Enquanto empresas como 99Food e Keeta, da gigante chinesa Meituan, aquecem a disputa pelo delivery de comida no Brasil, o iFood, líder absoluto do setor, projeta um passo muito mais ambicioso: tornar-se um banco comercial completo até 2026. O movimento simboliza a transformação do iFood em um ecossistema financeiro e de consumo, com planos robustos de expansão para o mundo físico, soluções em crédito e investimentos em tecnologia de ponta como a IA generativa.
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Um novo iFood: mais que delivery
Segundo Diego Barreto, CEO do iFood, a estratégia da empresa não se limita mais ao tradicional delivery. Em entrevista ao jornal O Globo, o executivo destacou que o foco atual está na integração entre o digital e o físico, fortalecendo a relação com restaurantes e consumidores. Uma das apostas é o recurso “Comer fora”, já disponível em São Paulo, que oferece cashback e descontos para quem consome diretamente nos estabelecimentos parceiros.
“No curto prazo, o foco é o restaurante. O médio prazo envolve a pessoa física, mas dentro de uma lógica de gerar sinergia no meu ecossistema”, afirma Barreto.
A aposta no mundo físico: o salão como novo palco
A presença no salão dos restaurantes é vista como essencial. O iFood busca conectar o comportamento on-line do consumidor à experiência presencial. Em cidades onde o projeto está ativo, basta o cliente informar o telefone ou passar o cartão para ser identificado automaticamente pelo sistema da plataforma. A funcionalidade cria uma experiência mais fluida e personalizada, além de estimular a fidelização com benefícios tangíveis.
Essa integração tem impacto direto na estratégia de crédito e financiamento. Com maior fluxo de dados e interações nos restaurantes, o iFood melhora a análise de risco e potencializa a concessão de crédito.
A fintech que quer ser banco
Desde 2022, o iFood vem operando como uma fintech com foco em crédito para pequenos e médios restaurantes. A empresa já desembolsa mensalmente cerca de R$ 160 milhões em financiamentos, com prazos médios de 18 meses. A expectativa para 2025 é atingir cerca de R$ 2 bilhões em concessões.
Mas o salto vem em 2026. A companhia planeja pedir licença ao Banco Central para se tornar oficialmente um banco comercial, começando com a oferta de depósito remunerado. A meta é clara: expandir os serviços financeiros disponíveis na plataforma, incluindo investimentos, crédito imobiliário e outros produtos bancários.
“Serei um banco comercial completo. Em três anos, vamos oferecer uma gama completa de serviços financeiros”, garante Barreto.
Inovação como diferencial competitivo
Com a expectativa de intensificação da concorrência no setor de delivery — especialmente com a volta da 99Food e a entrada da Keeta —, o iFood aposta que inovação, e não apenas preços baixos, será o diferencial sustentável.
Para Barreto, “a construção de hábito não é baseada no dinheiro, mas na experiência do produto”. A crítica é direta à estratégia de concorrentes que usam altos subsídios e taxas promocionais para atrair restaurantes, algo que o iFood, limitado por acordos no Cade, não pretende adotar como prática generalizada.
“Exclusividade precisa estar atrelada ao investimento. Pagar para excluir concorrentes não é saudável para o setor”, afirma o CEO.
Ailo e o poder da inteligência artificial generativa
Entre as apostas tecnológicas, o destaque vai para o Ailo, uma ferramenta de inteligência artificial generativa desenvolvida pelo iFood. O objetivo da IA é aumentar a personalização da experiência do usuário, tornando notificações e recomendações mais precisas com base em bilhões de dados processados diariamente.
A tecnologia está ancorada em um modelo próprio, o Large Commerce Model (LCM), com 32 bilhões de parâmetros e 10 trilhões de tokens de dados, exigindo um investimento milionário. A ideia é que o cliente receba sugestões não genéricas, mas adaptadas ao seu perfil de consumo, localização, horário e preferências.
Expansão em categorias e novas aquisições

O ecossistema do iFood está crescendo para além do delivery de refeições prontas. Há cerca de um ano e meio, a empresa identificou que seus usuários também são consumidores naturais de outras categorias — como bebidas, farmácia e supermercado.
Os números são expressivos:
- +250% de crescimento em conveniência e bebidas
- +80% em farmácias
- +60% em supermercados
A próxima onda deve incluir pet shops, flores, presentes e até itens de vestuário, ainda que em nichos específicos.
“Não queremos concorrer com gigantes como Mercado Livre. Nosso foco é conveniência, como quando alguém precisa comprar um presente de última hora”, esclarece Barreto.
Aposta em programas populares: Hits e Turbo
Para atender diferentes perfis de consumo, o iFood lançou iniciativas como o Hits iFood, com refeições a partir de R$ 20 e entrega gratuita. O modelo visa criar um novo hábito diário de consumo, tornando o delivery acessível mesmo em faixas de renda mais baixas.
Outro destaque é o iFood Turbo, serviço de entregas ultrarrápidas em até 20 minutos, ideal para quem busca agilidade máxima — como em compras de última hora ou refeições rápidas.
Investimentos bilionários: o futuro em escala

Os planos ambiciosos do iFood estão sustentados por um volume impressionante de investimentos. Em 2025, o aporte previsto é de R$ 17 bilhões. Já para 2026, o valor deve ultrapassar R$ 20 bilhões, com foco em:
- Expansão do ecossistema físico e digital
- Tecnologia e IA
- Crédito e soluções bancárias
- Aquisições estratégicas
Inclusive, duas startups brasileiras de tecnologia estão no radar, com previsão de investimento de ao menos US$ 100 milhões nos próximos 12 meses.
imagem: Divulgação/Ifood
