A proposta de uma moeda comum entre os países do Brics — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de novos membros como Irã, Egito e Arábia Saudita — vem ganhando força política e estratégica. Contudo, o projeto, que tem como um de seus principais defensores o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta obstáculos diplomáticos e econômicos internos, especialmente entre as duas maiores potências do bloco: China e Índia.
Economia dos EUA pode ser afetada por moeda dos Brics, diz ex-Fórum Econômico Mundial
Ex-diretor do Fórum Econômico Mundial alerta que moeda comum do Brics pode abalar economia dos EUA e o dólar.
Segundo Frank-Jürgen Richter, ex-diretor do Fórum Econômico Mundial (FEM) e fundador da organização Horasis, o avanço dessa iniciativa pode representar uma ruptura histórica na hegemonia do dólar americano e provocar um impacto profundo na economia dos Estados Unidos.
“Acredito que isso não vai acontecer da noite para o dia. Primeiro, China e Índia precisam superar suas diferenças como as duas principais potências nessa discussão monetária. Mas se isso acontecer, em quatro ou cinco anos, será um grande choque para a economia americana”, afirmou Richter em entrevista à CNN Brasil.
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A proposta de uma moeda comum no Brics
Um projeto político e econômico
A criação de uma moeda comum no Brics tem sido discutida desde a cúpula de 2010, mas ganhou novo fôlego nos últimos anos, impulsionada pelo contexto geopolítico global e pela crescente multipolarização econômica.
A ideia é simples na teoria, mas complexa na prática: criar uma moeda unificada para transações comerciais e financeiras entre os países-membros, reduzindo a dependência do dólar americano nas trocas internacionais.
O projeto tem como objetivo principal:
- Fortalecer a autonomia econômica dos países emergentes;
- Reduzir os custos cambiais nas transações;
- Evitar sanções financeiras internacionais impostas por potências ocidentais;
- Reequilibrar o poder global no sistema financeiro.
A dependência do dólar e o desafio do Brics
Atualmente, cerca de 60% das reservas internacionais globais e 80% das transações internacionais utilizam o dólar americano. Essa centralização dá aos Estados Unidos um poder financeiro desproporcional, permitindo a imposição de sanções e o controle indireto sobre o comércio internacional.
Segundo Richter, esse é exatamente o ponto de desconforto de Lula, Putin e Xi Jinping.
“Essa é, na verdade, a maior preocupação do presidente Trump. O dólar americano é a principal moeda de reserva mundial. Os contratos de petróleo e outras commodities são firmados em dólar”, destacou o economista.
As tensões entre China e Índia: o maior obstáculo
Conflitos históricos e desconfiança geopolítica
Embora China e Índia sejam pilares fundamentais do Brics, os dois países enfrentam conflitos fronteiriços e rivalidade estratégica que dificultam a criação de uma política monetária conjunta.
As disputas no Himalaia, os embates comerciais e o alinhamento indiano com os Estados Unidos no grupo Quad (com Japão e Austrália) são barreiras concretas para uma união monetária.
“Antes de qualquer moeda comum, é preciso haver confiança política e integração financeira. Hoje, China e Índia ainda competem mais do que cooperam”, avaliou Richter.
Dependência econômica e pragmatismo
Mesmo com as divergências, os dois países possuem altos níveis de interdependência comercial. A Índia importa tecnologia e produtos industriais da China, enquanto exporta alimentos e insumos agrícolas.
Para analistas, essa dependência pode funcionar como ponto de convergência econômica no longo prazo, especialmente diante de um cenário de enfraquecimento do dólar.
O papel do Brasil e a liderança de Lula

Lula e a crítica à hegemonia do dólar
Desde o início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem defendendo publicamente a criação de alternativas financeiras globais que reduzam a influência do dólar.
Durante encontros do Brics e discursos internacionais, Lula tem reiterado que “os países não precisam negociar sempre em dólar”, e que uma moeda comum dos Brics poderia facilitar transações comerciais diretas entre as nações emergentes.
“Por que o Brasil e a China precisam usar o dólar para comercializar entre si? Precisamos criar nossos próprios mecanismos”, disse Lula em discurso na África do Sul, em 2023.
Resistência interna no Brasil
Apesar do entusiasmo de Lula, o tema enfrenta resistência dentro do próprio governo brasileiro e entre economistas nacionais.
