de advocacia ou companhia multinacional tradicional.
Por isso, um comportamento considerado perfeitamente normal em uma empresa pode ser interpretado como informal demais em outra.
O que são as chamadas regras não escritas?
A discussão sobre o café também chama atenção para um problema comum nos processos seletivos: as chamadas regras não escritas.
São comportamentos que muitas empresas esperam dos candidatos, embora nem sempre estejam descritos na vaga ou sejam explicados antes da entrevista.
Chegar com antecedência, escolher uma roupa adequada ao ambiente, cumprimentar corretamente os entrevistadores e manter o celular guardado são alguns exemplos.
Para profissionais experientes, essas atitudes podem parecer óbvias.
Para quem está procurando o primeiro emprego, entretanto, não necessariamente são.
A geração Z também entrou no mercado em um momento no qual parte dessas convenções estava sendo questionada. Isso pode aumentar o choque entre as expectativas de diferentes gerações.
Profissionalismo depende do ambiente de trabalho
Não existe uma única definição de comportamento profissional válida para todas as empresas.
Em determinados escritórios, funcionários usam roupas sociais todos os dias. Em outras organizações, camiseta, jeans e tênis fazem parte da rotina.
O mesmo acontece com a comunicação.
Há empresas nas quais os funcionários conversam com seus gestores de maneira bastante informal. Outras mantêm uma estrutura mais hierárquica e formal.
Por isso, antes de uma entrevista, o candidato deve tentar entender a cultura da organização.
O setor também pode servir como referência. Uma empresa de publicidade pode ter expectativas diferentes de uma instituição financeira, por exemplo.
O que fazer antes de uma entrevista de emprego?
Mais importante do que decidir se levará café é preparar-se adequadamente para a conversa.
Pesquise a empresa
Conheça a atividade da companhia, seus produtos ou serviços e o perfil do negócio.
Também procure entender quais características a empresa valoriza e como seus funcionários se apresentam publicamente.
Estude a descrição da vaga
Leia novamente os requisitos da posição.
Identifique as habilidades solicitadas e prepare exemplos que demonstrem como você já utilizou essas competências.
Escolha uma roupa adequada
Não existe uma roupa universal para entrevistas.
A escolha deve levar em consideração o setor, o cargo e a cultura da empresa. Em caso de dúvida, uma aparência organizada e discreta costuma evitar situações desnecessárias.
Chegue com antecedência
Pontualidade tende a ter muito mais impacto na percepção do recrutador do que a escolha entre café quente e gelado.
Em entrevistas presenciais, considere o tempo necessário para chegar ao endereço, encontrar o local e passar pela recepção.
Evite distrações
Celular, fones de ouvido, comida e bebidas podem desviar a atenção.
Isso não significa que todos esses itens sejam proibidos. O ponto é evitar qualquer situação que tire o foco da conversa.
E se o entrevistador oferecer café?
A discussão fica ainda mais curiosa porque muitas empresas oferecem água, café ou outras bebidas aos candidatos.
Nesse caso, o candidato pode aceitar ou recusar normalmente.
A diferença, para alguns recrutadores, está no contexto. Uma bebida oferecida pela própria empresa faz parte da dinâmica da reunião, enquanto chegar ao local segurando um copo comprado anteriormente pode transmitir uma impressão diferente.
Essa interpretação não é uma regra universal.
Ela ajuda apenas a explicar por que alguns recrutadores fazem distinção entre as duas situações.
O que realmente pesa em uma entrevista?
O café está longe de ser o único aspecto observado durante uma entrevista.
Dependendo da vaga, o recrutador pode avaliar:
- experiência profissional;
- conhecimento técnico;
- capacidade de comunicação;
- clareza nas respostas;
- domínio das competências exigidas;
- conhecimento sobre a empresa;
- capacidade de solucionar problemas;
- interesse pela oportunidade;
- pontualidade;
- postura durante a conversa.
A importância de cada item varia conforme o cargo.
Uma vaga técnica pode envolver testes específicos. Uma posição comercial pode exigir maior capacidade de comunicação e negociação. Já cargos de liderança podem incluir perguntas sobre gestão de pessoas e tomada de decisões.
Por isso, dedicar toda a preparação à etiqueta pode fazer o candidato deixar de lado fatores muito mais relevantes.
Então é melhor não levar café para a entrevista?
Para quem deseja adotar uma postura mais conservadora, deixar o café para depois da entrevista é uma escolha simples.
Isso não significa que exista uma regra universal proibindo bebidas durante processos seletivos.
O principal ponto da discussão é compreender o ambiente.
Em empresas mais tradicionais, evitar o café pode ajudar o candidato a seguir expectativas de formalidade. Em organizações mais informais, provavelmente o comportamento terá peso muito menor.
Quem não conhece a cultura da empresa pode optar pela alternativa mais neutra: chegar sem comida ou bebida e concentrar-se na conversa.
O que a polêmica revela sobre o mercado de trabalho?

O café gelado acabou se transformando em um símbolo de uma mudança maior nas relações profissionais.
A geração Z questiona algumas convenções que eram consideradas naturais por gerações anteriores. Ao mesmo tempo, empresas continuam utilizando códigos de comportamento que muitas vezes não são explicados aos candidatos.
Esse desencontro pode produzir situações curiosas, como a discussão sobre uma bebida durante uma entrevista.
Para o candidato, compreender a cultura da empresa pode ajudar a evitar interpretações indesejadas. Para os empregadores, o episódio também levanta uma questão sobre quais critérios realmente têm relação com o desempenho esperado para uma vaga.
No fim, uma entrevista deve permitir que empresa e profissional avaliem se existe compatibilidade entre a oportunidade e as competências apresentadas.
O café pode estar na mão do candidato, mas não deveria ser mais importante do que aquilo que ele tem a oferecer.
Conclusão
A polêmica do café gelado mostra como pequenas atitudes podem ser interpretadas de maneiras diferentes no mercado de trabalho.
Para evitar qualquer impressão de informalidade, o candidato pode deixar a bebida para depois da entrevista. Ainda assim, preparo, pontualidade, conhecimento sobre a vaga e capacidade de demonstrar suas competências são muito mais relevantes no processo seletivo.
