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Especialistas defendem flexibilizar Bolsa Família para estimular emprego na construção civil

Construção civil sofre falta de mão de obra apesar de empregos em alta; Bolsa Família e rotatividade são apontados como entraves.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
bolsa familia

A construção civil, tradicionalmente um dos motores da geração de empregos no Brasil, vive uma crise silenciosa, mas estrutural: a escassez de mão de obra qualificada e o desinteresse crescente de jovens trabalhadores pelo setor. Apesar dos bons indicadores econômicos e de emprego, especialistas alertam que a dificuldade de atrair e reter trabalhadores vai muito além de flutuações momentâneas — e passa por fatores culturais, sociais e até por distorções em programas sociais como o Bolsa Família.

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pedreiro carregando materiais de construção no ombro
Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil 

Setor em expansão, mas com gargalos

Crescimento e saldo positivo de empregos

Segundo dados da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), a construção civil tem apresentado desempenho positivo em 2025, tanto na geração de empregos formais quanto no valor médio de admissão. No acumulado do ano até julho, o setor acompanhou a tendência nacional e contribuiu para o saldo de 1,52 milhão de novos postos de trabalho no país.

Com a taxa de desemprego nacional em 5,8% — a menor em mais de uma década — o Brasil vive tecnicamente uma situação de pleno emprego. Ainda assim, a construção civil não consegue preencher suas vagas.

Canteiro de obras vs. novas expectativas

Para Cristiano Gregorius, diretor-executivo do Sienge, especializado em soluções tecnológicas para o setor, a situação reflete uma mudança de paradigma.

“Há um descompasso entre o que o setor exige, como qualificação, esforço físico e rotinas do canteiro de obras, e as novas expectativas de carreira”, afirma Gregorius.

Essa mudança de perfil entre os trabalhadores — que hoje buscam mais flexibilidade, menos esforço físico e maior segurança — tem feito da construção civil um setor cada vez menos atrativo, especialmente para os jovens.

Bolsa Família e o paradoxo da inclusão

Quando o benefício social supera a oferta de trabalho

Além das questões estruturais, executivos e especialistas apontam que o programa Bolsa Família, em sua versão reformulada, também impacta a disponibilidade de mão de obra.

Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da FGV), avalia que o medo de perder o benefício social desestimula o retorno ao mercado de trabalho:

“As pessoas têm mais medo de perder uma coisa do que vontade de ganhar algo. Mesmo que o salário formal seja maior que o Bolsa Família, a insegurança da rotatividade pesa na decisão do beneficiário.”

Esse receio é reforçado pela regra vigente que permite que a família permaneça por até 12 meses no programa caso sua renda aumente, mas com apenas 50% do valor do benefício original — desde que a nova renda per capita não ultrapasse R$ 706.

O impacto regional e a força do assistencialismo

12 estados com mais beneficiários do que empregos formais

Um levantamento do Hub do Investidor com base em dados do Ministério do Desenvolvimento Social e do Caged mostra que em 12 estados brasileiros, principalmente no Norte e Nordeste, o número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família supera o número de trabalhadores com carteira assinada.

Jayme Simão, fundador da plataforma, aponta:

“Antes da pandemia, esse cenário se limitava a seis ou sete estados. Com o aumento do benefício para R$ 600, a proporção se alterou e nunca mais voltou atrás.”

Em contrapartida, estados do Sul, como Santa Catarina, têm 11 trabalhadores formais para cada beneficiário — o que sugere um impacto mais forte do assistencialismo nas regiões com maior vulnerabilidade.

Jovens fora da força de trabalho e o setor mais prejudicado

O perfil que o setor precisa é o que mais se afasta

De acordo com estudo do FGV Ibre, o público mais desestimulado a buscar trabalho formal é o de homens jovens — justamente o principal perfil da mão de obra no setor de construção civil.

“Não me surpreende que a construção civil seja o setor mais afetado”, diz Duque.

A informalidade, o trabalho por conta própria e as novas formas de atuação digital também competem com os modelos tradicionais como o da construção.

Empresariado pede flexibilização do Bolsa Família

Bolsa Família
Imagem: Freepik e Canva

Proposta de desmame gradual

Diante do cenário, empresários da construção civil e representantes do setor vêm defendendo alterações na forma como o Bolsa Família impacta o mercado de trabalho. André Bahia, diretor institucional do Fórum Norte-Nordeste da Indústria da Construção (FNNIC), alerta para o desequilíbrio criado:

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“O Bolsa Família é necessário, mas está descalibrado. Hoje, há uma sensação de pleno emprego que não é real; há pessoas vivendo de benefício e deixando de buscar trabalho.”

Projeto de lei propõe transição com mais segurança

Para resolver esse impasse, tramita na Câmara um projeto de lei do deputado Pauderney Avelino (União-AM) que visa permitir ao beneficiário do Bolsa Família manter o valor integral do benefício por até um ano após conseguir emprego com carteira assinada.

“Se a pessoa perder o emprego, ela volta ao benefício integral. É um incentivo à formalização e uma proteção à vulnerabilidade”, argumenta o parlamentar.

A proposta ainda prevê a redução gradual do valor do Bolsa Família após o primeiro ano, diminuindo 20 pontos percentuais por ano até zerar no quinto ano.

O problema da informalidade crescente

O jovem e o apelo do “bico”

Luiz França, presidente da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), também aponta outro obstáculo: a ascensão do trabalho informal.

“A informalidade atrai, mas é ruim para o trabalhador e para o país. O trabalho formal dá direitos, seguridade e estabilidade.”

O problema, segundo ele, é que a informalidade oferece flexibilidade e ganhos rápidos, enquanto o trabalho formal na construção exige esforço, jornada fixa e deslocamentos para o canteiro de obras.

O desafio de requalificação e o papel da tecnologia

obra construção
Imagem: Tinnakorn jorruang/Shutterstock

Sienge e a busca por inovação no setor

Com a crescente digitalização da economia, há uma tentativa de modernização dentro do setor da construção. Empresas como o Sienge, citado por Cristiano Gregorius, apostam em soluções tecnológicas, automação de processos e capacitação remota para tornar o setor mais atrativo e eficiente.

Mas o caminho ainda é longo.

“Não se trata apenas de atrair jovens, mas de reformular o modelo de trabalho, de gestão e de qualificação”, resume Gregorius.

Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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