De acordo com Maurício Prazak, presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Relações Internacionais (IBREI) e membro do Conselho Empresarial do BRICS+ (CEBRICS), a proposta ainda é vista como “tabu” em Brasília.
“A prioridade hoje recai mais sobre integração comercial, cooperação financeira em moeda local e fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), e não em uma moeda única”, explicou Prazak.
Ele destaca que o desafio seria gigantesco: envolveria compartilhamento de riscos, integração fiscal e monetária e divergências cambiais entre economias de perfis muito diferentes.
A possível ameaça à economia americana
O enfraquecimento do dólar
Para o ex-diretor do Fórum Econômico Mundial, a criação de uma moeda comum do Brics seria um “terremoto financeiro” para os Estados Unidos.
“A economia dos EUA é construída com base em empréstimos. É o país mais endividado do mundo, e é difícil até mesmo pagar os funcionários públicos. Se o dólar perder relevância, a base financeira americana se enfraquece”, afirmou Richter.
O impacto seria direto: a redução da demanda global por dólares levaria à queda no valor dos títulos do Tesouro americano, que são a principal forma de financiamento do governo dos EUA.
Reação dos EUA e tensões políticas
O ex-presidente Donald Trump, atualmente pré-candidato republicano, já demonstrou preocupação com a perda da hegemonia do dólar.
Em janeiro deste ano, Trump chegou a ameaçar impor tarifas de até 100% sobre países do Brics que adotarem uma moeda alternativa.
A declaração acirrou o clima de disputa monetária global, refletindo o temor de que a supremacia do dólar — vigente desde o acordo de Bretton Woods, em 1944 — esteja sendo desafiada de forma inédita.
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A alternativa digital: o “Pix do Brics”
O Brics Pay e o sistema financeiro paralelo
Enquanto a moeda comum ainda é um plano de longo prazo, o Brics já avança em soluções digitais de integração financeira, como o Brics Pay, um sistema de pagamentos instantâneos inspirado no Pix brasileiro.
A iniciativa, liderada pela Rússia, foi lançada em 2024 e busca criar uma plataforma integrada de transferências entre os países-membros, sem necessidade de intermediação em dólar ou euro.
“Cada país tem o seu formato desse tipo de pagamento facilitado. Eles fizeram testes e foram bem-sucedidos. Agora, a discussão avança para integração entre os sistemas e interoperabilidade entre moedas nacionais”, explica Prazak.
Alternativa ao SWIFT
O Brics Pay também é visto como resposta direta ao sistema financeiro SWIFT, utilizado por bancos internacionais para transações globais.
Após sanções impostas à Rússia, o país foi excluído do SWIFT e passou a investir em alternativas próprias. Essa experiência acelerou o desenvolvimento de tecnologias financeiras independentes, hoje testadas em escala internacional.
O papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB)
Financiamento e soberania
Outro pilar do projeto financeiro do Brics é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), sediado em Xangai e atualmente presidido por Dilma Rousseff.
O NDB tem ampliado linhas de crédito em moedas locais, fortalecendo a cooperação entre os países-membros e reduzindo a dependência de instituições como o FMI e o Banco Mundial.
Essa estratégia, segundo especialistas, prepara o terreno para a transição gradual rumo a uma moeda comum ou a uma rede de moedas interoperáveis.
Desafios e perspectivas

Obstáculos técnicos e políticos
Apesar do otimismo de alguns líderes, a criação de uma moeda comum do Brics enfrenta entraves profundos:
- Falta de coordenação macroeconômica entre os países;
- Diferenças de nível de desenvolvimento e inflação;
- Risco de assimetria cambial, com a China dominando o sistema;
- Necessidade de instituições monetárias independentes e transparentes.
Para economistas, a ideia de uma moeda comum é viável apenas no longo prazo, e exigiria décadas de integração — semelhante ao processo europeu que levou à criação do euro.
Impactos globais
Mesmo sem uma moeda unificada, o fortalecimento das transações em moedas locais e o avanço de sistemas como o Brics Pay já representam uma mudança estrutural no comércio internacional.
O movimento desafia a supremacia americana e acelera a desdolarização da economia global, um fenômeno cada vez mais evidente entre países emergentes.
Imagem: Nerthuz / Shutterstock.com
