O El Niño deve ganhar força entre outubro e dezembro de 2026 e atingir uma intensidade considerada muito forte, segundo o novo boletim do Painel El Niño. A previsão aponta 95% de probabilidade de o fenômeno alcançar essa categoria durante o trimestre.
O cenário previsto deve produzir efeitos diferentes nas regiões brasileiras. Enquanto áreas do Centro-Norte podem enfrentar mais seca, calor e risco de queimadas, o Sul deve continuar sob influência de chuvas acima da média e possibilidade de cheias.
As temperaturas também tendem a permanecer acima da faixa considerada normal em grande parte do país. A influência do fenômeno pode continuar pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, embora os impactos possam mudar conforme a evolução das condições atmosféricas e oceânicas.
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Por que o El Niño deve ganhar força?

O El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento interfere na circulação da atmosfera e modifica os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
No episódio atual, as condições do fenômeno foram confirmadas em junho de 2026. No fim de setembro, as anomalias de temperatura da superfície do mar ultrapassaram 2 °C em áreas do Pacífico Equatorial central e leste, segundo dados do Climate Prediction Center, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (CPC/NOAA).
A intensidade prevista para os próximos meses chama atenção porque coincide com a primavera e o início do verão no Hemisfério Sul, período em que a distribuição das chuvas tem efeitos importantes sobre rios, agricultura, reservatórios e risco de incêndios.
O Boletim nº 4 do Painel El Niño foi elaborado com participação de órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Centro-Norte deve enfrentar mais seca e risco de fogo
Uma das principais áreas de atenção para os próximos meses está no Centro-Norte brasileiro. A combinação entre chuvas abaixo do esperado e temperaturas elevadas pode aumentar o déficit de umidade do solo e deixar a vegetação mais vulnerável ao fogo.
Dados parciais de setembro apontam uma piora rápida das condições de seca. O número de municípios classificados em situação de seca extrema passou de quatro para 24 em apenas um mês.
Também houve aumento entre os municípios classificados em seca severa, que passaram de 153 para 197. Os maiores avanços foram registrados em estados como Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe.
Nordeste está entre as regiões mais afetadas
O Nordeste concentra atualmente um dos cenários mais preocupantes. Segundo o boletim, 16% da região está em situação de seca grave.
A previsão de pouca chuva combinada a temperaturas acima da média pode dificultar a recuperação das áreas afetadas pela estiagem e aumentar a pressão sobre os recursos hídricos.
O problema pode atingir tanto atividades agrícolas quanto o abastecimento de água em determinadas localidades.
Norte também enfrenta redução dos níveis dos rios
Na Região Norte, a seca avançou principalmente em áreas de Roraima, Acre e Amazonas.
A redução das chuvas já produz reflexos sobre os recursos hídricos. Há municípios enfrentando dificuldades relacionadas à captação de água e à navegação.
Roraima aparece entre os principais pontos de atenção. Os níveis dos rios Branco e Negro estão baixos, enquanto a previsão de chuva abaixo da média pode dificultar a recuperação dos cursos d’água.
A situação também aumenta a preocupação com incêndios. Quando a vegetação perde umidade e as temperaturas permanecem elevadas, o ambiente fica mais favorável à propagação do fogo.
Para o trimestre de outubro a dezembro, o Cemaden aponta áreas de maior risco principalmente na Amazônia, no Centro-Oeste e em partes do interior do país.
Sul deve continuar com chuva acima da média
Enquanto o Centro-Norte enfrenta condições mais secas, a Região Sul aparece no extremo oposto da previsão.
O Sul vem registrando episódios de chuva volumosa, elevação dos níveis dos rios e inundações. O Rio Grande do Sul está entre os estados mais afetados, especialmente em áreas como o Vale do Taquari e a região do rio Caí.
Santa Catarina também permanece no radar das autoridades responsáveis pelo monitoramento hidrológico.
Ao longo de 2026, o Serviço Geológico do Brasil emitiu mais de 190 boletins de alerta hidrológico relacionados à Região Sul, diante de situações envolvendo elevação dos níveis dos rios e risco de inundação.
Para outubro, novembro e dezembro, a previsão continua indicando chuvas acima da média no Sul.
Apesar disso, o boletim aponta uma tendência de redução gradual do risco de cheias até dezembro. Isso não significa que novos episódios de chuva intensa estejam descartados.
Sudeste também pode registrar mais chuva
O cenário de precipitação acima da média não ficará restrito ao Sul.
