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Sonho da casa própria fica mais distante com aumento dos custos de moradia

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 9 min de leitura
Aluguel

O alto custo do aluguel e dos imóveis tem levado jovens a adiar a saída da casa dos pais, dividir apartamentos ou procurar moradias em regiões mais distantes do trabalho. No Brasil, o déficit habitacional e o aumento do número de domicílios alugados mostram a dimensão de um problema que também afeta países europeus.

Segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional brasileiro foi estimado em 5,77 milhões de domicílios em 2024. Na União Europeia, os preços de compra de imóveis residenciais aumentaram 48% entre 2010 e 2023, de acordo com o Eurostat.

A dificuldade de encontrar um imóvel para alugar ou comprar por um valor compatível com a renda interfere no orçamento e nos planos pessoais. Para quem está no início da carreira, conquistar independência pode significar abrir mão de outras despesas ou adiar objetivos financeiros.

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Aluguel caro leva jovem de volta à casa dos pais

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A jornalista Mariana Franco, de 25 anos, sentiu os efeitos desse cenário ao deixar o apartamento que dividia com outras duas pessoas em São Paulo. Ela decidiu voltar para a casa dos pais, em Araçoiaba da Serra, no interior paulista.

A mudança permitiu reduzir os gastos com moradia, mas trouxe uma nova dificuldade. Nos dias de trabalho presencial, Mariana enfrenta cerca de quatro horas de deslocamento entre ida e volta.

“Os aluguéis estão caros. Quando eles são baixos, são lugares pequenos, quase inabitáveis, com partes faltando no imóvel, como contrapiso no chão. E, nesses casos, os imóveis ainda são longe do centro [da cidade]”, relata.

A experiência mostra que economizar com aluguel nem sempre significa melhorar a qualidade de vida. Em alguns casos, o preço mais baixo exige morar longe do trabalho e passar mais tempo no transporte.

A situação também evidencia como o custo da moradia pode influenciar escolhas profissionais e pessoais. Planos como morar sozinho, viajar e constituir família acabam disputando espaço com as despesas básicas.

Mais brasileiros vivem em imóveis alugados

O número de domicílios alugados cresceu no Brasil nos últimos anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção passou de 18,4% em 2016 para 23% em 2024.

Em números absolutos, o total aumentou de 12,3 milhões para 17,8 milhões de domicílios. No mesmo período, a participação das residências próprias já quitadas caiu de 66,8% para 61,6%.

O crescimento da locação não significa, necessariamente, que todos esses moradores enfrentem dificuldades financeiras. Alugar também pode ser uma escolha de quem precisa mudar de cidade, busca flexibilidade profissional ou prefere não assumir um financiamento de longo prazo.

O problema aparece quando a renda não permite escolher entre as alternativas disponíveis. Sem condições de comprar um imóvel e diante de aluguéis elevados, algumas famílias precisam dividir a residência ou aceitar condições inadequadas.

Quanto o aluguel pesa no orçamento familiar?

O custo da moradia vai além do valor pago mensalmente ao proprietário. Condomínio, água, energia elétrica, gás, internet e transporte também precisam entrar na conta.

Segundo a Fundação João Pinheiro, aproximadamente 3,59 milhões de domicílios urbanos apresentavam ônus excessivo com aluguel em 2024. O indicador considera famílias urbanas com renda de até três salários mínimos que destinam mais de 30% dos rendimentos à locação.

Na prática, esse comprometimento reduz o dinheiro disponível para outras necessidades. Despesas com alimentação, saúde, educação e transporte podem ficar mais difíceis de administrar quando uma parcela elevada da renda é destinada à residência.

Considere uma família que recebe R$ 2.500 por mês e paga R$ 900 de aluguel. Nesse exemplo ilustrativo, 36% da renda fica comprometida com a locação, antes mesmo do pagamento das demais contas.

A dificuldade de equilibrar essas despesas também pode prejudicar a formação de uma reserva financeira. Sem dinheiro guardado, imprevistos como problemas de saúde ou perda de emprego podem comprometer ainda mais a estabilidade da família.

Comprar um imóvel exige planejamento financeiro

A compra de uma casa ou apartamento exige recursos para a entrada, além de capacidade de assumir parcelas durante vários anos. O comprador também precisa considerar despesas com documentação, impostos, condomínio e manutenção.

As condições de financiamento influenciam diretamente essa decisão. Juros elevados podem aumentar o custo total da aquisição e dificultar a aprovação do crédito para pessoas com renda menor ou pouca estabilidade profissional.

Para a advogada Helen Salomão, especialista em Direito Notarial, Imobiliário e Registral do escritório Raasa Advogados, a combinação entre renda, crédito e despesas habitacionais dificulta a independência dos jovens.

“No início da carreira, a renda costuma ser menor, enquanto a compra de um imóvel exige recursos para a entrada e capacidade de assumir um financiamento de longo prazo. Com crédito caro e despesas de moradia elevadas, sair da casa dos pais e conquistar independência financeira fica mais difícil”, afirma.

Dados do Banco Central ajudam a contextualizar o perfil de quem acessa o crédito imobiliário. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, 28% dos usuários de financiamento imobiliário tinham entre 18 e 34 anos em dezembro de 2024.

