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Urgência para votar vale-refeição para entregadores é aprovada na Câmara

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 6 min de leitura
Imagem de um homem e uma mulher realizando uma compra de mercado com um cartão. Ao lado, o texto "vale refeição"

A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (10), por 300 votos favoráveis e 99 contrários, o regime de urgência para apreciação do Projeto de Lei (PL) 1.579/2025, que estabelece o direito à alimentação para entregadores de aplicativos. Com a aprovação, o projeto pode seguir direto ao plenário, sem passar pelas comissões temáticas, acelerando sua tramitação.

De autoria das deputadas Talíria Petrone (PSOL-RJ) e Juliana Cardoso (PT-SP), a proposta obriga as empresas de delivery a concederem vale-refeição de R$ 20 a cada quatro horas ininterruptas ou seis horas intercaladas de trabalho, aos entregadores cadastrados há pelo menos um mês na plataforma.

A medida é vista como um passo importante na luta contra a precarização do trabalho na economia de plataformas e responde a uma realidade em que milhares de entregadores enfrentam insegurança alimentar, jornadas exaustivas e ausência de direitos sociais básicos.

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Imagem: Viktoriia Hnatiuk / shutterstock.com

O que diz o Projeto de Lei 1.579/2025

Direto à alimentação garantido por lei

O PL 1.579/2025 busca regulamentar a concessão de vale-refeição como forma de garantir a segurança alimentar dos entregadores de aplicativos. O benefício deverá ser:

  • De no mínimo R$ 20;
  • Concedido a cada 4 horas contínuas ou 6 horas intercaladas de trabalho;
  • Pago por meio eletrônico, com uso exclusivo para alimentação;
  • Intransferível e inconvertível em dinheiro;
  • Não poderá ser descontado da remuneração por entregas realizadas.

A proposta ainda especifica que o crédito será feito diretamente na plataforma digital de entrega à qual o trabalhador estiver vinculado, impedindo o uso indevido do benefício.

Entregadores em situação de fome: dados preocupantes

O projeto surge como resposta a uma série de levantamentos que indicam graves condições de trabalho e alimentação enfrentadas pelos entregadores. Segundo o estudo Entregas da Fome, da ONG Ação da Cidadania, publicado em agosto de 2024:

  • 30% dos entregadores vivem em insegurança alimentar;
  • A maioria trabalha mais de 9 horas por dia;
  • Grande parte não tem acesso regular a refeições durante o expediente;
  • Muitos trabalham todos os dias da semana.

Esses dados evidenciam que, embora os aplicativos movimentem bilhões em lucros, há um desequilíbrio na distribuição de direitos e benefícios, com trabalhadores arcando sozinhos com os custos de alimentação, deslocamento e manutenção do trabalho.

Reações no Congresso e apoio da base governista

Moraes
Imagem: Diego Grandi / Shutterstock.com

O relator do projeto, deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), defendeu a urgência da medida e afirmou que a iniciativa busca corrigir uma distorção histórica, ao garantir mínimas condições de dignidade no exercício do trabalho.

“Este projeto reafirma o primado do trabalho e o valor social da livre iniciativa. É uma reparação necessária para milhares de trabalhadores invisibilizados pela lógica desregulada da gig economy”, disse.

Segundo o parlamentar, a proposta tem amparo constitucional, especialmente no Artigo 6º da Constituição Federal, que reconhece a alimentação como um direito social fundamental, ligado à dignidade da pessoa humana.

O papel da Constituição e o direito à alimentação

A Constituição de 1988, no artigo 6º, estabelece que a alimentação é um direito social, ao lado da saúde, educação, moradia, trabalho, lazer, segurança, entre outros. Nesse sentido, cabe ao poder público:

  • Garantir a segurança alimentar e nutricional da população;
  • Adotar políticas públicas para assegurar o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade;
  • Implementar medidas de promoção da dignidade no trabalho, especialmente em relações laborais atípicas, como no caso das plataformas digitais.

Ao regulamentar esse direito para entregadores de aplicativos, o PL 1.579/2025 busca trazer coerência entre os direitos constitucionais e a realidade concreta de milhões de trabalhadores brasileiros.

Impacto prático da proposta

De acordo com Daniel Almeida, com a aprovação do projeto, a grande maioria dos entregadores passaria a receber em média R$ 40 por dia em vale-refeição, considerando jornadas comuns de 8 a 12 horas.

Além disso, ao garantir um valor fixo, o projeto também:

  • Reduz o risco de alimentação inadequada durante o trabalho;
  • Evita que os trabalhadores precisem custear integralmente sua subsistência durante o expediente;
  • Estabelece um parâmetro mínimo de dignidade, sem afetar diretamente o modelo de negócios das plataformas.

Oposição argumenta sobre impacto no setor

Apesar do apoio da base governista, parte da oposição se manifestou contra o projeto. Parlamentares contrários alegam que a medida pode:

  • Aumentar os custos operacionais das empresas, repassando valores para consumidores;
  • Desestimular a criação de empregos via aplicativos;
  • Atingir pequenos empreendedores que atuam como intermediários logísticos.

A bancada liberal defende que o setor deve ser regulado com cautela para não inibir a inovação e o empreendedorismo digital, ressaltando que a livre negociação entre partes seria mais eficiente do que a imposição de obrigações legais.

No entanto, as autoras do projeto argumentam que a liberdade econômica não pode se sobrepor aos direitos fundamentais, especialmente quando há evidências de insegurança alimentar e precarização extrema.

O cenário internacional: o Brasil segue tendência global?

A discussão sobre direitos trabalhistas para entregadores de aplicativos não é exclusiva do Brasil. Diversos países vêm adotando medidas para regulamentar a relação entre trabalhadores e plataformas.

Exemplos internacionais:

  • Espanha: aprovou a Lei dos Riders, que reconhece os entregadores como empregados formais.
  • Reino Unido: a Justiça determinou que motoristas de app têm direito a salário mínimo e férias remuneradas.
  • Estados Unidos: em alguns estados, como Nova York, foi estabelecido salário mínimo por hora para entregadores e motoristas de aplicativo.

Nesse contexto, o PL 1.579/2025 insere o Brasil no debate global sobre trabalho digno na era digital, buscando estabelecer um patamar mínimo de proteção social, sem eliminar a flexibilidade que caracteriza esse modelo de atividade.

Próximos passos da tramitação

Câmara de deputados numa sessão deliberativa
Imagem: Zeca Ribeiro | Câmara dos Deputados

Com a aprovação do regime de urgência, o texto está apto para ser votado diretamente no plenário da Câmara. Caso aprovado:

  1. Segue para apreciação no Senado Federal;
  2. Se houver alterações, retorna à Câmara;
  3. Sendo aprovado nas duas Casas, vai à sanção presidencial.

A expectativa é que o tema entre na pauta de votações ainda em setembro de 2025, especialmente diante da pressão de movimentos sociais e do crescente interesse da sociedade civil organizada em torno da pauta dos trabalhadores de aplicativos.

Imagem: Ground Picture / Shutterstock.com – Edição: Seu Crédito Digital

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