As projeções também indicam chuvas superiores ao normal em partes do Sudeste e no leste do Nordeste durante o trimestre.
A previsão, porém, deve ser interpretada como uma tendência para um período de três meses. Ela não significa que haverá chuva acima da média todos os dias ou em todas as cidades dessas regiões.
Eventos de curta duração, como temporais intensos, podem ocorrer mesmo quando a média mensal ou trimestral apresenta outro comportamento.
Calor deve predominar em grande parte do Brasil
A chuva não é o único fator de preocupação. O novo boletim também aponta temperaturas acima da média em quase todo o território nacional.
O calor pode potencializar os efeitos da seca em áreas onde a precipitação estiver abaixo do normal. Com menos umidade disponível, o solo e a vegetação tendem a secar mais rapidamente.
A combinação também pode aumentar a demanda por água e elevar a pressão sobre sistemas de abastecimento em regiões que já enfrentam baixos níveis de rios e reservatórios.
Agricultura pode sentir efeitos diferentes em cada região
O impacto do El Niño sobre a agricultura não será uniforme.
No Centro-Norte, a combinação de calor e menor disponibilidade de chuva pode aumentar os desafios para determinadas culturas e para a criação de animais, especialmente em áreas afetadas pela estiagem.
No Sul, por outro lado, a maior disponibilidade de água pode beneficiar algumas atividades agrícolas. Ao mesmo tempo, excesso de chuva pode provocar problemas como encharcamento do solo, doenças nas plantações e dificuldade para realizar operações no campo.
Por isso, o mesmo fenômeno climático pode produzir consequências completamente diferentes dependendo da região e da atividade econômica.
Até quando o El Niño deve influenciar o Brasil?
As instituições que integram o Painel El Niño indicam que o fenômeno deve continuar influenciando as condições climáticas pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
Isso não significa que a intensidade permanecerá igual durante todo o período. O comportamento do oceano e da atmosfera muda constantemente, e as previsões são atualizadas conforme novos dados são registrados.
Também é possível que os efeitos regionais sejam diferentes ao longo dos próximos meses.
O que a população deve fazer?
A principal recomendação para a população é acompanhar os avisos meteorológicos e alertas oficiais da região onde mora.
Em áreas sujeitas a enchentes, moradores devem ficar atentos às orientações da Defesa Civil e conhecer previamente locais seguros para onde possam se deslocar em caso de emergência.
Nas regiões afetadas pela seca, é importante acompanhar comunicados relacionados ao abastecimento de água, condições dos rios e risco de incêndios.
A Defesa Civil Nacional também disponibiliza alertas por SMS. Para receber as mensagens, é possível cadastrar o CEP enviando-o para o número 40199.
O Inmet mantém ainda uma plataforma com avisos meteorológicos atualizados para diferentes áreas do país.
O que esperar dos próximos meses?

O novo boletim mostra um Brasil marcado por contrastes climáticos durante a primavera e o início do verão.
No Centro-Norte, a combinação de seca, calor e maior risco de fogo exige atenção. No Sul, a preocupação permanece relacionada às chuvas volumosas, aos níveis dos rios e à possibilidade de novas inundações.
Ao mesmo tempo, a previsão de temperaturas acima da média em grande parte do território pode ampliar os efeitos da estiagem nas áreas onde chover menos.
A probabilidade de 95% de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro indica uma tendência climática robusta para o período. Ainda assim, a previsão sazonal não determina exatamente o que acontecerá em cada cidade.
Por isso, as atualizações do Inmet, Inpe, Cemaden, ANA, SGB e Defesa Civil serão importantes para acompanhar a evolução do fenômeno e identificar mudanças nas condições de chuva, temperatura, rios e risco de desastres.
Conclusão
O avanço do El Niño coloca o Brasil diante de um período de contrastes climáticos, com seca e maior risco de incêndios em áreas do Centro-Norte, enquanto o Sul permanece sob atenção para chuvas intensas e possíveis cheias. Ao mesmo tempo, o predomínio de temperaturas acima da média pode intensificar os efeitos desses extremos em diferentes regiões.
Com a previsão de que o fenômeno permaneça influenciando o clima até o início de 2027, o cenário ainda pode sofrer alterações. Por isso, acompanhar as atualizações dos órgãos meteorológicos e os alertas da Defesa Civil será fundamental para que a população consiga se antecipar a períodos de calor intenso, estiagem, temporais e outros eventos extremos.
