Os golpes bancários contra idosos continuam em crescimento no Brasil em 2025, preocupando autoridades, entidades de defesa do consumidor e o próprio setor financeiro.
Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostram que 38% dos brasileiros já foram vítimas ou sofreram tentativas de fraude — e entre as pessoas com mais de 60 anos, esse índice chega a 42%.
O cenário é agravado pela falta de suporte tecnológico nas instituições bancárias e pela sensação de insegurança entre aposentados, que muitas vezes preferem resolver tudo presencialmente, mesmo diante de riscos em agências e caixas eletrônicos.
Casos recentes, como os de Geraldo Cardoso, Cilda Queiroz e Wilson Antunes, ilustram como criminosos têm se aproveitado da vulnerabilidade emocional e digital dos idosos para aplicar golpes cada vez mais sofisticados, tanto nas ruas quanto por telefone e internet.
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O golpe do falso resgate
Geraldo Cardoso, 70 anos, de Aparecida (SP), perdeu seus cartões bancários dentro de um ônibus. Minutos depois, recebeu mensagens de uma pessoa que dizia ter encontrado os cartões e pedia um PIX como recompensa para devolvê-los.
“Desci do ônibus achando que ia recuperar meus cartões. A pessoa falou para eu ir buscar, mas antes pediu o PIX. Aí desconfiei e liguei para o meu sobrinho, que é da polícia”, contou Geraldo.
O golpe só não foi consumado porque ele desconfiou a tempo. O motorista do ônibus realmente havia encontrado os cartões, mas o golpista usou as informações impressas para identificar o nome e o telefone da vítima.
O golpe do caixa eletrônico
A aposentada Cilda Queiroz, de 71 anos, presenciou uma amiga ser vítima de um golpe dentro do banco. “Um homem disse que o cartão dela tinha caído. Quando ela se abaixou para procurar, ele pegou o cartão que estava na máquina. Ela só percebeu depois, quando o dinheiro sumiu”, relatou.
Cilda conta que, por experiência própria, evita usar aplicativos bancários e prefere pagar taxas para ser atendida por funcionários. “Nunca desbloqueei o crédito do meu cartão. Só uso débito e prefiro resolver tudo pessoalmente. Esse negócio de aplicativo não é para todo idoso”, diz.
Golpes por telefone: o medo das ligações falsas
Outro aposentado, Wilson Antunes, de 67 anos, afirma receber diversas ligações suspeitas por semana. “Evito fazer qualquer coisa pelo celular. Prefiro vir pessoalmente no banco, porque me sinto mais seguro com os vigilantes ali. O certo era ter polícia na porta”, defende.
Esses relatos refletem uma realidade comum entre idosos brasileiros: o medo de cair em golpes online os faz optar por atendimentos presenciais — justamente o ambiente onde muitos crimes ainda ocorrem.
Dados da Febraban: golpes em alta e foco nos mais velhos
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) confirma o aumento das fraudes financeiras nos últimos meses.
- 33% dos entrevistados afirmaram ter sido alvo de tentativa de golpe em setembro de 2024.
- Em março de 2025, o índice subiu para 38%.
- Entre os idosos, o percentual é de 42%, e entre os homens, chega a 44%.
- Pessoas com ensino superior também estão entre as mais vulneráveis (41%), segundo o levantamento.
Os tipos de golpe mais comuns envolvem engenharia social (uso da persuasão para enganar a vítima), falsos atendentes bancários, links maliciosos, PIX falso e roubo de cartão durante saques.
A Febraban recomenda que os bancos reforcem os mecanismos de autenticação e campanhas de conscientização, especialmente voltadas para o público idoso.
A pressão dos bancos digitais e a exclusão tecnológica
Muitos aposentados afirmam sentir-se pressionados a usar aplicativos bancários. Com o fechamento de agências e a redução do atendimento presencial, quem não domina o celular ou a internet acaba em situação de vulnerabilidade.
“Hoje em dia tudo é por celular. A gente não tem facilidade com isso e nem todo mundo tem filho para ajudar”, desabafa Cilda.
O desafio da inclusão digital da terceira idade
Pesquisadores e especialistas em tecnologia social apontam que o problema é mais estrutural do que individual. O Brasil ainda carece de políticas públicas de inclusão digital para idosos, o que cria um abismo entre gerações.
Segundo levantamento do IBGE, apenas 47% dos brasileiros acima de 60 anos têm familiaridade com aplicativos de banco ou pagamentos digitais. Entre os que vivem sozinhos, esse número cai para 32%.
O resultado é um círculo vicioso: idosos que não confiam nos meios digitais recorrem ao atendimento físico, onde são mais expostos a golpes presenciais, especialmente em filas de caixas eletrônicos ou dentro das agências.
