Romeu Zema (Novo) disse no último domingo (3/5) que “marmanjões” preferem ficar em casa recebendo Bolsa Família a aceitar vagas com carteira assinada disponíveis no mercado. O pré-candidato à presidência afirmou que o Brasil está criando uma “geração de imprestáveis” e prometeu rever o programa caso eleito.
“Marmanjão”: os dados mostram que onde o Bolsa Família é alto, as vagas simplesmente não existem
Zema disse que "marmanjões" preferem o Bolsa Família a trabalhar. Os dados do mercado formal brasileiro mostram o contrário: onde o BF é alto, a formalização é 4x menor e o saldo de empregos é 10x menor. Não é escolha — é estrutura.
Os dados do mercado formal brasileiro contam uma história diferente.
O Score de Cidades cruzou os microdados do Bolsa Família (CGU, jan/2026) com os registros de emprego formal (RAIS 2023) e o saldo de contratações (CAGED, abr/2025–mar/2026) para 4.234 municípios com mais de 5 mil habitantes. O resultado não deixa margem para interpretação:
Nas cidades onde o Bolsa Família é alto, o mercado formal é 4 vezes menor — e quase não cria vagas.
O dado que responde Zema
Dividimos todos os municípios em quatro grupos pelo percentual da população no Bolsa Família:
| Grupo | % pop no BF | Formalização | Salário médio | Saldo emprego/cidade |
|---|---|---|---|---|
| BF baixo (< 5%) | 3,4% | 35,7% | R$ 2.853 | +519 |
| BF médio-baixo (5–10%) | 7,6% | 20,9% | R$ 2.592 | +426 |
| BF médio-alto (10–18%) | 15,0% | 13,3% | R$ 2.285 | +250 |
| BF alto (> 18%) | 22,2% | 8,5% | R$ 2.267 | +50 |
Nas cidades com BF abaixo de 5%, a formalização média é de 35,7% e o saldo de empregos é de +519 postos por cidade por ano. Nas cidades com BF acima de 20%, a formalização cai para 8,5% e o saldo de empregos despenca para +50.
Para cada vaga criada numa cidade de BF alto, são criadas 10 vagas numa cidade de BF baixo.
Isso não é coincidência. É estrutura econômica.
O programa foi desenhado para estimular o trabalho — não punir quem aceita
Há um detalhe na arquitetura do Bolsa Família que a declaração de Zema ignora completamente: a Regra de Proteção.
Pela Lei 14.601/2023, a família que sai da pobreza pelo trabalho formal não perde o benefício imediatamente. Pelo contrário — mantém 50% do BF por até 24 meses enquanto a renda per capita ficar abaixo de R$ 810,50 (meio salário mínimo de R$ 1.621 em 2026).
Na prática: o “marmanjão” que aceita um emprego com carteira assinada ganha o salário e ainda mantém metade do BF por dois anos. O programa foi desenhado exatamente para reduzir o risco de quem decide entrar no mercado formal — não para criar dependência.
Se o desincentivo ao trabalho fosse o problema central, a Regra de Proteção deveria reduzir esse efeito. O que os dados mostram é que o problema é anterior: nas cidades com BF alto, o empregador simplesmente não está lá para oferecer a vaga.
O ciclo que os dados revelam
O Score de Cidades calcula o Índice de Dependência Federal (IDF) de cada município:
IDF=Massa Salarial Mensal (RAIS)∑(Bolsa Famıˊlia+BPC)
Nas cidades com IDF alto — onde as transferências superam a folha privada formal — há um ciclo econômico que a narrativa do “marmanjão” ignora: o BF e o BPC sustentam o comércio local, que por sua vez sustenta os poucos empregos formais que existem. Cortar o programa sem criar emprego primeiro não libera “marmanjões” para o mercado — colapsa o único motor econômico que existe nessas cidades.
“Há vagas com carteira assinada disponíveis”
Essa é a afirmação central de Zema — e a mais fácil de verificar com dados.
