Drex foi apresentado ao Brasil como um projeto inovador: a moeda digital oficial que colocaria o país na vanguarda das finanças globais. Mas, após anos de estudos, testes e ajustes, o Banco Central decidiu mudar o rumo da iniciativa. O que antes era chamado de real digital deixou de ser classificado como uma moeda digital de banco central (CBDC) e se transformou em algo mais amplo.
Drex não é real digital nem blockchain: entenda a decisão do Banco Central
Drex mudou e não será moeda digital. Descubra aqui o que o Banco Central decidiu e o impacto dessa transformação. Leia mais agora!!!
Hoje, o Drex é definido como uma plataforma voltada para a tokenização de ativos, em vez de uma versão virtual do real. Essa guinada mostra como a tecnologia e a regulação caminham juntas, adaptando-se aos limites práticos e às demandas do sistema financeiro brasileiro.

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O nascimento do Drex e o planejamento da moeda digital brasileira
O contexto global
A ideia de criar uma moeda digital própria surgiu em 2020, quando bancos centrais de diversos países começaram a testar as chamadas CBDCs. A China, por exemplo, avançava com o yuan digital, enquanto a União Europeia discutia o euro digital. O Brasil não queria ficar para trás.
O objetivo era claro: oferecer um meio de pagamento moderno, reduzir custos e aumentar a inclusão financeira. O Banco Central viu no real digital uma oportunidade de manter o país alinhado às tendências internacionais de digitalização da economia.
A escolha do nome e sua simbologia
Em 2023, o termo real digital foi oficialmente substituído por Drex. Cada letra foi pensada para transmitir um conceito:
- D e R remetem ao real digital
- E significa eletrônico
- X traz a ideia de tecnologia, inovação e conexão
Essa identidade buscava aproximar o projeto do público e dar a ele uma marca forte, capaz de dialogar tanto com o mercado financeiro quanto com a sociedade.
A virada de chave: por que Drex não será moeda digital
As limitações tecnológicas
Durante a fase de testes, surgiram obstáculos importantes. A principal barreira foi a privacidade. As tecnologias utilizadas, incluindo a blockchain permissionada Hyperledger Besu, não conseguiram garantir o nível de sigilo exigido pela legislação brasileira, especialmente pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Segundo o coordenador do projeto, Fabio Araújo, a blockchain funciona como uma “caixa de vidro”: ela garante transparência, mas não consegue proteger informações sensíveis de forma adequada. Esse conflito colocou em xeque a viabilidade de lançar o Drex como uma moeda digital completa.
A mudança de visão
Em 2025, no evento Febraban Tech, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, foi enfático: “O Drex não é exatamente uma CBDC como a literatura trata”. Para ele, a missão do projeto vai além da emissão de uma moeda, abrindo espaço para um novo ecossistema de ativos digitais tokenizados.
Com isso, o Drex deixou de ser apenas um concorrente do dinheiro físico ou das transferências eletrônicas e passou a ser uma plataforma para transformar a forma como créditos, títulos e outros ativos circulam no sistema financeiro.
O papel da tokenização
O que é tokenização?
A tokenização é o processo de transformar ativos reais — como imóveis, títulos públicos ou recebíveis — em representações digitais chamadas tokens. Esses tokens podem ser negociados em plataformas digitais de forma rápida, segura e rastreável.
No caso do Drex, o objetivo é permitir que operações como a concessão de crédito sejam realizadas em segundos, com garantias registradas e verificadas em tempo real entre diferentes instituições.
Benefícios esperados
Entre as principais vantagens da tokenização estão:
- Agilidade: transações processadas quase instantaneamente
- Segurança: registro imutável dos ativos digitais
- Inclusão: acesso ampliado a produtos financeiros
- Eficiência: redução de custos operacionais e burocráticos
Privacidade: o calcanhar de Aquiles
O problema regulatório
O desafio do Banco Central não foi apenas técnico, mas também jurídico. Qualquer solução precisava estar em conformidade com a LGPD e com a lei do sigilo bancário. Isso exigia um equilíbrio delicado: proteger dados sensíveis e, ao mesmo tempo, permitir que o regulador pudesse monitorar as operações.
O dilema da criptografia
Mecanismos de criptografia total protegem dados, mas inviabilizam a execução de contratos inteligentes (smart contracts). Por outro lado, manter contratos programáveis exigia reduzir o nível de proteção. Esse impasse atrasou a evolução do projeto e levou à reavaliação do uso da blockchain.
Reconhecimento do BC
Autoridades como Rogério Lucca, secretário executivo do BC, admitiram que a tecnologia ainda não atingiu maturidade suficiente para equilibrar privacidade, escalabilidade e conformidade legal. O problema, segundo ele, não é exclusivo do Brasil, mas um reflexo do estágio atual do desenvolvimento tecnológico global.
A decisão: Drex sem blockchain
Primeira fase
Diante das dificuldades, o Banco Central decidiu que a primeira versão do Drex não usará blockchain. Prevista para 2026, ela terá foco na reconciliação de gravames — o registro digital de garantias oferecidas em operações de crédito.
Isso significa que, em um financiamento, por exemplo, a garantia poderá ser registrada e validada em tempo real, reduzindo a burocracia e acelerando a liberação de recursos.
Reações do mercado
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A decisão gerou opiniões divergentes:
- Otimismo: especialistas como Fabrício Tota, do MB, acreditam que a retirada da blockchain acelera a implantação e abre espaço para o setor privado desenvolver soluções complementares.
- Ceticismo: outros, como Daniel Coquieri, da Liqi, alertam que a centralização excessiva pode afastar o Drex de sua proposta original de inovação e descentralização.
A visão do Banco Central
Para Galípolo, o mais importante não é a tecnologia em si, mas a resolução de problemas concretos. Segundo ele, o Drex será agnóstico em relação à tecnologia: blockchain poderá voltar a ser considerada, mas apenas se for adequada às necessidades práticas e regulatórias.
As duas fases do Drex
Primeira fase: pragmática
- Lançamento em 2026
- Sem uso de blockchain
- Foco em garantias de crédito
Segunda fase: experimental
- Estudo de contratos inteligentes
- Testes com redes distribuídas
- Possível adoção futura de blockchain
O impacto do Drex
No mercado financeiro
O Drex pode revolucionar a forma como bancos e fintechs oferecem crédito, investimentos e outros serviços. A tokenização tende a criar um ambiente mais competitivo e inovador, com ganhos de eficiência semelhantes aos proporcionados pelo Pix.
Para os cidadãos
Consumidores devem sentir o impacto no acesso ao crédito. Operações mais rápidas e seguras podem facilitar financiamentos, especialmente para quem hoje enfrenta barreiras no sistema tradicional.
Para a economia
Ao criar uma infraestrutura digital de ativos, o Drex pode estimular novos modelos de negócios e ampliar a inclusão financeira, sobretudo em regiões onde o acesso a serviços bancários ainda é limitado.

O Drex já não é mais apenas o “real digital”. A mudança de foco do Banco Central transformou o projeto em uma plataforma de tokenização de ativos, com potencial para redesenhar o sistema financeiro brasileiro.
Embora a primeira versão prevista para 2026 seja limitada, o Drex pode se tornar um marco para o crédito e os investimentos digitais, assim como o Pix foi para os pagamentos. O caminho ainda é incerto, mas a aposta é clara: o Brasil está construindo uma nova arquitetura financeira, adaptada aos desafios tecnológicos e regulatórios.
A grande questão agora é se o Drex conseguirá cumprir seu objetivo de ser para os ativos digitais o que o Pix foi para as transferências instantâneas.
