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Por que o Banco Central suspendeu o Drex? Entenda os motivos técnicos da decisão

O Banco Central desligou o Drex após testes revelarem falhas de segurança e privacidade. Entenda os motivos e o futuro do real digital.

Bruna MachadoPor Bruna Machado··8 min de leitura
Por que o Banco Central suspendeu o Drex? Entenda os motivos técnicos da decisão

O Banco Central do Brasil (BC) decidiu desligar o Drex, sistema que estava sendo desenvolvido para viabilizar o real digital, após identificar falhas críticas de segurança e privacidade durante os testes.

O projeto, iniciado em 2020, vinha sendo apontado como um dos mais ambiciosos do mundo em termos de inovação financeira, mas agora entra em pausa para reestruturação total da infraestrutura tecnológica.

A decisão, embora surpreendente, reflete um dilema enfrentado por bancos centrais de diversos países: como garantir a eficiência e a rastreabilidade das transações em blockchain sem violar legislações de proteção de dados, como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

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O que era o Drex e qual sua função no sistema financeiro

O Drex foi anunciado oficialmente pelo Banco Central em 2023 como a marca do real digital, uma moeda virtual emitida pela autoridade monetária e com o mesmo valor do real físico. Diferente das criptomoedas, o Drex não era um ativo descentralizado, mas sim um sistema financeiro digital integrado, controlado pelo próprio BC.

Um ecossistema financeiro tokenizado

O objetivo era permitir a tokenização de ativos, ou seja, a transformação de bens e valores em representações digitais dentro de uma rede segura. Dessa forma, títulos públicos, automóveis e até imóveis poderiam “rodar” dentro da mesma infraestrutura do real digital.

Com isso, seria possível realizar operações financeiras complexas, como:

  • Empréstimos com garantias automáticas via títulos públicos tokenizados;
  • Transferências instantâneas de propriedade (como veículos) no ato do pagamento;
  • Contratos inteligentes que executam ações automaticamente sem intervenção humana.

Esses contratos inteligentes, inspirados na tecnologia do Ethereum, foram vistos como o grande diferencial do Drex, prometendo reduzir burocracias e custos de cartórios, instituições financeiras e do próprio Estado.


A base tecnológica: blockchain Hyperledger Besu

Desde o início, o Drex foi construído sobre a plataforma Hyperledger Besu, uma blockchain privada baseada na rede Ethereum.

Blockchain pública x privada

  • Blockchain pública (como o Bitcoin): todos podem visualizar as transações, garantindo transparência, mas sacrificando privacidade.
  • Blockchain privada (como a do Drex): acesso restrito a instituições autorizadas, oferecendo maior controle, mas exigindo medidas extras de proteção.

O Banco Central escolheu a Hyperledger Besu por sua flexibilidade e pela possibilidade de criar redes permissionadas, nas quais apenas entidades previamente autorizadas podem participar.

Durante os testes, bancos, fintechs e empresas de tecnologia participaram de projetos-piloto que simulavam empréstimos e garantias reais, tokenização de títulos públicos e transferências automatizadas.


Por que o BC desligou o Drex?

Após dois anos de testes, o Banco Central concluiu que o Drex, em sua configuração atual, não atende plenamente aos requisitos de segurança cibernética e privacidade regulatória.

Falhas de privacidade e conformidade com a LGPD

O ponto mais sensível envolve o tratamento de dados pessoais dentro da blockchain. No Drex, cada carteira digital seria vinculada a uma identidade real — como CPF e nome do usuário.

Por exemplo, se um banco registrasse que a carteira 0xABC pertence a “João Silva, CPF 123.456.789-10”, essa informação se tornaria imutável na blockchain.

Pela LGPD, o titular dos dados tem o direito de solicitar a exclusão de suas informações pessoais. Mas a imutabilidade é justamente o princípio básico de uma blockchain — o que significa que não há como apagar registros gravados.

Essa incompatibilidade entre o direito ao esquecimento e a permanência dos dados inviabilizou juridicamente o avanço do Drex.

Falha no anonimato controlado

Outro desafio foi o modelo de identidade verificável. O BC exigia que cada participante pudesse ser identificado por autoridades e instituições financeiras, mas permanecesse anônimo para terceiros.

Contudo, as soluções testadas não conseguiram equilibrar de forma robusta essa dualidade entre transparência e confidencialidade. Segundo especialistas, não há ainda uma tecnologia madura que permita tal anonimato com rastreabilidade plena e segura.

“Não se trata de uma falha específica da Hyperledger Besu, mas de uma limitação tecnológica. A blockchain ainda não consegue entregar, ao mesmo tempo, privacidade regulatória e escalabilidade sistêmica”, afirmou Cauê Duarte, sócio da Nexa Finance.


