O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi alvo de fortes críticas de economistas e analistas do mercado financeiro após sua participação no BTG Pactual MacroDay, realizado nesta segunda-feira (22) em São Paulo.
Economistas dizem que Haddad culpa Temer e Bolsonaro, mas não apresenta medidas concretas
Economistas criticaram o ministro Fernando Haddad no BTG Pactual MacroDay. Para analistas, governo Lula foca em arrecadação e ignora cortes de gastos.
A fala de Haddad durou menos de 15 minutos e se concentrou em uma apresentação de slides na qual o ministro atribuiu parte do desequilíbrio fiscal a decisões dos governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL).
A postura gerou reação imediata entre especialistas, que consideraram a apresentação “pouco propositiva” e voltada mais para justificar os problemas atuais do que para apontar soluções estruturais.
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Foco em governos anteriores
Segundo economistas presentes, Haddad utilizou sua breve participação para “culpar” decisões passadas pela deterioração das contas públicas.
Entre os pontos citados estiveram o aumento de despesas com o Fundeb e o BPC, o adiamento de pagamentos de precatórios e os repasses bilionários a governadores devido às mudanças no ICMS.
A avaliação dos analistas é de que o ministro deixou de lado propostas concretas de contenção de gastos e reforçou apenas o discurso de aumento de arrecadação.
Memes e ironias
Nas redes sociais, investidores ironizaram o tom da apresentação. Uma publicação no X (antigo Twitter) resumiu a percepção do mercado: “A culpa é minha e coloco em quem eu quiser”.
O economista Luiz Gustavo Medina destacou que Haddad insistiu em criticar Michel Temer, cujo governo terminou há quase sete anos. “Aí é dureza”, afirmou.
O pano de fundo fiscal: da PEC da transição ao marco fiscal
PEC da transição
Após a eleição de 2022, o governo eleito defendeu a aprovação da PEC 126, que liberou cerca de R$ 170 bilhões fora do teto de gastos em 2023.
Economistas concordam que havia necessidade de recomposição orçamentária, estimada em R$ 60 bilhões a R$ 70 bilhões, mas consideraram o valor aprovado excessivo, gerando um espaço fiscal artificialmente elevado.
Marco fiscal expansionista
O novo arcabouço fiscal, implementado em 2023, foi estruturado sobre esse patamar elevado de despesas. Para analistas, o modelo exige receitas extraordinárias anuais para se sustentar, tornando o sistema pouco crível.
O economista Gabriel Leal de Barros, ex-IFI do Senado e atual chefe da ARX Investimentos, avaliou que o PIB está “anabolizado” por essa política expansionista. Segundo ele, o crescimento atual não é orgânico, mas estimulado pelo gasto público.
Consequências: juros altos e déficit nominal
Selic elevada
O resultado dessa política fiscal expansionista é uma taxa básica de juros ainda alta. A Selic está em 15% ao ano, o maior nível desde 2006.
Isso aumenta o custo da dívida pública: apenas com juros, o gasto do governo disparou. No acumulado de 12 meses até julho, o déficit nominal atingiu R$ 968,5 bilhões.
Comparações com o passado
Para alguns analistas, a situação lembra os déficits dos governos de Dilma Rousseff (PT). Apesar do discurso de ajuste e responsabilidade fiscal, o resultado prático tem sido de endividamento crescente e dificuldade de equilibrar receitas e despesas.
O peso da política e das eleições de 2026
Visão de campanha
Para o economista Luís Otávio de Souza Leal, da G5 Partners, o governo já está em clima eleitoral. “A campanha de 2026 começou cedo”, afirmou. Segundo ele, Haddad insiste em responsabilizar governos anteriores, mas evita assumir medidas impopulares que poderiam afetar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Falta de ajuste estrutural
Já Daniel Xavier, economista-chefe do Banco ABC Brasil, destacou que o discurso do ministro não apresentou propostas para reduzir gastos de forma estrutural. “Faltou mostrar os próximos passos para equilibrar as contas públicas”, disse.
Medidas propostas por Haddad
Tributação e arrecadação
Entre os pontos levantados pelo ministro estão:
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- fim da isenção para títulos de LCI (Letra de Crédito Imobiliário);
- aumento da taxação de bets (apostas eletrônicas);
- maior controle sobre gastos tributários.
Essas propostas, no entanto, dependem de aprovação no Congresso Nacional, que, segundo economistas, já demonstra fadiga em aprovar novos impostos.
Tese do século
Haddad também mencionou o impacto da chamada tese do século, decisão do STF em 2021 que retirou o ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins. A medida gerou créditos tributários para empresas e aumentou a dívida pública em cerca de 10%, segundo o ministro.
A visão dos analistas
Falta de esforço político
Economistas afirmam que, além da ausência de propostas consistentes, falta esforço político de Lula para aprovar medidas de contenção de gastos. “Há uma dedicação muito maior para aumentar a arrecadação do que para cortar despesas”, resumem.
Carga tributária elevada
O problema, segundo o mercado, é que o Brasil já possui uma carga tributária alta. Novos aumentos de impostos geram desconforto e podem comprometer a competitividade da economia.
Política expansionista e riscos futuros

Sustentabilidade questionada
Para especialistas, a atual estratégia fiscal é insustentável no médio prazo. O excesso de gastos pressiona os juros, alimenta o déficit e limita a capacidade de investimento privado.
PIB “anabolizado”
O crescimento econômico recente, ainda que positivo, não seria sustentável. A alta do PIB é atribuída a estímulos artificiais, e não a um ambiente de negócios saudável. Isso pode gerar dificuldades após 2026, quando o ciclo eleitoral chegar ao auge.
Considerações finais
A participação de Fernando Haddad no BTG Pactual MacroDay escancarou o distanciamento entre a visão do governo e a percepção do mercado financeiro. Enquanto o ministro insiste em responsabilizar gestões anteriores e defender o aumento da arrecadação, analistas cobram medidas concretas de ajuste estrutural.
Com juros elevados, déficit nominal próximo de R$ 1 trilhão e eleições presidenciais no horizonte, o desafio do governo é combinar responsabilidade fiscal com viabilidade política. Até lá, a confiança do mercado seguirá oscilando entre expectativa e frustração.
