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Com menos beneficiários, o BPC já custa mais que o Bolsa Família em 24 das 27 capitais brasileiras

Em Florianópolis, o Bolsa Família atende 12.097 famílias. O BPC — Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos pobres e pessoas com deficiência — atende 9.038 pessoas. Menos gente. Mas o gasto com BPC é 2,31 vezes maior do que o do Bolsa Família na capital catarinense: R$ 18,3 milhões contra R$ 7,9 milhões por […]

Avatar de Eduardo Mendes Eduardo Mendes · · 6 min de leitura
BPC vs Bolsa Família

Em Florianópolis, o Bolsa Família atende 12.097 famílias. O BPC — Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos pobres e pessoas com deficiência — atende 9.038 pessoas. Menos gente. Mas o gasto com BPC é 2,31 vezes maior do que o do Bolsa Família na capital catarinense: R$ 18,3 milhões contra R$ 7,9 milhões por mês.

Florianópolis é o caso mais extremo, mas não é exceção. Em 24 das 27 capitais brasileiras, o BPC consome mais recursos do que o Bolsa Família — mesmo atendendo, nas capitais, 2,3 vezes menos pessoas.

Os dados são do cruzamento das bases do Novo Bolsa Família e do BPC, disponibilizadas pelo Ministério da Transparência (CGU) e processadas pela Base dos Dados, referentes a janeiro de 2026. A análise foi realizada pelo Score Cidades.

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A aritmética que explica tudo

O BPC paga exatamente um salário mínimo — R$ 1.621 em janeiro de 2026 — para cada beneficiário, seja idoso acima de 65 anos ou pessoa com deficiência. O Bolsa Família paga, em média, R$ 666 por família.

Isso significa que cada beneficiário do BPC custa ao governo federal 2,77 vezes mais do que uma família no Bolsa Família. Quando o número de beneficiários do BPC chega perto de um terço dos do BF, os gastos se equiparam — e com o envelhecimento da população, essa proporção cresce todo ano.

Nas 27 capitais juntas:

  • Bolsa Família: 3,35 milhões de famílias — R$ 2,23 bilhões por mês
  • BPC: 1,46 milhão de pessoas — R$ 2,70 bilhões por mês

O BPC atende menos da metade do número de beneficiários do BF nas capitais, mas custa R$ 470 milhões a mais por mês — R$ 5,6 bilhões a mais por ano.

O ranking das capitais

CapitalUFGasto BPCGasto BFRatioEnvelhec.
FlorianópolisSCR$ 18,3 miR$ 7,9 mi2,31x76
Campo GrandeMSR$ 65,4 miR$ 31,2 mi2,10x49
CuritibaPRR$ 64,0 miR$ 34,3 mi1,86x78
RecifePER$ 160,6 miR$ 88,0 mi1,82x69
CuiabáMTR$ 40,9 miR$ 23,9 mi1,71x42
GoiâniaGOR$ 70,0 miR$ 42,3 mi1,66x57
VitóriaESR$ 19,0 miR$ 12,2 mi1,56x85
Belo HorizonteMGR$ 108,7 miR$ 75,0 mi1,45x91
AracajuSER$ 51,0 miR$ 36,2 mi1,41x55
Porto AlegreRSR$ 69,4 miR$ 49,4 mi1,40x98
Boa VistaRRR$ 32,5 miR$ 24,0 mi1,35x19
BelémPAR$ 127,9 miR$ 95,5 mi1,34x60
PalmasTOR$ 14,6 miR$ 11,3 mi1,30x23
BrasíliaDFR$ 128,5 miR$ 103,1 mi1,25x47
FortalezaCER$ 224,0 miR$ 182,0 mi1,23x56
Porto VelhoROR$ 38,0 miR$ 31,5 mi1,21x30
Rio BrancoACR$ 33,2 miR$ 27,6 mi1,20x29
João PessoaPBR$ 60,3 miR$ 52,0 mi1,16x52
NatalRNR$ 53,3 miR$ 47,4 mi1,12x66
São PauloSPR$ 448,4 miR$ 406,9 mi1,10x73
MaceióALR$ 72,8 miR$ 66,9 mi1,09x44
Rio de JaneiroRJR$ 298,9 miR$ 277,4 mi1,08x86
TeresinaPIR$ 58,1 miR$ 54,7 mi1,06x48
São LuísMAR$ 77,6 miR$ 76,0 mi1,02x44
SalvadorBAR$ 175,0 miR$ 175,5 mi1,00x66
ManausAMR$ 149,0 miR$ 156,4 mi0,95x26
MacapáAPR$ 38,4 miR$ 41,9 mi0,91x22

Os três casos que contam a história

Florianópolis — o mais envelhecido do topo

Com índice de envelhecimento de 76 e IDH de 0,847, Florianópolis é uma das capitais mais ricas e mais velhas do país. O BPC custa 2,31 vezes o Bolsa Família — a maior distância entre todas as capitais. A cidade tem menos pobres jovens que precisam do BF, mas uma base crescente de idosos pobres que têm direito constitucional ao BPC.

