O Brasil deve dar um novo passo na modernização do setor elétrico em 2025. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, confirmou nesta terça-feira (14) que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende realizar ainda este ano o primeiro leilão de reserva de capacidade exclusivamente para baterias de energia. A proposta visa “armazenar o vento” e ampliar a eficiência do uso de fontes renováveis, como a solar e a eólica.
Dilma tinha razão: o Brasil finalmente começa a armazenar a energia do vento
Brasil lançará leilão de baterias em 2025 para “armazenar o vento” e equilibrar a energia renovável no país, afirma ministro Alexandre Silveira.
A declaração foi dada durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, produzido pela EBC, em um momento em que o país lida com os efeitos colaterais do excesso de energia limpa e o crescimento acelerado de fontes intermitentes.
Leia mais:
Previsão do tempo em Fortaleza: sexta promete 31°C, umidade alta e mudanças no vento

O que significa “armazenar o vento”?
A expressão, que viralizou em 2015 após a então presidente Dilma Rousseff falar em “estocar vento”, ganhou novo significado dez anos depois. O que antes foi motivo de piada nas redes sociais, hoje é uma realidade tecnológica em desenvolvimento em diversos países.
Segundo Silveira, a ideia é “literalmente armazenar o vento”, ou seja, captar a energia gerada pelas turbinas eólicas e pelos painéis solares nos horários de pico e armazená-la em baterias de grande escala. Esse sistema permitiria liberar eletricidade durante a noite ou em momentos de maior demanda, quando o sol não está mais brilhando ou o vento não sopra com intensidade suficiente.
“O sol que se põe por volta das 18h30 terá sua energia estendida. Vamos estender a vida útil da energia produzida pelos nossos cataventos”, declarou o ministro.
Como funcionará o leilão de reserva de capacidade com baterias?
Objetivo do leilão
O leilão de reserva de capacidade anunciado pelo Ministério de Minas e Energia tem como finalidade contratar empresas para instalar, operar e manter sistemas de armazenamento de energia elétrica em larga escala. Esses sistemas deverão estar disponíveis para o despacho pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) nos momentos em que o Sistema Interligado Nacional (SIN) estiver sob pressão ou desequilíbrio.
O que será contratado
- Sistemas de baterias estacionárias de grande capacidade
- Equipamentos integrados às redes de transmissão ou distribuição
- Soluções que operem de forma automatizada conforme sinal do ONS
- Compromissos de operação por períodos críticos de demanda energética
Modelo do certame
O leilão seguirá um modelo semelhante aos demais leilões de capacidade já realizados no Brasil, mas com foco exclusivo em tecnologias de armazenamento, abrindo espaço para a entrada de soluções como:
- Baterias de íon-lítio
- Sistemas de fluxo redox
- Supercapacitores
- Hidrogênio verde (em menor escala)
A proposta é garantir segurança energética e maior eficiência no uso das fontes renováveis, especialmente diante da crescente presença de usinas solares e eólicas no parque gerador brasileiro.
Por que armazenar energia é importante para o Brasil?
Excesso de energia renovável
Nos últimos anos, o Brasil tem registrado um cenário de excesso de geração de energia limpa, especialmente em dias de sol intenso, ventos fortes ou chuvas volumosas. Embora esse fenômeno seja positivo sob a ótica ambiental, ele representa um desafio técnico para a operação do sistema elétrico.
Quando a produção supera o consumo e a capacidade da rede, o excesso precisa ser desligado, desperdiçado ou comercializado com preço negativo no mercado.
Intermitência das fontes
Tanto a energia solar quanto a eólica são intermitentes, ou seja, sua produção varia ao longo do dia e depende de fatores climáticos. Isso torna o sistema mais vulnerável a oscilações, principalmente nos horários de pico de consumo noturno, quando essas fontes não estão disponíveis.
Riscos de apagões
O ministro Alexandre Silveira alertou que, embora o Brasil ainda não tenha enfrentado grandes apagões por conta da intermitência, países como Portugal e Espanha já registraram falhas prolongadas por dependerem excessivamente de renováveis sem soluções de armazenamento.
“O armazenamento é um problema no mundo inteiro. Mas aqui no Brasil temos planejamento e um parque energético robusto para evitar esses riscos”, afirmou.
A fala de Dilma e o reconhecimento da tecnologia

A proposta do leilão é também uma espécie de resgate histórico da fala de Dilma Rousseff, que em 2015 declarou que era preciso desenvolver formas de “estocar vento”. Na época, a declaração foi duramente criticada e amplamente ridicularizada.
No entanto, em julho deste ano, Dilma, agora presidente do Banco dos BRICS, voltou ao tema e afirmou que muitos interpretaram mal a fala:
“Muitos acharam que era ignorância, mas hoje se sabe que armazenar vento e sol é uma das áreas mais estratégicas do setor de energia”, disse.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Com a evolução tecnológica, países como Estados Unidos, China, Austrália e Alemanha já adotaram sistemas de armazenamento em larga escala. O Brasil, agora, começa a seguir esse mesmo caminho.
Benefícios esperados com o leilão
1. Redução do desperdício de energia limpa
Com a instalação de baterias, será possível evitar o corte de produção solar ou eólica em momentos de excesso, armazenando a eletricidade para uso posterior.
2. Estabilização do sistema elétrico
Os sistemas de armazenamento funcionarão como reservas rápidas, capazes de compensar variações súbitas no fornecimento e manter o equilíbrio do SIN.
3. Fomento à inovação e à indústria nacional
O leilão pode atrair fabricantes de baterias e desenvolvedores de tecnologias para o Brasil, promovendo inovação local e geração de empregos.
4. Prevenção contra crises energéticas
O armazenamento é uma das principais ferramentas para evitar apagões e garantir que o país consiga lidar com oscilações climáticas sem comprometer o fornecimento.
O papel do ONS e do planejamento energético

O Operador Nacional do Sistema Elétrico terá papel central na coordenação do uso dessas baterias. Caberá ao ONS:
- Determinar o momento certo para carregar e descarregar as baterias
- Integrar os sistemas ao despacho centralizado do SIN
- Garantir a eficiência da operação em situações críticas
O Brasil já possui tradição em planejamento energético de longo prazo, o que pode ser uma vantagem competitiva frente a outros países que enfrentam problemas semelhantes, mas com menos capacidade técnica para antever os riscos.
Imagem: Reprodução / DCM
