A 99Food reacendeu sua presença no mercado brasileiro com força total, ampliando operações em várias regiões do país desde junho deste ano. Após um hiato de pouco mais de um ano, a empresa tenta retomar espaço em um setor altamente competitivo, dominado por um único player: o iFood.
99Food reage à chegada da Keeta e acirra briga por entregadores e clientes
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No entanto, a reentrada da 99Food acontece em meio à chegada da Keeta, nova concorrente chinesa que promete investir pesado no Brasil. A disputa entre as duas plataformas já começou com processos judiciais, acusações de concorrência desleal e estratégias agressivas para conquistar restaurantes e consumidores.

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A volta da 99Food e o desafio de enfrentar gigantes
O retorno da 99Food foi estratégico. Depois de encerrar as operações em 2023, a plataforma decidiu relançar o serviço em Goiânia, expandindo rapidamente para São Paulo e Rio de Janeiro. O plano é consolidar presença nacional até o fim de 2025.
Com um setor de delivery que movimenta bilhões de reais por ano, o mercado brasileiro se tornou o principal campo de batalha entre as plataformas de entrega. Para competir, a 99Food firmou parcerias com centenas de restaurantes, oferecendo taxas menores e campanhas promocionais para atrair usuários.
Mas a reestreia não ocorreu sem polêmicas. A empresa foi acusada de tentar barrar a entrada da Keeta no país ao incluir cláusulas de exclusividade em contratos com restaurantes, o que levantou suspeitas de práticas anticompetitivas.
Keeta processa a 99Food e acusa concorrência desleal
A chinesa Keeta, controlada pela gigante tecnológica Meituan, entrou com um processo contra a 99Food em agosto deste ano. Segundo a ação, a rival teria firmado contratos de semi exclusividade com os cem maiores grupos de restaurantes do país, oferecendo valores que ultrapassam R$ 900 milhões.
Esses contratos, segundo a denúncia, incluíam uma cláusula que proibia os estabelecimentos de firmar parcerias com a Keeta e a Rappi, mas não mencionavam restrições ao iFood. Para a Keeta, essa prática teria como único objetivo impedir sua entrada no mercado brasileiro.
Em resposta, a 99Food negou qualquer irregularidade. O diretor sênior de comunicação da empresa, Bruno Rossini, afirmou que menos de 1% dos restaurantes brasileiros têm acordos de exclusividade parcial e que o valor investido é muito inferior ao alegado pela concorrente.
Rossini destacou ainda que a estratégia visa “romper a inércia de um setor há muito dominado por um único incumbente”. Ele defende que os acordos buscam apenas proteger os investimentos necessários para competir em condições justas.
Decisão judicial e impacto no setor de delivery
O caso foi analisado pela 3ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Em decisão publicada em 20 de outubro, o juiz Fábio Henrique Prado de Toledo considerou as cláusulas de exclusividade ilícitas e determinou sua remoção dos contratos da 99Food.
Para o magistrado, não havia justificativa legítima para mencionar a Keeta nos contratos, o que caracterizaria uma tentativa de exclusão direta da concorrente. A decisão foi comemorada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que classificou a prática como uma “restrição pura à concorrência”.
A Abrasel afirmou que a sentença “garante mais opções para restaurantes e consumidores” e reforça os princípios constitucionais da livre concorrência e da isonomia.
Apesar da decisão, a 99Food informou que recorrerá da medida e continuará defendendo seus contratos de semi exclusividade, argumentando que o modelo é uma ferramenta de expansão e proteção de investimentos.
O que dizem 99Food e Keeta
A 99Food afirma que seus acordos são legítimos e transparentes, permitindo que os restaurantes escolham livremente o formato de parceria mais vantajoso. Segundo a empresa, os contratos evoluíram ao longo dos meses com base no feedback dos parceiros e já não mencionam nenhuma concorrente específica.
A empresa declarou ainda que o objetivo é “ampliar o mercado de delivery de comida, gerar demanda e rentabilidade para restaurantes e entregadores e oferecer conveniência com preços justos aos consumidores”.