As etapas do projeto e o que foi alcançado

O Drex passou por duas fases antes de ser interrompido:

Fase 1 – Provas de conceito (2021-2023)

O Banco Central convidou 16 instituições financeiras e tecnológicas para testar a interoperabilidade entre o real digital e ativos tokenizados. Essa etapa comprovou que o sistema poderia funcionar tecnicamente, com transações seguras e rápidas.

Fase 2 – Piloto controlado (2023-2025)

Foram realizados testes com contratos inteligentes, tokenização de títulos públicos e pagamentos automatizados, sempre em ambiente simulado.

Foi nessa fase que surgiram as principais limitações em privacidade e compliance com a LGPD.

Fase 3 – Em desenvolvimento

Prevista para começar em 2026, essa fase deverá ter nova infraestrutura tecnológica, ainda não definida. A equipe do BC busca alternativas fora do modelo blockchain tradicional, possivelmente migrando para um sistema híbrido de registros distribuídos e bancos de dados criptografados.


Reações do mercado financeiro

O desligamento do Drex não foi interpretado como um fracasso pelas instituições envolvidas, mas sim como parte natural do processo de inovação tecnológica.

“A fase 2 cumpriu seu papel, permitindo que o regulador avaliasse as tecnologias com base em critérios amplos. Agora é o momento de evolução”, afirmou André Carneiro, CEO da BBChain.

Marlyson Silva, presidente do grupo Transfero, destacou que a decisão mostra maturidade institucional:

“Encerrar a fase atual do Drex e buscar uma nova arquitetura é um passo responsável. Mostra foco e clareza de propósito em um projeto de escala nacional.”


O que acontece agora com o real digital?

Apesar da interrupção, o Banco Central não abandonou a ideia do Drex. O projeto será reformulado para uma terceira fase, prevista para início de 2026, com uma nova infraestrutura tecnológica que resolva as pendências de segurança.

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Entre as opções em estudo estão:

  • Soluções híbridas de blockchain e banco de dados criptográfico;
  • Protocolos de privacidade avançada, como zero-knowledge proofs;
  • Arquiteturas de identidade digital descentralizada, mais alinhadas à LGPD.

O BC ainda não divulgou oficialmente qual tecnologia substituirá a Hyperledger Besu, mas indicou que o objetivo é manter os princípios de eficiência e automação, preservando o conceito original do Drex.


A blockchain morreu para o Drex?

Ainda não há uma resposta definitiva. Em eventos recentes, representantes do BC já haviam admitido que a blockchain poderia ser descartada em prol de outras soluções mais compatíveis com a legislação brasileira.

O órgão, no entanto, evita usar o termo “abandono”. A ideia é aproveitar o aprendizado das duas fases iniciais e desenvolver uma nova infraestrutura digital soberana, mais adequada ao contexto regulatório e tecnológico do país.

“A interrupção do Drex não representa o fim da inovação, mas a busca por um caminho mais seguro e aderente à realidade jurídica nacional”, observou um executivo envolvido nos testes.


O legado do Drex e as lições aprendidas

Mesmo desligado, o Drex deixa um legado importante para o sistema financeiro brasileiro:

1. Prova de conceito funcional

O projeto demonstrou que é possível integrar moeda digital e ativos tokenizados em um mesmo ambiente.

2. Engajamento do setor privado

Bancos, fintechs e startups trabalharam lado a lado com o regulador, criando um modelo inédito de colaboração público-privada.

3. Avanços em contratos inteligentes

As simulações com garantias automáticas e transferências tokenizadas abriram caminho para futuras soluções de crédito e registro digital.

4. Reflexão sobre privacidade

O maior desafio exposto foi a necessidade de conciliar inovação e proteção de dados, um debate que deve nortear o futuro da digitalização financeira.


Considerações finais

O desligamento do Drex marca um ponto de inflexão na trajetória da inovação financeira brasileira. A decisão do Banco Central reflete prudência diante de limitações técnicas e legais, principalmente quanto à proteção de dados pessoais e segurança das transações.

Embora o projeto não tenha alcançado a fase de implementação pública, suas duas primeiras etapas deixaram aprendizados valiosos sobre o uso de blockchain em larga escala no setor financeiro.

O real digital continua no horizonte, mas o BC entende que, antes de lançar uma moeda digital soberana, é preciso garantir que ela seja segura, transparente e compatível com as leis brasileiras.

Com a fase 3 prevista para 2026, o futuro do Drex dependerá da capacidade de o Brasil encontrar uma tecnologia que una inovação, regulação e confiança — pilares essenciais de qualquer sistema monetário moderno.

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