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OpenAI diz que IA solucionou um dos 7 Problemas do Milênio da matemática

A inteligência artificial acaba de entrar em um dos territórios mais difíceis da matemática. A OpenAI afirmou nesta terça-feira (8) que um de seus sistemas internos encontrou uma solução para o problema de existência e suavidade de Navier-Stokes, uma questão que permanece sem resposta há cerca de 90 anos e integra os sete Problemas do […]

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 11 min de leitura
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A inteligência artificial acaba de entrar em um dos territórios mais difíceis da matemática. A OpenAI afirmou nesta terça-feira (8) que um de seus sistemas internos encontrou uma solução para o problema de existência e suavidade de Navier-Stokes, uma questão que permanece sem resposta há cerca de 90 anos e integra os sete Problemas do Milênio.

Segundo a empresa, cerca de 10 mil agentes de IA trabalharam simultaneamente na investigação. O sistema chegou à solução em aproximadamente 88 horas, enquanto a formalização e a verificação em Lean levaram outras 17 horas.

O anúncio, porém, precisa ser tratado com cautela. A própria OpenAI diz que não pretende reivindicar o prêmio de US$ 1 milhão. Além disso, uma solução proposta ainda precisa ser examinada pela comunidade matemática e cumprir as regras do Clay Mathematics Institute, responsável pelos Problemas do Milênio.

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O que a inteligência artificial afirma ter descoberto?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O problema de Navier-Stokes envolve equações utilizadas para descrever o movimento de fluidos, como água e ar. Elas são importantes em áreas que vão da engenharia aeronáutica à previsão do tempo e ao estudo do fluxo sanguíneo.

A questão matemática é mais específica: pesquisadores querem saber se, partindo de condições inicialmente suaves, as soluções tridimensionais das equações podem permanecer sempre regulares ou se podem desenvolver uma singularidade em um intervalo finito de tempo.

A OpenAI afirma ter demonstrado justamente a segunda possibilidade.

De acordo com a empresa, o sistema encontrou uma configuração em que um fluido inicialmente em repouso desenvolve uma singularidade em tempo finito. A solução envolve um vórtice que se contrai e se alonga, enquanto a velocidade aumenta sem limite.

Se a demonstração estiver correta e for aceita pela comunidade matemática, isso responderá uma das questões fundamentais do Problema do Milênio.

O que são as equações de Navier-Stokes?

As equações de Navier-Stokes são modelos matemáticos usados para representar o comportamento de fluidos.

Em termos simples, elas tentam descrever como fatores como velocidade, pressão e viscosidade interagem quando um fluido se movimenta. O mesmo conjunto de equações pode ser usado para estudar fenômenos bastante diferentes, como o deslocamento do ar ao redor de um avião ou o movimento da água.

O problema não está em utilizar as equações em situações específicas. Cientistas fazem isso há muito tempo.

A dificuldade está em provar matematicamente se determinadas soluções tridimensionais permanecem regulares para sempre ou podem apresentar um comportamento extremo conhecido como singularidade. O Clay Mathematics Institute descreve essa questão como uma das grandes perguntas ainda abertas sobre as equações.

O que significa uma singularidade?

A palavra pode parecer complicada, mas a ideia central é relativamente simples.

Imagine que uma equação esteja descrevendo a velocidade de um fluido. Enquanto todos os valores permanecem finitos e bem comportados, a solução é considerada regular.

Uma singularidade ocorre quando determinadas grandezas deixam de permanecer limitadas. No resultado apresentado pela OpenAI, a velocidade do fluido cresce sem limite em um tempo finito.

Isso não significa que um copo de água possa simplesmente explodir na cozinha.

O resultado é matemático. Ele indica um possível limite do modelo utilizado para descrever o comportamento de um fluido. A interpretação física de uma singularidade desse tipo é muito mais complexa e não significa que as leis da natureza literalmente deixariam de funcionar.

A água pode explodir por causa dessa descoberta?

Não.

Essa é uma das interpretações mais fáceis de surgir a partir da descrição da singularidade, mas ela não corresponde ao significado prático do resultado.

A matemática está descrevendo uma situação idealizada na qual uma solução das equações deixa de permanecer regular. Um fluido real é composto por moléculas e possui propriedades físicas que não são representadas integralmente por uma descrição contínua desse tipo.

A própria discussão em torno do anúncio diferencia o colapso matemático das equações de uma explosão física de água ou de outro líquido.

