O governo federal está prestes a lançar uma das medidas mais ambiciosas dos últimos anos para enfrentar a pobreza energética no Brasil. A proposta visa garantir tarifa gratuita de energia elétrica para cerca de 60 milhões de brasileiros, com foco em famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico. A iniciativa, que deverá ser enviada ao Congresso Nacional nas próximas semanas, integra o pacote de inclusão social do governo e tem como meta combater as desigualdades energéticas, especialmente em regiões mais carentes.
Conta de luz gratuita? Nova medida pode aliviar o bolso de famílias vulneráveis
Governo propõe energia gratuita para até 60 milhões de famílias de baixa renda. Saiba quem tem direito, como funciona a MP e quais os impactos.
O que é a tarifa social de energia?
A tarifa social de energia elétrica é um benefício criado em 2002 que concede descontos progressivos na conta de luz para famílias de baixa renda. Os descontos variam de 10% a 65% dependendo do consumo mensal. Atualmente, cerca de 24 milhões de famílias são contempladas com esse subsídio, que representa uma importante ferramenta de justiça social.
A nova proposta do governo vai além da tarifa social vigente, ao prever isenção total da cobrança da fatura de energia elétrica para uma parcela ainda maior da população. O objetivo é atingir cerca de 60 milhões de brasileiros, o equivalente a 28% da população do país.
Quem terá direito à energia gratuita?
Segundo informações preliminares do Ministério de Minas e Energia e do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, a tarifa zero será direcionada aos seguintes grupos:
- Famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) com renda per capita de até meio salário mínimo;
- Beneficiários do Bolsa Família;
- Indígenas e quilombolas com consumo inferior a 220 kWh/mês;
- Pessoas que recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC);
- Famílias em situação de vulnerabilidade energética, mesmo que não estejam no CadÚnico, mediante solicitação e avaliação.
O benefício será concedido automaticamente aos que se enquadrarem nos critérios e estiverem com os dados atualizados nos sistemas governamentais. A base será o cruzamento de informações entre a Aneel, concessionárias de energia e o CadÚnico.
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Como vai funcionar a gratuidade na prática?
O modelo estudado pelo governo prevê que as famílias elegíveis terão a conta de luz zerada até um determinado limite de consumo mensal. Essa faixa deve variar entre 100 e 150 kWh/mês, com possibilidade de ampliação em áreas de clima extremamente quente ou com necessidade de equipamentos médicos.
Caso o consumo ultrapasse o limite gratuito, a família passará a pagar a tarifa convencional apenas pelo excedente. Por exemplo: se o teto for 130 kWh/mês e o consumo for 150 kWh, os 130 serão gratuitos e os 20 restantes cobrados normalmente.
De onde virá o recurso para custear o benefício?
Para garantir a viabilidade da medida, o governo pretende utilizar recursos de:
- Programas já existentes, como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE);
- Redirecionamento de subsídios cruzados já pagos pelos consumidores nas contas de luz;
- Fundo Social do Pré-Sal;
- Aportes do Orçamento da União;
- Possível criação de um fundo específico de combate à pobreza energética com contribuições de empresas do setor elétrico.
O impacto orçamentário estimado ainda está em análise, mas a expectativa é que o programa seja sustentável financeiramente, com redistribuição de subsídios que hoje beneficiam grandes consumidores ou usinas com contratos antigos.
Por que o governo quer ampliar a tarifa gratuita?
A proposta de tarifa zero surge em um momento de crise social e aumento da desigualdade, especialmente após eventos climáticos extremos que deixaram milhares de brasileiros sem acesso adequado à energia. A medida também é uma resposta direta ao aumento do custo de vida, que impacta de forma desproporcional os mais pobres.
Segundo dados do IBGE e da Aneel, mais de 12 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza energética no Brasil — ou seja, gastam mais de 10% da renda familiar apenas com energia elétrica ou vivem sem acesso regular a esse serviço essencial.
A medida, portanto, busca garantir direitos básicos, como a possibilidade de conservar alimentos, tomar banho quente, estudar à noite e manter equipamentos médicos essenciais funcionando.
Impactos esperados da tarifa gratuita

O governo aposta que a gratuidade de energia para famílias de baixa renda pode gerar benefícios em diversas frentes:
Redução da inadimplência
Milhões de famílias têm contas de luz em atraso. Com a isenção, espera-se uma queda significativa na inadimplência residencial, o que beneficia também as distribuidoras.
Estímulo à formalização do CadÚnico
A exigência de cadastro atualizado no CadÚnico pode incentivar mais famílias a se inscreverem e manterem suas informações corretas, facilitando o acesso a outros benefícios sociais.
Geração de emprego e renda
Com mais renda disponível, essas famílias podem consumir mais em outros setores, o que impulsiona o comércio local, reduz a pobreza e aquece a economia.
Sustentabilidade ambiental
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A medida poderá incluir incentivos ao uso consciente da energia, evitando desperdícios e promovendo campanhas de educação energética junto à população beneficiada.
Quando a proposta será votada?
O projeto de lei que institucionaliza a tarifa gratuita de energia está em fase final de elaboração e deve ser enviado ao Congresso Nacional ainda em junho. A proposta terá caráter de urgência constitucional, o que garante prioridade na tramitação nas duas casas legislativas.
A expectativa do governo é que a medida seja aprovada ainda em 2025, com início da implementação em etapas a partir do primeiro trimestre de 2026.
O que dizem os especialistas?
Especialistas do setor elétrico, economistas e representantes de entidades sociais têm se manifestado de forma positiva, mas com ressalvas. Para o professor Sérgio Medeiros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “a tarifa gratuita é uma ação necessária do ponto de vista social, mas precisa ser bem calibrada para não onerar demais o sistema elétrico”.
Já a Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee) defende que o programa deve vir acompanhado de compensações adequadas para evitar desequilíbrios financeiros às concessionárias.
Organizações da sociedade civil, como o Instituto Pólis e o Instituto Clima e Sociedade, elogiam a iniciativa e pedem que ela seja acompanhada de ações educativas e maior transparência sobre o uso de recursos públicos.
O que o consumidor deve fazer para receber o benefício?
Para garantir o acesso à tarifa gratuita, as famílias devem:
- Estar inscritas no CadÚnico com dados atualizados (renda, número de membros, endereço, etc.);
- Atender aos critérios de renda e perfil social estabelecidos pelo programa;
- Acompanhar a regulamentação oficial, que será divulgada pelos canais do governo;
- Evitar ultrapassar o limite de consumo mensal gratuito, fazendo uso consciente da energia.
A inscrição ou atualização no CadÚnico pode ser feita nos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) ou pelo aplicativo Meu CadÚnico.
Conclusão
A proposta do governo de zerar a conta de luz para milhões de brasileiros de baixa renda representa um passo importante rumo à inclusão social e energética. Além de aliviar o orçamento das famílias mais pobres, a medida pode impulsionar a economia local, reduzir a inadimplência e melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas.
No entanto, para que seja efetiva, a medida precisa ser bem estruturada, financiada de forma justa e acompanhada de campanhas educativas. A universalização do acesso à energia é, acima de tudo, uma questão de cidadania — e o Brasil pode estar dando um passo decisivo nessa direção.
