O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) funciona como uma proteção financeira para o trabalhador em situações previstas na legislação, como a demissão sem justa causa. Por isso, quando a empresa deixa de realizar os depósitos mensais, o problema pode aparecer justamente no momento em que o empregado mais precisa do dinheiro.
Imagine, por exemplo, uma trabalhadora que permaneceu cinco anos em uma empresa e foi dispensada sem justa causa. Ao consultar o extrato do FGTS, ela percebe que vários meses não foram depositados. Nesse cenário, a ausência dos recolhimentos não significa perda do direito. O empregador continua responsável pela regularização dos valores devidos.
A obrigação está prevista na Lei nº 8.036/1990, que determina, em regra, o depósito mensal de 8% da remuneração do trabalhador em sua conta vinculada. Para contratos de aprendizagem, o percentual é de 2%.
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Como identificar se existem depósitos de FGTS atrasados
O primeiro passo é consultar o extrato da conta vinculada. A Caixa Econômica Federal disponibiliza canais digitais para que o trabalhador acompanhe os recolhimentos realizados pelo empregador.
A consulta é importante porque o salário recebido normalmente não permite identificar se o FGTS foi efetivamente depositado. O valor é uma obrigação do empregador e não deve ser descontado do salário do empregado.
Ao analisar o extrato, é possível encontrar meses sem lançamento, depósitos inferiores ao esperado ou períodos em que o recolhimento deixou de ocorrer.
Também é importante comparar os dados com contracheques, carteira de trabalho e demais documentos do vínculo. Se houver divergência, o trabalhador pode solicitar esclarecimentos à empresa.
Quanto a empresa deve depositar?
Para a maioria dos trabalhadores contratados pelo regime da CLT, o depósito corresponde a 8% da remuneração. Assim, considerando apenas um salário mensal hipotético de R$ 2.500, o recolhimento seria de R$ 200 naquele mês.
O cálculo efetivo deve considerar a remuneração que compõe a base do FGTS, conforme as regras aplicáveis ao contrato.
O prazo regular para recolhimento também deve ser observado pelo empregador. Desde a entrada em vigor da sistemática estabelecida pela legislação atual, o recolhimento mensal do FGTS deve ser realizado até o dia 20 do mês seguinte ao da competência, por meio do sistema oficial de arrecadação.
O que acontece quando a empresa não deposita o FGTS?
O atraso não transforma o dinheiro devido em uma simples dívida comum entre empregado e empregador. Trata-se de uma obrigação legal relacionada ao contrato de trabalho e à conta vinculada do trabalhador.
A empresa pode ser obrigada a regularizar os depósitos, além dos encargos incidentes conforme a legislação. A fiscalização e a cobrança também podem ocorrer pelos mecanismos administrativos e judiciais previstos para o FGTS.
Em uma demissão sem justa causa, a situação ganha ainda mais importância. A empresa precisa cumprir as obrigações rescisórias, incluindo a indenização de 40% sobre o saldo do FGTS nas hipóteses em que ela é devida.
A multa não deve ser confundida com os depósitos mensais. São obrigações diferentes: uma corresponde aos recolhimentos realizados durante o contrato; a outra é a indenização decorrente da dispensa sem justa causa.
Trabalhador pode cobrar FGTS atrasado na Justiça?
Sim. Quando a empresa não regulariza os depósitos, o trabalhador pode buscar seus direitos por meio dos canais administrativos ou da Justiça do Trabalho, conforme as circunstâncias.
A ação pode ser utilizada para cobrar valores não depositados, desde que respeitados os prazos legais para reivindicação dos direitos trabalhistas.
O trabalhador deve guardar documentos que ajudem a demonstrar o vínculo e as diferenças existentes, como contracheques, contrato de trabalho, carteira de trabalho e extratos do FGTS.
Em processos judiciais, a Justiça pode determinar que a empresa regularize os recolhimentos. Caso a obrigação não seja cumprida espontaneamente depois de uma decisão, podem ser adotadas medidas de execução previstas na legislação processual.
Empresa pode ter as contas bloqueadas?
O bloqueio de dinheiro ou de outros bens da empresa não acontece automaticamente apenas porque existem depósitos de FGTS em atraso.
Se houver uma ação judicial e, posteriormente, uma fase de execução sem pagamento voluntário, o Judiciário poderá utilizar mecanismos legais de cobrança, inclusive sistemas eletrônicos de pesquisa e bloqueio de ativos, quando cabíveis.
Portanto, não é correto afirmar que todo empregador que atrasa FGTS terá imediatamente as contas bancárias bloqueadas. Essa medida depende do processo, da existência de uma obrigação exigível e das decisões tomadas pelo Judiciário.
FGTS atrasado pode gerar rescisão indireta?
Em determinadas situações, o descumprimento grave e reiterado das obrigações relacionadas ao FGTS pode contribuir para o reconhecimento da rescisão indireta, instituto previsto no artigo 483 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
A rescisão indireta é conhecida como uma espécie de “justa causa do empregador”. Ela pode ser reconhecida quando o empregador comete falta grave que torna insustentável a continuidade da relação de emprego.
A existência de depósitos de FGTS em atraso, especialmente quando o problema é recorrente, já foi analisada pela Justiça do Trabalho em diferentes processos. Porém, o reconhecimento não ocorre automaticamente em qualquer caso e depende das circunstâncias avaliadas judicialmente.
O que fazer ao descobrir meses sem depósito?

O trabalhador deve começar reunindo provas. O extrato do FGTS é fundamental, mas documentos como holerites e registros do contrato também podem ajudar.
Depois, é possível comunicar formalmente a empresa e solicitar a regularização. Manter registros da comunicação é recomendável, principalmente se o problema continuar.
Se a empresa não resolver a situação, o trabalhador pode procurar o sindicato da categoria, advogado trabalhista ou serviço de assistência jurídica disponível em sua região para avaliar as medidas cabíveis.
Também é importante não esperar indefinidamente. Os direitos trabalhistas estão sujeitos a regras de prescrição, e o prazo para cobrança pode variar conforme o momento e a natureza da pretensão.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