Como a IA conseguiu chegar à solução?

A escala do experimento é uma das partes mais impressionantes do anúncio.

A OpenAI utilizou um sistema formado por agentes de inteligência artificial capazes de trabalhar em grupos e compartilhar informações. Cerca de 10 mil agentes participaram do esforço relacionado a Navier-Stokes.

Os grupos receberam diferentes versões do problema e foram incentivados a explorar estratégias distintas. Conforme algumas abordagens apresentavam resultados mais promissores, essas informações eram utilizadas para orientar novas rodadas de investigação.

A OpenAI afirma que os agentes produziram aproximadamente 2,7 milhões de mensagens durante o trabalho específico com Navier-Stokes e utilizaram cerca de 130 bilhões de tokens de saída.

O sistema chegou ao resultado em 5 de setembro, aproximadamente 88 horas depois do início do esforço dedicado ao problema.

O que é Lean e por que ele foi usado?

Encontrar uma resposta não é suficiente em matemática. É preciso demonstrar que ela está correta.

Para aumentar a possibilidade de verificação, a OpenAI também apresentou uma formalização da prova em Lean.

Lean é uma linguagem e um sistema utilizado para representar argumentos matemáticos de forma que suas etapas possam ser verificadas computacionalmente.

A ferramenta não substitui a análise dos matemáticos, mas permite uma conferência formal de partes importantes da demonstração. A OpenAI disponibilizou tanto o texto da prova quanto sua versão formalizada.

Esse detalhe é especialmente relevante porque uma demonstração matemática pode parecer convincente e ainda conter uma falha. A formalização reduz esse risco ao permitir que o computador verifique se os passos apresentados obedecem às regras matemáticas codificadas.

A solução já foi oficialmente reconhecida?

Ainda não.

Essa é provavelmente a principal ressalva do anúncio.

O Clay Mathematics Institute estabelece regras específicas para reconhecer uma solução de um Problema do Milênio. A proposta precisa ser publicada em um veículo considerado qualificado, permanecer publicada por pelo menos dois anos e obter aceitação geral da comunidade matemática.

Portanto, não é correto dizer que a OpenAI já recebeu US$ 1 milhão ou que o Problema de Navier-Stokes foi oficialmente retirado da lista de problemas não resolvidos.

A formulação mais precisa neste momento é: a OpenAI afirma ter encontrado uma solução para o problema de Navier-Stokes e publicou uma demonstração para análise da comunidade científica.

A própria empresa afirma que não pretende reivindicar o prêmio do Clay Mathematics Institute.

Por que esse problema é tão difícil?

As equações de Navier-Stokes existem desde o século 19. Apesar de serem utilizadas há décadas, ainda existem perguntas fundamentais sobre seu comportamento matemático.

O desafio não consiste em resolver uma situação específica.

É necessário estabelecer uma propriedade geral das soluções tridimensionais das equações. Isso exige uma demonstração capaz de funcionar para uma classe extremamente ampla de condições.

Foi justamente essa dificuldade que levou o Clay Mathematics Institute a incluir Navier-Stokes entre os sete Problemas do Milênio em 2000.

Quais são os sete Problemas do Milênio?

O Clay Mathematics Institute criou sete problemas considerados alguns dos maiores desafios matemáticos da atualidade. O fundo destinado às soluções é de US$ 7 milhões, com US$ 1 milhão para cada problema.

Eles são:

  • Hipótese de Riemann;
  • Conjectura de Hodge;
  • Conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer;
  • Problema de Navier-Stokes;
  • P versus NP;
  • Teoria de Yang-Mills e a hipótese da lacuna de massa;
  • Conjectura de Poincaré.

Até agora, a Conjectura de Poincaré é a única que aparece oficialmente como resolvida na relação do instituto.

Por isso, se a demonstração da OpenAI for validada, Navier-Stokes poderá se tornar o segundo Problema do Milênio oficialmente solucionado.

O que os matemáticos estão dizendo sobre a descoberta?

A reação da comunidade matemática não é simplesmente de comemoração.

A possibilidade de uma inteligência artificial produzir uma solução para um problema desse nível é vista como um avanço significativo, mas pesquisadores também questionam o que esse tipo de descoberta representa para a própria matemática.

Um dos nomes envolvidos nessa discussão é Terence Tao, matemático da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Ele argumenta que o processo humano de tentar resolver problemas difíceis também produz conhecimento e compreensão, mesmo quando a tentativa não chega à solução.

