A aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) aumentou a atratividade do Brasil para empresas interessadas em instalar ou ampliar grandes centros de processamento de dados. O programa prevê benefícios tributários para investimentos em equipamentos e infraestrutura, com exigências relacionadas, entre outros pontos, ao uso de energia de fontes limpas e renováveis.
O projeto foi aprovado pelo Senado em 1º de setembro e encaminhado para sanção presidencial. O prazo constitucional para sanção ou veto vai até 25 de setembro de 2026. Portanto, embora o Congresso já tenha concluído a votação, o benefício ainda depende da etapa final de sanção para entrar definitivamente em vigor.
A expectativa de expansão, entretanto, coloca o setor elétrico diante de um desafio que pode ser tão importante quanto o incentivo fiscal: a capacidade de transmissão.
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Por que os data centers exigem tanta energia?
Um data center convencional já demanda uma quantidade relevante de eletricidade. Os chamados hyperscale, utilizados por grandes provedores de computação em nuvem e por aplicações de inteligência artificial, levam essa necessidade para outra escala.
Além de alimentar servidores, a energia precisa manter sistemas de refrigeração, armazenamento, segurança, redundância e outros equipamentos funcionando continuamente. No caso de instalações destinadas ao treinamento e à operação de modelos de IA, a concentração de processamento pode elevar ainda mais a carga.
O crescimento já aparece no planejamento do sistema elétrico. O relatório do ONS sobre 2024 apontou forte aumento nos pedidos de acesso de grandes consumidores e destacou data centers entre os projetos associados à transição energética, com demanda potencial na casa de 10 GW no horizonte analisado.
Um estudo do Gesel/UFRJ também mostra a dimensão do fenômeno: a carga média do Sistema Interligado Nacional ficou em torno de 80 GW em 2024. Assim, projetos individuais de centenas de megawatts ou até de gigawatts não podem ser tratados como consumidores comuns.
O problema está na transmissão, não apenas na geração
O Brasil possui uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis e vem ampliando a capacidade de geração eólica e solar. Isso cria uma situação aparentemente contraditória: existe energia disponível em determinadas regiões, mas nem sempre há infraestrutura suficiente para entregá-la onde uma nova carga pretende se instalar.
Esse descompasso é particularmente relevante no Nordeste, região que concentra grande parte da expansão eólica e solar. Ao mesmo tempo, muitos projetos de data centers demonstram preferência por áreas próximas aos grandes centros consumidores e aos principais corredores de conectividade, como o eixo entre São Paulo e Campinas.
O planejamento do ONS já identifica pressão crescente sobre a infraestrutura paulista. O órgão destaca o aumento expressivo das solicitações de conexão de data centers e de outras grandes cargas no estado, com impactos inclusive sobre os pedidos de aumento de uso das redes das distribuidoras.
Isso significa que construir uma usina não resolve automaticamente o problema. É necessário que geração, subestações, linhas de transmissão e sistemas de distribuição estejam disponíveis de maneira coordenada.
Fila de pedidos chegou a níveis muito elevados
A corrida pela conexão ajuda a dimensionar o tamanho da oportunidade e, ao mesmo tempo, do risco.
Em determinado momento, os pedidos associados a data centers chegaram a aproximadamente 80 GW. O volume foi considerado incompatível com a realidade de implantação dos projetos, já que representaria uma expansão gigantesca da carga elétrica brasileira.
A exigência de garantias financeiras ajudou a separar projetos com maior grau de comprometimento daqueles considerados especulativos. Segundo informações divulgadas a partir do ONS, a fila considerada efetiva ficou próxima de 10 GW, com empreendimentos em diferentes etapas de conexão.
Em uma das atualizações mais recentes, cerca de 3 GW já tinham contratos de uso da transmissão assinados, enquanto outros projetos possuíam pareceres de acesso ou permaneciam em análise.
A mudança é importante porque reduz o risco de a rede ser planejada para empreendimentos que nunca sairiam do papel.
São Paulo concentra demanda, mas enfrenta restrições
A localização é um dos fatores que mais complicam a expansão.
Grandes empresas de tecnologia tendem a procurar regiões próximas de mercados consumidores, redes de telecomunicações, cabos de fibra óptica e infraestrutura empresarial. Por isso, o entorno de São Paulo permanece estratégico.
O problema é que justamente essa concentração aumenta a pressão sobre uma rede que já atende uma enorme quantidade de consumidores e atividades industriais.
O ONS vem estudando diferentes cenários para acomodar o crescimento das grandes cargas. O planejamento oficial também aponta a necessidade de reforços específicos no sistema de São Paulo para suportar aumentos de demanda e de uso da transmissão.
Construir um data center é mais rápido que ampliar a rede
Esse é um dos principais pontos de atenção para investidores.
Um campus de data center pode ser desenvolvido em prazo relativamente curto quando comparado ao ciclo necessário para planejar, licenciar, contratar e construir uma grande linha de transmissão.
Além das obras civis, existem equipamentos críticos, como transformadores de potência, cuja fabricação e entrega podem se tornar gargalos. Dessa forma, mesmo que uma empresa tenha capital, terreno e tecnologia para instalar um empreendimento, ela pode não conseguir operar na data planejada por falta de capacidade de conexão.
O próprio ONS vem discutindo como adaptar os critérios de conexão às características dessas cargas, especialmente porque determinados projetos podem atingir escalas próximas de 2 GW e apresentar comportamento elétrico diferente de consumidores tradicionais.
O Redata pode acelerar investimentos em transmissão?

Indiretamente, sim.
Quanto maior for a quantidade de data centers economicamente viáveis, maior será a pressão para que o sistema elétrico seja adaptado ao novo perfil de consumo. Isso pode estimular investimentos em linhas, subestações, transformadores e outros equipamentos.
O desafio é coordenar os dois lados. Se os incentivos fiscais permitirem que os projetos avancem muito mais rapidamente do que a infraestrutura elétrica, parte dos empreendimentos poderá enfrentar atrasos justamente quando deveria começar a gerar receita.
Por outro lado, um planejamento coordenado pode transformar os data centers em uma nova âncora de demanda para regiões que possuem potencial de geração renovável, aproximando consumo e oferta e ajudando a reduzir desperdícios associados a restrições de escoamento.
(Imagem: quantic69/iStock)
