O endividamento dos trabalhadores brasileiros atingiu um novo patamar em 2025. Dados divulgados pelo Banco Central (BC) mostram que o Crédito do Trabalhador, modalidade lançada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para ampliar o acesso ao crédito consignado, provocou um aumento de 80% nas dívidas em apenas cinco meses.
O saldo das operações saltou de R$ 18,4 bilhões em fevereiro para R$ 33,1 bilhões em julho, revelando um ritmo de expansão acelerado e preocupante.
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Crédito do Trabalhador: o que é e quem pode contratar

Criado para aprimorar o modelo de crédito consignado tradicional, o Crédito do Trabalhador tem como público-alvo empregados da iniciativa privada, trabalhadores rurais e domésticos com vínculo formal. A modalidade permite o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento, mecanismo que oferece maior segurança aos bancos e taxas geralmente menores que as do crédito pessoal comum.
Contudo, o programa passou a atingir pessoas de renda mais baixa, com menor tempo de empresa e pouca instrução, segundo o próprio Banco Central. Essa mudança de perfil elevou o risco das operações e, consequentemente, as taxas de juros praticadas.
“O tomador deste novo crédito é um trabalhador de menor instrução e renda, menos tempo de empresa e trabalhando em empresa de menor porte”, afirmou Diogo Abry Guillen, diretor de Política Econômica do BC.
O funcionamento do novo consignado
O programa permite que o trabalhador use o FGTS e a multa rescisória como garantia, reduzindo o risco de inadimplência para os bancos. Caso o empregado seja demitido, o desconto das parcelas pode ser redirecionado para outro vínculo formal que venha a adquirir posteriormente.
A iniciativa também ampliou o leque de empresas aptas a oferecer o empréstimo. Antes, apenas empregadores conveniados com bancos podiam operar o consignado; agora, qualquer empresa registrada pode participar, o que facilitou a adesão, mas também aumentou o risco sistêmico.
Endividamento em alta: números preocupam o Banco Central
Entre março e julho, o Crédito do Trabalhador respondeu por 2,3 milhões de contratos, de um total de 3 milhões de operações de crédito consignado na iniciativa privada. O volume de concessões chegou a R$ 21,9 bilhões, sendo R$ 13,6 bilhões apenas na nova modalidade.
Apesar do crescimento expressivo, o BC alerta que o impacto sobre o sistema financeiro ainda é “limitado”, já que o volume agregado de crédito pessoal é muito maior. No entanto, o aumento da inadimplência e o comprometimento da renda familiar são pontos de atenção.
Segundo o relatório do BC, houve uma redução momentânea nas dívidas de alto custo, como cartão de crédito e cheque especial, mas o alívio foi breve. “O saldo voltou a crescer nos meses subsequentes”, destacou o órgão.
Comparativo com o consignado tradicional
Enquanto o estoque do consignado tradicional subiu R$ 13,6 bilhões, o Crédito do Trabalhador cresceu R$ 14,7 bilhões — uma diferença que revela a velocidade com que o novo programa se expandiu.
O problema, segundo especialistas, é que essa ampliação vem acompanhada de um perfil de tomador mais vulnerável, com menor capacidade de honrar compromissos financeiros. Isso pode transformar o crédito em uma armadilha para quem já tem boa parte da renda comprometida.
Juros altos e risco de inadimplência
Embora tenha sido criado com o objetivo de baratear o acesso ao crédito, o programa acabou registrando taxas médias de 58% ao ano, segundo dados até julho. No mesmo período, o consignado convencional apresentava juros médios de 36,2%.
O aumento expressivo do custo se deve, em parte, ao perfil de risco dos novos beneficiários. Trabalhadores de empresas menores e com menor tempo de serviço são considerados mais suscetíveis à inadimplência, o que leva as instituições financeiras a cobrarem taxas maiores.
Diferenças de renda e escolaridade
De acordo com o levantamento do Banco Central, a mediana de renda dos tomadores do Crédito do Trabalhador é de R$ 2.603, inferior aos R$ 2.925 registrados entre os contratantes do consignado tradicional. Além disso, há uma menor proporção de pessoas com ensino médio ou superior, fator que influencia o nível de compreensão sobre juros e planejamento financeiro.
O que dizem os especialistas
Economistas e analistas financeiros alertam que o avanço do endividamento pode comprometer o orçamento familiar e agravar o quadro de inadimplência no país.
Para Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o consignado é uma boa ferramenta para substituir dívidas mais caras, mas o problema é o mau uso.
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“O problema não é a linha de crédito em si, é como o tomador vai se comportar. Se ele usar para se endividar ainda mais, pode virar uma bomba-relógio”, disse.
Bentes ressalta que, se bem utilizado, o crédito pode reduzir a inadimplência ao permitir a liquidação de dívidas com juros altíssimos, como o rotativo do cartão, que chega a 451,5% ao ano. No entanto, ele alerta para o risco de comprometimento excessivo da renda, especialmente quando o trabalhador já possui outras pendências financeiras.
Falta de educação financeira
Um levantamento da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira (Abefin) revelou que 69% dos brasileiros não avaliaram o impacto do crédito no salário antes de contratar.
Segundo o estudo, 83% dos tomadores não sabem quanto estão pagando de juros, e 36% utilizaram o empréstimo para quitar dívidas mais caras.
“Estamos falando de pessoas que comprometem parte do salário sem entender o custo real disso. É uma decisão emocional, movida pelo desespero”, alertou Reinaldo Domingos, presidente da Abefin.
Governo defende a iniciativa como inclusão financeira
O Ministério do Trabalho tem outra visão. Para a pasta, o Crédito do Trabalhador representa um avanço na inclusão financeira, permitindo que milhões de brasileiros tenham acesso a recursos formais com juros menores que o crédito pessoal.
O órgão informou que, até setembro, mais de 5,4 milhões de trabalhadores haviam contratado o programa, movimentando R$ 50 bilhões em empréstimos. Desse total, R$ 3,2 bilhões correspondem a contratos antigos renegociados com instituições financeiras.
“Enquanto a taxa de juros dos empréstimos pessoais gira em torno de 11% ao mês, o Crédito do Trabalhador oferece média de 3,42%”, destacou Carlos Augusto Simões Gonçalves, secretário de Políticas de Proteção ao Trabalhador.
O desafio: equilibrar acesso e responsabilidade
O Crédito do Trabalhador surge como um instrumento relevante para democratizar o acesso ao crédito, mas os números mostram que a expansão rápida pode gerar efeitos colaterais. O aumento de 80% no endividamento em poucos meses acende o alerta para a necessidade de educação financeira e políticas de monitoramento mais rígidas.
Enquanto o governo celebra a inclusão de milhões de brasileiros no sistema de crédito formal, o Banco Central e especialistas alertam: sem controle, o “pacotão de dívidas” pode se transformar em uma nova crise de inadimplência.