Já a Keeta, em sua estreia no Brasil, promete investir cerca de R$ 5,6 bilhões nos próximos cinco anos, com previsão de criar mais de 100 mil empregos indiretos e cerca de quatro mil diretos. A companhia iniciou as operações em Santos (SP) no dia 30 de outubro, com planos de expansão para as capitais até 2026.
O contexto da disputa: um mercado bilionário
O setor de delivery brasileiro cresceu de forma exponencial após a pandemia, consolidando o iFood como líder com mais de 80% de participação, segundo dados da Abrasel. Essa concentração de mercado fez com que novas empresas vissem no Brasil uma oportunidade para quebrar o monopólio e diversificar a oferta.
Tanto a 99Food quanto a Keeta apostam em estratégias agressivas para conquistar espaço. A primeira utiliza a estrutura e o conhecimento da empresa-mãe 99 (subsidiária da chinesa Didi Chuxing), enquanto a segunda conta com o poder de investimento da Meituan, maior empresa de entregas da China.
A disputa promete aquecer o mercado, beneficiando principalmente restaurantes e consumidores, que podem ter mais opções e preços competitivos.
Entregadores: o elo mais disputado
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Além da corrida por restaurantes e clientes, a disputa entre 99Food e Keeta também envolve os entregadores, peça fundamental para o sucesso das plataformas. A 99Food oferece bonificações e campanhas de fidelização, enquanto a Keeta promete repassar comissões maiores e programas de capacitação.
Especialistas apontam que o novo cenário pode gerar melhores condições de trabalho e aumento na renda média dos entregadores, já que a concorrência força as empresas a oferecer incentivos para manter suas bases ativas.
No entanto, há também o risco de precarização temporária, caso as plataformas optem por subsídios excessivos para atrair mão de obra no curto prazo. O equilíbrio entre lucro e sustentabilidade será essencial para evitar distorções.
Estratégias e investimentos futuros
A 99Food pretende ampliar suas operações para o Nordeste e Sul do país até o início de 2026, investindo em novas tecnologias de roteirização e pagamento instantâneo para entregadores. A empresa também aposta em inteligência artificial para personalizar recomendações e otimizar prazos de entrega.
A Keeta, por sua vez, anunciou um plano de investimento robusto, incluindo centros de treinamento, programas de fidelidade e campanhas de incentivo para pequenos comerciantes. A meta é conquistar 20% do mercado nacional de delivery até 2027.
O Brasil é visto pela Meituan como um dos países mais promissores fora da Ásia, graças ao alto consumo de delivery e à digitalização crescente do setor de alimentação.
A reação do iFood e os desafios regulatórios
Embora ainda não envolvido diretamente no embate judicial, o iFood acompanha de perto o avanço das rivais. A empresa mantém contratos de exclusividade com grandes redes e continua líder isolada, mas pode enfrentar pressões regulatórias e novas investigações caso as concorrentes consigam provar práticas anticompetitivas no setor.
A entrada da Keeta e o fortalecimento da 99Food podem abrir espaço para uma revisão das regras de mercado, exigindo mais transparência e igualdade de condições entre as plataformas. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também deve ser acionado caso as disputas avancem.

A batalha entre 99Food e Keeta marca o início de uma nova fase no setor de delivery brasileiro. Mais do que uma disputa por mercado, trata-se de um confronto de modelos de negócio e de estratégias de expansão global.
Enquanto a 99Food busca consolidar seu retorno e romper o domínio do iFood, a Keeta aposta em investimento maciço e inovação para conquistar a confiança de restaurantes e consumidores. O resultado desse embate deve moldar o futuro das entregas no país, com impactos diretos na economia e no dia a dia de milhões de brasileiros.
O que parece certo é que o consumidor sairá beneficiado. Com mais concorrência, inovação e transparência, o mercado de delivery tende a se tornar mais acessível, justo e dinâmico nos próximos anos.
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