Porto Alegre — o envelhecimento mais avançado

Com índice de envelhecimento de 98 — quase um idoso para cada jovem — Porto Alegre é a capital com a população mais velha do Brasil. O BPC custa 1,40x o Bolsa Família: 36.397 pessoas no BPC contra 74.430 famílias no BF. A tendência é clara — à medida que a cidade envelhece, a distância vai fechar.

Manaus — a exceção que confirma a regra

A única grande capital onde o BF ainda supera o BPC em gasto. O índice de envelhecimento de Manaus é apenas 26 — o mais baixo entre as capitais. A cidade tem uma população jovem, alta demanda por Bolsa Família e poucos idosos pobres atingindo o limiar do BPC. É o retrato do que Florianópolis e Porto Alegre eram há 20 anos.

Salvador — o empate

Salvador está exatamente na linha: R$ 175,0 milhões no BPC contra R$ 175,5 milhões no BF — uma diferença de apenas R$ 500 mil mensais, de um total de R$ 350 milhões. Com índice de envelhecimento de 66, a capital baiana está na inflexão. Em poucos anos, o BPC deve ultrapassar o BF também aqui.

Por que isso importa — e vai piorar

O BPC é um direito constitucional garantido pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). Diferente do Bolsa Família, que tem envelope orçamentário e pode ser expandido ou cortado por decisão política, o BPC não tem teto: todo cidadão que atende os critérios — 65 anos ou mais, renda familiar per capita abaixo de um quarto do salário mínimo — recebe automaticamente.

Isso cria uma pressão fiscal crescente e automática. O Brasil envelhece rapidamente. Segundo o IBGE, o número de pessoas com 65 anos ou mais deve passar de 22 milhões hoje para mais de 40 milhões em 2050. Cada novo idoso que cruza a linha de pobreza tem direito ao BPC — sem que o Congresso precise aprovar nada.

O envelhecimento não é uniforme. As capitais do Sul e Sudeste, que já envelheceram mais, chegaram primeiro a esse ponto de inflexão. As capitais do Norte e Nordeste — Manaus, Macapá, Fortaleza — chegam depois, mas chegam. A curva é a mesma, o prazo é diferente.

Nas capitais com maior índice de envelhecimento — Porto Alegre (98), Belo Horizonte (91), Vitória (85), Rio de Janeiro (86) — o BPC já está bem à frente do BF em gasto. Naquelas onde o envelhecimento ainda é baixo — Manaus (26), Macapá (22), Palmas (23) — o BF ainda domina, mas por quanto tempo?

O dado que os gestores precisam ver

Nas 27 capitais juntas, o BPC gasta R$ 470 milhões a mais por mês do que o Bolsa Família. Anualizado, são R$ 5,6 bilhões gastos a mais com um programa que atende menos da metade das pessoas.

Isso não é argumento para cortar o BPC — é um direito legítimo, garantido em lei, de pessoas que chegaram à velhice sem renda suficiente. É, antes, um argumento para que gestores, planejadores e formuladores de políticas enxerguem o que os dados já mostram: a composição do gasto social brasileiro está mudando estruturalmente, e vai continuar mudando, independente de qualquer decisão política.

O BPC que hoje custa 1,21x o Bolsa Família nas capitais vai custar 2x, depois 3x. Não porque alguém decidiu assim — mas porque o Brasil está envelhecendo, e a conta do envelhecimento é automática.

Metodologia

Os dados de beneficiários e valores do Novo Bolsa Família e do BPC são extraídos das bases públicas do Ministério da Transparência (CGU), processadas e disponibilizadas pela Base dos Dados. A referência é janeiro de 2026. Os valores foram validados contra o Portal da Transparência e os totais nacionais do Ministério do Desenvolvimento Social. BPC e Bolsa Família são legalmente excludentes — não há acumulação dos dois benefícios pelo mesmo indivíduo (Lei 8.742/1993 e Lei 14.601/2023). O índice de envelhecimento é calculado como a razão entre a população de 65 anos ou mais e a população de 0 a 14 anos, multiplicada por 100, conforme metodologia do IBGE (Censo 2022).

Análise e cruzamento de dados: Score de Cidades.

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