A desigualdade no Brasil voltou a ganhar destaque com novos dados baseados no Imposto de Renda. O país, que historicamente figura entre os mais desiguais do mundo, registrou um salto expressivo na concentração de renda entre 2017 e 2023, tornando ricos a menor faixa da sociedade.
Um estudo conduzido pelo grupo FiscalData mostra que o 0,1% mais rico da população já detém mais renda do que 80 milhões de brasileiros somados. O levantamento traz números inéditos e revela um cenário preocupante para o futuro da justiça social.

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Super ricos: A escalada da concentração de renda
De acordo com o estudo, cerca de 160 mil pessoas, pertencentes ao 0,1% mais rico, capturaram 85% do crescimento da renda no período analisado. A pesquisa mostra que, enquanto a renda média da população adulta subiu 1,4% ao ano acima da inflação, os super-ricos tiveram ganhos muito superiores.
O crescimento em números
- Top 1% (1,6 milhão de pessoas): avanço de 4,4% ao ano
- Top 0,1%: alta de 6,9% ao ano
- Top 0,01%: crescimento de 7,9% ao ano, superior ao PIB da China no mesmo período
Esse movimento elevou a participação do 1% mais rico de 20,4% para 24,3% da renda nacional. Já o 0,1% mais rico passou a deter 12,5% do total, ultrapassando a fatia dos 50% mais pobres, que juntos ficam com apenas 10%.
Fontes de renda dos super-ricos
O estudo evidencia que a principal origem do aumento da riqueza dos mais ricos não está no trabalho assalariado.
Lucros e dividendos
A maior parte da renda veio de lucros e dividendos isentos de tributação. Esse tipo de rendimento representou 66% do crescimento da renda do 0,1% mais rico. Em média, cada pessoa desse grupo recebeu R$ 516 mil por mês.
Pejotização em alta
Além disso, houve um processo crescente de pejotização. Profissionais de alto nível abriram empresas para receber como pessoa jurídica, reduzindo a carga tributária e aumentando ainda mais a desigualdade no sistema.
Desigualdade e regressividade tributária
A combinação de lucros isentos e pejotização aprofunda o caráter regressivo do sistema tributário brasileiro.
A proposta de reforma
Uma das medidas em debate no Congresso é a criação de uma alíquota mínima de 10% para rendimentos acima de R$ 600 mil por ano. A Receita estima que, dos cerca de 700 mil contribuintes que superam esse valor, apenas 140 mil seriam efetivamente atingidos, já que muitos utilizam mecanismos de isenção.
Impacto no topo da pirâmide
Os pesquisadores defendem que a tributação de lucros e dividendos é essencial para reduzir a desigualdade e tornar o sistema mais progressivo. Caso contrário, o país continuará enfrentando uma distância crescente entre a elite econômica e a base da população.
Super-ricos lucram mais em cenário de baixo crescimento
O paradoxo revelado pelo estudo é que, mesmo em um período de baixo crescimento econômico, os super-ricos tiveram ganhos elevados.
O papel das commodities
Uma das explicações está na valorização das commodities no mercado internacional, o que beneficiou grandes empresários e exportadores, especialmente no setor agropecuário.
No Mato Grosso, por exemplo, a fatia da renda apropriada pelo 0,1% mais rico quase dobrou entre 2017 e 2023, saltando de 9,7% para 17,4%.
Limitações da Pnad frente aos dados da Receita
O estudo ressalta que pesquisas domiciliares, como a Pnad Contínua, não captam com precisão os rendimentos do topo da pirâmide.
Enquanto os dados da Receita Federal mostram que a renda do 0,1% mais rico é 12 vezes maior do que a registrada na Pnad, para a base da pirâmide os resultados são semelhantes. Isso significa que a desigualdade real tende a ser ainda mais grave do que indicam os levantamentos do IBGE.
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Redução da pobreza e desigualdade estrutural
Embora a retomada do Bolsa Família e a melhora do mercado de trabalho tenham tirado milhões de pessoas da extrema pobreza, o problema da concentração de renda continua.
Entre 2023 e 2024, estima-se que 6 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. Porém, o crescimento acelerado da renda no topo da pirâmide anulou parte dos avanços sociais, mantendo a desigualdade em patamares estruturais.
Ferramenta de simulação de renda
O grupo FiscalData também lançou um simulador online que permite ao cidadão verificar sua posição na pirâmide de renda.
Exemplos do simulador
- R$ 30 mil mensais: integrante do 1% mais rico do país
- R$ 516 mil mensais: integrante do 0,1% mais rico
- Metade da população: vive com menos de um salário mínimo mensal
Essa ferramenta traz mais clareza sobre a distância entre a elite econômica e a maioria da população.
O futuro da reforma tributária
O debate sobre a reforma tributária ganha força com a discussão no Congresso. A proposta de taxar lucros e dividendos, rever isenções e criar mecanismos de progressividade é vista como fundamental.
Justiça fiscal como prioridade
Segundo os especialistas, é urgente que a política tributária retome seu papel na redistribuição de renda. O Brasil precisa de um sistema mais justo, capaz de reduzir privilégios e promover maior equidade social.

O estudo do grupo FiscalData revela uma realidade preocupante: a riqueza no Brasil continua se concentrando em um grupo reduzido, enquanto milhões vivem com muito pouco. O 0,1% mais rico já acumula mais renda que metade da população, expondo um abismo social e econômico que ameaça o desenvolvimento do país.
A discussão sobre reforma tributária e justiça fiscal não pode ser adiada. O futuro da sociedade brasileira depende de medidas concretas que reduzam privilégios, ampliem a transparência e fortaleçam a inclusão social.



