A decisão do governo federal de proibir as chamadas bets provocou uma reação imediata no futebol brasileiro. Clubes que construíram parte relevante de seus orçamentos com patrocínios de casas de apostas agora enfrentam a necessidade de renegociar contratos, buscar novos anunciantes e recalcular as receitas previstas para 2026 e 2027.
A Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada em 25 de setembro, proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no país. A determinação também alcança os patrocínios esportivos, criando um prazo curto para a retirada das marcas.
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Nos últimos anos, as casas de apostas passaram a ocupar espaços de grande visibilidade no esporte brasileiro. Marcas do setor apareceram em camisas, placas de estádio, transmissões, competições e campanhas com jogadores e influenciadores.
O problema para os clubes é que contratos de patrocínio normalmente são planejados para toda a temporada. Quando uma fonte de receita desaparece de forma antecipada, o impacto não fica restrito à publicidade: ele pode alcançar planejamento de contratações, pagamento de dívidas, folha salarial e investimentos em estrutura.
Levantamentos publicados após a medida provisória indicam que 14 dos 20 clubes da Série A tinham casas de apostas como patrocinadoras máster, embora a exposição financeira varie bastante entre as equipes.
Flamengo levou a discussão ao STF

O Flamengo é um dos casos mais expressivos. O clube pediu para participar, como interessado, das ações que discutem a validade da medida no Supremo Tribunal Federal e argumentou que a proibição poderá provocar perdas relevantes em seu orçamento.
O clube citou o contrato com a Betano, que prevê R$ 268,5 milhões por temporada e pode chegar a aproximadamente R$ 895 milhões ao longo dos 40 meses de duração. A diretoria estima impacto de centenas de milhões de reais em suas projeções financeiras.
A iniciativa ocorre paralelamente às ações apresentadas por associações ligadas ao mercado de apostas. O STF já recebeu questionamentos contra a MP, que incluem discussões sobre sua constitucionalidade e sobre a existência dos requisitos necessários para edição de uma medida provisória.
Clubes discutem alternativas para compensar as perdas
Diante da mudança repentina, dirigentes passaram a pressionar o governo por mecanismos que deem mais tempo para reorganizar os contratos. Uma das propostas discutidas é a criação de um período de transição para o encerramento dos patrocínios.
Também entrou no debate uma linha de crédito destinada aos clubes. A intenção seria oferecer condições financeiras para que as equipes tenham maior capacidade de atravessar o período de ajuste sem comprometer imediatamente suas operações.
A reação chegou ao ponto de dirigentes discutirem a possibilidade de paralisação do Campeonato Brasileiro como instrumento de pressão. A reunião que havia sido prevista entre representantes do governo e clubes acabou sendo adiada depois da articulação de parte das equipes para não participar do encontro.
Não significa, contudo, que o Brasileirão tenha sido paralisado. Trata-se de uma possibilidade discutida por dirigentes em meio à negociação.
O que acontece com os contratos de patrocínio
A MP determina o fim da publicidade das empresas de apostas e estabelece prazos para retirada de materiais publicitários e de patrocínio. O Ministério da Saúde informou que as plataformas atingidas não podem continuar oferecendo apostas ou realizando publicidade no país.
Na prática, isso cria uma situação complexa para os clubes. Um contrato que previa pagamentos futuros pode deixar de ser executado justamente quando a equipe já havia incorporado aquela receita ao planejamento financeiro.
Há ainda outra questão: a situação jurídica da própria MP continua em disputa. Associações do setor recorreram ao STF, enquanto o Congresso terá de analisar a medida provisória dentro do processo legislativo previsto para esse tipo de norma.
Até que haja uma decisão definitiva, portanto, clubes, empresas e investidores trabalham em um ambiente de incerteza.
O impacto pode atingir todo o mercado esportivo
A saída das bets não afeta apenas os clubes. Federações, competições, transmissões, veículos esportivos e atletas também podem sentir os efeitos de uma redução dos investimentos publicitários.
O mercado já começou a procurar possíveis substitutos para os espaços deixados pelas casas de apostas. Empresas de diferentes segmentos podem enxergar uma oportunidade para ocupar as propriedades comerciais, mas a capacidade de reposição dependerá dos valores que cada anunciante estiver disposto a pagar.
Outro ponto relevante é que o mercado de patrocínio esportivo não funciona apenas pela exposição da marca. Empresas avaliam audiência, alcance, perfil do público e retorno comercial antes de fechar contratos. Por isso, substituir rapidamente contratos milionários pode ser difícil.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