A maior parcela, de 67%, estava na faixa dos 35 aos 60 anos. Além disso, 71% dos usuários tinham vínculo formal de emprego.

Os percentuais representam o perfil dos usuários de financiamento, e não a proporção de jovens que conseguem comprar uma residência. Ainda assim, mostram que a aquisição depende de condições financeiras que podem ser difíceis de alcançar nos primeiros anos de carreira.

Preços dos aluguéis também pressionam os moradores

Quem não consegue comprar um imóvel precisa recorrer à locação, mas essa alternativa também enfrenta a pressão dos preços. O Índice FipeZAP registrou alta de aproximadamente 9% nos valores anunciados para aluguel residencial nos 12 meses até junho de 2026, conforme o dado apresentado no material original.

O indicador acompanha os preços pedidos nos anúncios e não representa necessariamente os reajustes aplicados em todos os contratos vigentes. Os valores também variam conforme a cidade, a localização e as características do imóvel.

Nas regiões com maior concentração de empregos e serviços, encontrar uma residência compatível com a renda pode ser especialmente difícil. Em contrapartida, imóveis mais baratos podem estar distantes dos centros urbanos.

Essa diferença afeta tanto o orçamento quanto a rotina. Uma economia no aluguel pode ser parcialmente anulada pelo aumento dos gastos com transporte e pelo tempo perdido nos deslocamentos diários.

O que Brasil e Europa têm em comum?

A dificuldade de acesso à moradia não se limita ao Brasil. Na União Europeia, os preços de compra de imóveis residenciais subiram 48% entre 2010 e 2023, segundo o Eurostat.

Na Espanha, a crise habitacional ganhou espaço no debate público em meio à dificuldade de encontrar imóveis acessíveis. Episódios de despejo também provocaram manifestações em defesa do direito à moradia.

Brasil e Europa compartilham desafios como a valorização dos imóveis, a disputa por residências bem localizadas e a dificuldade de conciliar os custos habitacionais com a renda. Entretanto, as condições econômicas, as políticas públicas e as características dos mercados imobiliários são diferentes em cada país.

No Brasil, o problema também envolve habitações precárias, falta de infraestrutura e irregularidade fundiária. Por isso, ampliar a oferta de imóveis não basta: é necessário garantir condições adequadas de moradia e acesso a serviços essenciais.

Quais medidas podem facilitar o acesso à moradia?

Uma das alternativas discutidas é ampliar a oferta de residências com preços compatíveis com a renda das famílias. Para produzir resultados, a construção de imóveis precisa considerar também a localização e o acesso ao transporte público, à saúde e à educação.

A locação social é outra possibilidade. Nesse modelo, o poder público oferece imóveis para aluguel a valores compatíveis com a renda dos beneficiários, conforme os critérios de cada programa.

Também é possível recuperar edifícios vazios ou subutilizados em regiões centrais. A iniciativa pode aproveitar estruturas existentes e aproximar os moradores das oportunidades de trabalho e dos serviços urbanos.

Programas de financiamento habitacional podem contribuir para atender famílias elegíveis. No entanto, comprar um imóvel não é necessariamente a melhor opção para todos, especialmente para quem precisa de mobilidade profissional ou ainda não possui recursos para assumir uma dívida de longo prazo.

As medidas precisam considerar diferentes necessidades habitacionais. Enquanto algumas famílias buscam comprar a primeira casa, outras precisam de aluguéis acessíveis e de maior segurança para permanecer onde vivem.

Como se preparar financeiramente para morar sozinho?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Para quem pretende sair da casa dos pais, o primeiro passo é calcular o custo total da mudança. Além do aluguel, é necessário incluir condomínio, contas domésticas, alimentação, transporte e eventuais despesas com mobília.

Também é recomendável manter uma reserva financeira para imprevistos. Esse cuidado ajuda a reduzir o risco de atrasos nos pagamentos diante de despesas inesperadas ou mudanças na renda.

Quem deseja comprar um imóvel deve comparar as condições de financiamento e avaliar se as parcelas cabem no orçamento. A aprovação de crédito não significa, necessariamente, que o compromisso será confortável ao longo dos anos.

Dividir a residência também pode reduzir as despesas individuais, desde que os moradores estabeleçam acordos claros sobre pagamentos e responsabilidades. Outra alternativa é procurar bairros com acesso ao transporte público, considerando tanto o preço do imóvel quanto o custo dos deslocamentos.

Essas medidas ajudam na organização financeira, mas não resolvem sozinhas o problema habitacional. Quando os preços estão acima da capacidade de pagamento, a dificuldade também depende das condições do mercado e das políticas públicas disponíveis.

Conclusão: moradia acessível é essencial para a independência

O alto custo da moradia dificulta a compra de imóveis e compromete a renda de quem depende do aluguel. Para os jovens, isso pode significar adiar planos e reduzir a capacidade de poupar.

Enfrentar o problema exige ampliar a oferta de habitações acessíveis e investir em infraestrutura. O caso de Mariana mostra que economizar com moradia também pode significar enfrentar longos deslocamentos.

Garantir acesso à moradia é essencial para a qualidade de vida e a independência financeira.

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