A falta de uma definição sobre os próximos passos do Drex, projeto do Banco Central (BC) voltado à modernização da infraestrutura financeira brasileira, abriu espaço para iniciativas privadas de tokenização. Enquanto a autoridade monetária avalia os rumos do sistema, instituições financeiras trabalham em soluções próprias para digitalizar ativos e facilitar operações no mercado de capitais.
Um dos principais exemplos é o piloto conduzido pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que reúne 51 instituições para testar uma infraestrutura compartilhada. A iniciativa busca reproduzir as diferentes etapas da vida de um ativo financeiro, desde sua emissão até a liquidação e o encerramento.
O movimento não significa necessariamente que o Drex tenha sido abandonado. A questão central é que o setor privado não precisa esperar a implantação de uma plataforma pública para desenvolver aplicações de blockchain, desde que respeite as normas aplicáveis a cada operação.
Leia mais:
Banco Central do Brasil realiza evento sobre Drex e Pix
O que aconteceu com o projeto Drex do Banco Central?

Inicialmente apresentado como uma moeda digital brasileira, o Drex passou a concentrar esforços no desenvolvimento de uma infraestrutura capaz de integrar ativos digitais, transferências e liquidações financeiras.
A proposta envolve o uso de tecnologias como blockchain e contratos inteligentes, que permitem registrar transações e executar determinadas condições de forma automatizada. Na prática, esse modelo pode ajudar a conectar etapas que hoje dependem de diferentes sistemas e intermediários.
Entretanto, os testes realizados pelo Banco Central enfrentaram desafios técnicos, regulatórios e operacionais. Em 2025, o projeto passou por uma mudança de direção, sem que houvesse um cronograma definitivo de lançamento comercial amplamente estabelecido.
Com essa indefinição, empresas e associações do mercado passaram a desenvolver alternativas que permitam testar a tokenização em ambientes próprios. Essas iniciativas podem gerar conhecimento técnico e ajudar a estabelecer padrões, independentemente do calendário do Drex.
Como funciona o piloto de tokenização da Anbima?
O projeto da Anbima procura testar mais do que a criação de representações digitais de ativos. O objetivo é verificar como diferentes instituições conseguem operar em uma rede compartilhada, utilizando regras técnicas e procedimentos compatíveis.
Debêntures e fundos estão entre os primeiros ativos testados
A fase inicial contempla debêntures e fundos de investimento. As debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos, enquanto os fundos reúnem investimentos conforme uma política definida e sob administração especializada.
No ambiente experimental, os participantes simulam etapas como estruturação, emissão, movimentação, liquidação e encerramento dos ativos. Também avaliam como atividades tradicionais, como custódia, escrituração, distribuição e administração, podem funcionar em uma infraestrutura baseada em registros digitais.
A proposta é identificar quais processos podem ser simplificados e quais responsabilidades precisam continuar sob a supervisão das instituições habilitadas.
Por que uma rede compartilhada é importante?
Um dos obstáculos à expansão da tokenização é a fragmentação tecnológica. Quando cada empresa utiliza uma plataforma com padrões próprios, a transferência de ativos e o compartilhamento de informações entre redes podem se tornar mais complexos.
Uma infraestrutura comum pode facilitar a comunicação entre participantes, desde que existam regras de governança, segurança, privacidade e compatibilidade entre sistemas.
O piloto também investiga quais informações precisam ficar registradas na blockchain e quais devem permanecer nos sistemas internos das instituições. Nem todos os dados precisam ser públicos ou compartilhados integralmente, especialmente quando envolvem informações confidenciais e obrigações regulatórias.
Como os testes ocorrem em ambiente controlado, seus resultados ainda precisam demonstrar se os ganhos esperados se sustentam em operações reais e em maior escala.
Embora a tecnologia permita registrar ativos digitalmente, sua adoção em larga escala depende de mais do que desenvolvimento de software. O mercado precisa definir responsabilidades jurídicas, procedimentos de custódia, mecanismos de proteção aos investidores e regras para resolver falhas operacionais.
A interoperabilidade também é decisiva. Se uma instituição não consegue reconhecer ou movimentar um ativo registrado em outra rede, parte dos benefícios esperados da tecnologia fica comprometida.
Outro desafio é a liquidez, ou seja, a capacidade de comprar e vender ativos sem grandes dificuldades. Um título tokenizado pode ter emissão digital eficiente, mas continuar pouco negociado se não houver compradores, vendedores e canais de distribuição suficientes.
Qual é o papel da CVM e do Banco Central?
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) supervisiona o mercado de valores mobiliários dentro de suas competências, enquanto o Banco Central atua na regulação e supervisão do sistema financeiro e dos sistemas de pagamento sob sua responsabilidade.
As duas instituições podem contribuir para a construção de regras compatíveis com os diferentes tipos de ativos e operações. A tokenização não elimina as exigências legais existentes: a forma digital de um investimento não o torna automaticamente autorizado, seguro ou isento de fiscalização.
O próprio Banco Central destaca que privacidade, proteção de dados e segurança são requisitos importantes para a evolução do Drex. Os relatórios do projeto-piloto registraram a necessidade de aprofundar as soluções técnicas para atender a essas exigências.
Stablecoins podem viabilizar operações sem o Drex?

As stablecoins são criptoativos projetados para manter valor relativamente estável em relação a uma referência, como o real ou o dólar. Quando vinculadas ao real, podem ser utilizadas em determinados modelos de liquidação de operações digitais, desde que respeitadas as regras aplicáveis.
Isso ajuda a explicar por que a tokenização pode avançar mesmo sem o lançamento comercial do Drex. Empresas podem desenvolver plataformas privadas e estudar mecanismos de liquidação com instrumentos financeiros digitais já existentes.
Entretanto, stablecoins não são equivalentes à moeda digital emitida pelo Banco Central. A natureza jurídica, os riscos, as garantias e o funcionamento de cada instrumento são diferentes. A escolha do mecanismo de liquidação depende da estrutura da operação e das exigências regulatórias.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