Com sistemas capazes de encontrar respostas em poucas horas, surge uma questão inédita: se a máquina encontra o caminho mais rapidamente, os matemáticos deixam de percorrer caminhos que poderiam gerar novas ideias?

Essa discussão vai além de Navier-Stokes e pode influenciar a maneira como pesquisas matemáticas serão conduzidas nos próximos anos.

Houve questionamentos sobre o trabalho de outros pesquisadores?

Sim.

Antes do anúncio, pesquisadores ligados à Universidade de Nova York e à Anthropic trabalhavam em uma questão relacionada ao comportamento de equações de fluidos. A OpenAI afirma que tomou conhecimento de uma linha de pesquisa semelhante durante o período em que iniciou sua investigação.

A empresa afirma que seus pesquisadores e agentes não tiveram acesso ao trabalho privado desses pesquisadores antes da publicação.

O episódio, no entanto, abriu uma discussão sobre prioridade científica, autoria e sobre como sistemas de inteligência artificial podem chegar a resultados semelhantes aos de pesquisadores que trabalham independentemente.

A questão é especialmente relevante porque a pesquisa científica depende não apenas de chegar a uma resposta, mas também de reconhecer quem desenvolveu determinada ideia e quando isso aconteceu.

O que acontece agora?

Agora começa a etapa mais importante: a verificação independente.

Matemáticos precisarão analisar a demonstração, verificar seus argumentos e determinar se ela realmente responde à formulação oficial do Problema do Milênio.

A formalização em Lean pode facilitar parte dessa tarefa, mas não elimina a necessidade de avaliação humana. A comunidade também precisará analisar se a demonstração apresentada corresponde exatamente ao problema proposto pelo Clay Mathematics Institute.

Depois, caso o trabalho seja publicado em um veículo qualificado, ainda será necessário cumprir o período mínimo de dois anos previsto nas regras do prêmio.

Ou seja: a resposta definitiva não virá apenas do anúncio da OpenAI.

O que a descoberta pode mudar na inteligência artificial?

O caso representa uma mudança importante na discussão sobre o potencial científico da inteligência artificial.

Até pouco tempo, sistemas de IA eram avaliados principalmente por sua capacidade de escrever textos, gerar imagens, programar ou resolver problemas matemáticos relativamente delimitados.

Agora, a possibilidade de um sistema participar de uma investigação que envolve um dos grandes problemas abertos da matemática eleva significativamente o nível da discussão.

A OpenAI afirma que seu sistema foi capaz de coordenar milhares de agentes, comparar diferentes estratégias, reutilizar descobertas intermediárias e construir uma demonstração formal.

Se resultados semelhantes forem reproduzidos de forma independente, a IA poderá se tornar uma ferramenta cada vez mais importante para pesquisadores que trabalham na fronteira da ciência.

Mas existe uma diferença fundamental entre encontrar uma prova e entender profundamente por que aquela prova funciona.

É justamente essa diferença que deverá alimentar parte do debate científico daqui para frente.

Então a IA resolveu um Problema do Milênio?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A OpenAI afirma que sim, mas a matemática ainda precisa confirmar.

O sistema apresentou uma demonstração para o problema de existência e suavidade de Navier-Stokes, acompanhada de uma formalização em Lean. O resultado descreve uma situação em que uma solução inicialmente regular desenvolve uma singularidade em tempo finito.

No entanto, o Clay Mathematics Institute possui critérios específicos para reconhecer oficialmente uma solução. Eles incluem publicação, dois anos de análise e aceitação geral da comunidade matemática.

Por enquanto, portanto, o episódio deve ser visto como uma das demonstrações mais ambiciosas já produzidas por um sistema de inteligência artificial, e não como um prêmio matemático oficialmente conquistado.

Se a prova resistir à análise dos especialistas, o significado será histórico: uma máquina terá contribuído para solucionar um problema que desafiou matemáticos durante aproximadamente nove décadas.

Conclusão

A possível solução de Navier-Stokes coloca a inteligência artificial diante de um dos maiores desafios da matemática. A demonstração ainda precisa passar pelo rigor da avaliação de especialistas, mas, se for confirmada, poderá representar um marco histórico para a ciência e para o desenvolvimento da IA.

Por enquanto, o mais correto é tratar o resultado como uma solução proposta pela OpenAI. A confirmação oficial dependerá da análise independente da comunidade matemática e do cumprimento das regras do Clay Mathematics Institute.

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