O que diz o Procon-SP sobre os golpes

O Procon-SP reforça que os bancos têm responsabilidade direta na segurança das operações, especialmente quando se trata de consumidores idosos e hiper vulneráveis.
Transparência e obrigação de provar autenticidade
Segundo o órgão, as instituições financeiras devem comprovar que a transação foi feita com autorização do cliente, de forma legítima e sem falhas de informação. Caso contrário, o banco deve ressarcir o valor perdido.
Em nota, o Procon orienta:
“Os consumidores não devem fornecer ou confirmar dado algum para quem quer que seja, principalmente informações como CPF, RG, data de nascimento, conta bancária, senhas ou fotos. Em caso de contato suspeito, desligue e procure a agência.”
Além disso, o órgão recomenda nunca clicar em links recebidos por e-mail ou mensagem e não aceitar ajuda de desconhecidos em terminais eletrônicos.
A resposta das autoridades: Operação Sênior Safe
A Polícia Civil de Sorocaba (SP) deflagrou, em outubro, a Operação Sênior Safe, com o objetivo de desmantelar uma organização criminosa especializada em enganar idosos.
Os criminosos alteravam o idioma dos caixas eletrônicos e simulavam mensagens de erro, aproveitando-se da confusão das vítimas para realizar saques e transferências indevidas.
Durante a operação, três mandados de busca e apreensão foram cumpridos no bairro Brasilândia, em São Paulo, resultando na prisão de um dos suspeitos. Outros dois seguem foragidos.
De acordo com a Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), o grupo agia em várias cidades do estado e faturava dezenas de milhares de reais por mês aplicando golpes em aposentados e pensionistas.
Principais golpes contra idosos em 2025
Com base em relatórios da Polícia Civil e da Febraban, os golpes mais recorrentes entre idosos no Brasil são:
1. Golpe do falso funcionário
Um criminoso liga ou envia mensagem fingindo ser do banco. Ele afirma que há uma transação suspeita e pede dados pessoais, senhas ou que o cartão seja “recolhido” por um motoboy.
2. Golpe do cartão preso
O criminoso finge ajudar o idoso em um caixa eletrônico. Ele troca o cartão ou captura a senha digitada para sacar o dinheiro depois.
3. Golpe do PIX premiado
O golpista promete prêmios ou devoluções de valores via PIX e convence a vítima a enviar um valor “de teste” para liberar o suposto prêmio.
4. Golpe da central falsa
A vítima recebe uma ligação de um número que imita o da central do banco. Ao pedir ajuda, acaba repassando dados reais para criminosos.
5. Golpe da troca de aplicativo
Criminosos instalam aplicativos falsos nos celulares de idosos, capturando dados bancários e acessos remotos.
Como os idosos podem se proteger de golpes bancários

A educação digital e financeira é uma das principais ferramentas de prevenção. Veja algumas orientações de segurança recomendadas pelo Procon e Febraban:
Dicas de segurança
- Nunca compartilhe senhas, códigos ou dados pessoais com ninguém, nem mesmo com supostos funcionários;
- Evite aceitar ajuda de estranhos em caixas eletrônicos;
- Use apenas aplicativos oficiais dos bancos, baixados pela loja do celular;
- Não clique em links recebidos por SMS, WhatsApp ou e-mail;
- Ative notificações por SMS ou aplicativo para acompanhar movimentações;
- Desconfie de pedidos de PIX, recompensas ou resgates imediatos;
- Prefira usar o cartão de débito e desative o crédito se não for necessário;
- Em caso de dúvida, ligue para o banco usando o número oficial impresso no cartão.
Para quem prefere atendimento presencial
Os especialistas sugerem que os bancos mantenham funcionários especializados em atendimento a idosos, evitando o isolamento digital. Agências com vigilância constante e terminais supervisionados também ajudam a reduzir os riscos.
Conclusão: o desafio da segurança bancária na era digital
O aumento dos golpes bancários contra idosos em 2025 evidencia um desequilíbrio entre inovação tecnológica e inclusão social.
De um lado, as instituições aceleram a digitalização dos serviços; do outro, milhões de aposentados ainda não dominam as ferramentas digitais e ficam expostos à ação de golpistas.
Casos como o de Geraldo, Cilda e Wilson mostram que segurança não é apenas questão de tecnologia, mas também de empatia e suporte humano.
Enquanto bancos e autoridades reforçam suas estratégias, o combate às fraudes contra idosos dependerá de educação, acolhimento e vigilância constante — afinal, o respeito à experiência da terceira idade também é uma forma de proteger o futuro.