Existem sim cidades com BF alto e saldo de emprego positivo. Identificamos 304 municípios com mais de 10 mil habitantes onde o BF supera 15% da população e o CAGED registrou saldo positivo no último ano. Caucaia (CE), Goiana (PE), Delmiro Gouveia (AL) são exemplos.
Nesses municípios, Zema teria um ponto parcial — há criação de vagas formais convivendo com BF alto.
Mas há outros 278 municípios onde o BF supera 15% e o mercado de trabalho está em queda — saldo negativo no CAGED. Açu (RN), Tabatinga (AM), Itinga (MG), Nossa Senhora das Dores (SE). Aqui, mesmo que alguém quisesse trabalhar, o mercado não tem vaga para oferecer.
E há ainda um terceiro grupo — o maior de todos — onde o BF é alto porque o mercado formal sempre foi pequeno demais para absorver a população. Não há queda porque nunca houve crescimento suficiente.
A pergunta certa não é “por que o marmanjão não trabalha?” — é “onde estão essas vagas que Zema menciona?”.
Minas Gerais — o próprio estado de Zema
O dado mais revelador vem do estado que Zema governou por quatro anos.
Em Minas Gerais, as 73 cidades com BF acima de 15% têm saldo médio de empregos de -7 postos por cidade no último ano. As 121 cidades mineiras com BF abaixo de 5% têm saldo médio de +356 postos.
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Nos municípios mineiros com mais BF — exatamente onde Zema diz que os “marmanjões” estão acomodados — o mercado de trabalho está encolhendo, não crescendo. Se há “marmanjão”, o problema não é a falta de disposição: é a falta de empregador.
O problema mineiro não é a “falta de vontade” — é a desigualdade regional na atração de investimentos. Enquanto o Triângulo Mineiro e a RMBH concentram indústria, serviços e empregos formais, o Vale do Jequitinhonha, o norte de Minas e o Vale do Mucuri acumulam os maiores IDFs do estado. São regiões onde Zema governou por quatro anos sem reverter essa assimetria.
O que os dados não conseguem dizer
Antes de concluir, é preciso ser honesto sobre os limites desta análise.
A correlação entre BF alto e emprego baixo é clara e robusta nos dados. Mas correlação não é causalidade — e há duas leituras possíveis:
Leitura 1 (estrutural): O BF é alto porque o mercado nunca chegou. A pobreza é anterior ao programa — não causada por ele. Os dados apoiam fortemente essa leitura, especialmente quando olhamos a série histórica: o BF chegou em regiões que já eram pobres antes de 2003.
Leitura 2 (comportamental — a tese de Zema): O BF desestimulou a busca por emprego, criando uma armadilha de dependência. Os dados não conseguem descartar completamente essa hipótese para casos individuais — mas não há evidência agregada de que municípios com BF alto teriam mais vagas disponíveis e rejeitadas.
O que os dados descartam com clareza é a premissa de que “há vagas disponíveis” generalizadamente nas cidades com alto BF. No agregado, é o oposto: menos vagas, menor formalização, menor salário.
O que a evidência internacional diz
A hipótese do “desincentivo ao trabalho” por transferências de renda é amplamente estudada na literatura econômica. A conclusão majoritária — inclusive em estudos do próprio Banco Mundial e do FMI — é que transferências condicionadas de renda como o Bolsa Família têm efeito neutro ou positivo sobre a oferta de trabalho dos adultos, especialmente quando combinadas com acesso a educação e saúde.
O efeito negativo existe, mas é pequeno e concentrado em situações específicas — principalmente mulheres em áreas urbanas com mercado de trabalho formal acessível. Não é o perfil dominante dos beneficiários do BF brasileiro.
Metodologia
Bolsa Família: microdados CGU, janeiro de 2026. Formalização e salário: RAIS 2023 (Ministério do Trabalho, via Base dos Dados). Saldo de empregos: CAGED, abril de 2025 a março de 2026, todos os CBOs. Municípios com menos de 5.000 habitantes excluídos. Análise por quartil de % da população no BF. A RAIS não inclui informais, autônomos e servidores federais/estaduais — a formalização real é maior que a registrada.
Análise: Score de Cidades — inteligência de dados municipais.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
Informacoes Atualizadas 2026:

